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Ana Gomes é socialista, mas o Partido socialista decidiu não apoiar formalmente a sua candidatura à eleição para a Presidência da República. No entanto, em França, as duas maiores Secções do PS português, a de Paris-Île-de-France e a de Metz, decidiram apoiar a sua candidatura e apelar ao voto. “Isso só mostra que nós, socialistas, somos gente que pensa com a nossa cabeça, estamos livres” diz numa entrevista ao LusoJornal. “Este é o partido de Mário Soares, de homens fantásticos como António Arnaud, Francisco Salgado Zenha, Manuel Alegre… Durante esta campanha, senti-me muito apoiada pelos Socialistas. Eu não teria chegado aqui se não fosse o apoio dos Socialistas, desde logo na recolha das assinaturas”.

Mas Ana Gomes tem sobretudo o apoio formal do Livre e do PAN. Mas afirma que “os Socialistas não querem votar em Marcelo Rebelo de Sousa porque acham que é um candidato da direita e é contranatura votar em Marcelo Rebelo de Sousa”.

Ana Gomes aceitou responder às perguntas do LusoJornal entre duas ações de campanha em Portugal, e diz que “está na hora de termos uma mulher na Presidência da República”.

Argumentando que “acho que tenho a formação profissional e a experiência de vida para representar os interesses de todos os Portugueses e Portuguesas”, esta é certamente, de todos os candidatos, aquela que mais tempo residiu no estrangeiro, enquanto diplomata, em Genebra, Londres, Tóquio, Nova Iorque, Jacarta, Dili, mas também para acompanhar o marido em funções no Brasil. Também foi Eurodeputada, pelo que viveu alguns anos em Bruxelas. “Mas nunca deixei de vir permanentemente a Portugal, vinha a Portugal quase todos os fins de semana” confessa.

 

As Leis eleitorais têm de ser completamente revistas

Interrogada sobre a obrigatoriedade de voto presencial nas Comunidades, Ana Gomes diz que “esta metodologia de voto preocupa-me e deve preocupar todos os cidadãos, os que estejam fora e os que estejam dentro de Portugal” diz ao LusoJornal. “Não se dá força à democracia sem a participação plena dos cidadãos. E não dar condições de voto aos nossos concidadãos recenseados na emigração é muito grave. Há muito tempo que está para ser legislado o exercício do voto por correspondência como já acontece nas legislativas” e acrescenta que “não há explicação para que nas eleições presidenciais não haja também o voto por correspondência”.

Aliás, Ana Gomes promete empenhar-se nesta causa “independentemente daquilo que vier a ser o resultado das eleições”.

“É importante garantir o direito de voto a todos os cidadãos porque hoje, graças aos meios tecnológicos, os nossos concidadãos no exterior seguem muito mais de perto tudo o que se passa em Portugal, estão interessados, estão empenhados, muitos vivem entre cá e lá. Não faz sentido não deixar que os nossos emigrantes votem. Esta é uma verdadeira indignidade” afirma a candidata.

“Marcelo Rebelo de Sousa diz que não houve tempo. Claro que sim, claro que houve tempo, há 5 anos que nós sabemos que as eleições presidenciais seriam nesta altura”. E sobre o facto dos emigrantes não terem a possibilidade de votarem antecipadamente e em mobilidade, Ana Gomes afirma que “o atual Presidente devia ter agido. Ele é que é o Presidente, ele é que deixou passar essa discriminação no que diz respeito ao voto antecipado, junto da Assembleia da República e junto da Comissão nacional de eleições”.

 

Bater-me-ei pelo voto eletrónico

Ana Gomes diz que quer combater a abstenção. “Em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa já foi eleito com uma altíssima taxa de abstenção de 52%. Foi o Presidente eleito com a segunda mais elevada taxa de abstenção de sempre, e isso não é bom” diz ao LusoJornal, “e agora temo que nestas eleições a taxa de abstenção ainda seja maior, por causa destes constrangimentos”.

