Durante as férias existe um aumento da