O voto eletrónico é uma possibilidade para Ana Gomes. “Eu penso que nós podemos contemplar o voto eletrónico, sobretudo nos dias que vivemos de avanço tecnológico brutal” diz ao LusoJornal. “Claro que isso implica um tremendo investimento em cibersegurança em Portugal. Do meu ponto de vista é uma das áreas onde eu espero, sendo eleita, fazer a diferença. Portugal não investiu na cibersegurança, somos o país da Websummit, nós gostamos de fazer o foguetório todo através da Websummit, mas depois bloqueamos em questões básicas que podiam ser geradoras de emprego de qualidade para jovens”.

“Nós estamos permanentemente confrontados com notícias em que até a justiça é infiltrada por quem lá quer ir roubar peças processuais e isso já em si é demonstrativo de que, de facto, não há investimento suficiente em cibersegurança, em particular nas estruturas críticas do próprio Estado”.

Resumindo, “eu não excluo, e pelo contrário incentivo, a passagem ao voto eletrónico, mas isso implica um tremendo investimento em cibersegurança nas estruturas relacionadas com o voto e outras estruturas relacionadas com o próprio Estado”.

 

Número de Deputados pela emigração tem de quadruplicar

Interrogada sobre o número de Deputados eleitos pela emigração, a candidata socialista diz que “se o número de eleitores quadruplicou, o número de Deputados também deve, pelo menos, quadruplicar”, fazendo alusão ao facto de, nas Comunidades, termos passado de cerca de 300 mil eleitores para mais de 1,5 milhões de eleitores.

“Isto é um problema legislativo, e é a Assembleia da República que deve legislar, mas o Presidente da República está em permanente contacto com os outros órgãos de soberania, respeitando evidentemente a separação de poderes de cada um” diz Ana Gomes ao LusoJornal.

A candidata defende círculos eleitorais uninominais, com uma dose de proporcionalidade. “Do meu ponto de vista, este é um aspeto que me parece importante no quadro da revisão das leis eleitorais. Empenhar-me-ei, nas mensagens e na articulação regular normal com a Assembleia da República e com os partidos políticos, para que efetivamente não se perca mais tempo e que se façam essas reformas que são importantes para reforçar a nossa democracia, sobretudo quando ela está sobre ataque, como em França e como em Portugal” fazendo alusão aos partidos de extrema-direita nos dois países.

 

Temos de apoiar o regresso dos jovens

A candidata socialista diz que foi Conselheira do Presidente Ramalho Eanes, nos anos 80, e já nessa altura o Presidente estava sensível para os assuntos relacionados com as Comunidades. Por isso, considera “uma boa iniciativa” o facto do atual Presidente ter decidido começar a comemorar o 10 de Junho em Portugal e acabar nas Comunidades. E “as boas iniciativas não devem ser descartadas”.

Felicitou também a ação do antigo Secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, e o desempenho da atual Secretária de Estado Berta Nunes.

“Nós somos um país que está a perder população, está sobretudo a perder muita população do interior para o litoral, porque tem havido políticas completamente erradas que não sabem tirar partido da centralidade do nosso interior”. Por isso, Ana Gomes diz que Portugal “tem que atrair os jovens das nossas Comunidades, que chegam com competências, com experiências importantíssimas”.

Contou o caso de Sara Boaventura, filha de emigrantes em França, que trabalhou na Air France durante 10 anos e quando os pais decidiram voltar para Portugal, ela também regressou. Hoje, com 41 anos, é empresária numa empresa que exporta para a França e que fabrica vagões petrolíferos.

“Nós temos que acarinhar o regresso destes jovens, mas isto passa também por uma reorganização em Portugal, para que não se faça o licenciamento do projeto dessa empresa numa decisão tomada em Lisboa, a 400 km de distância do setor onde ela está implantada”.

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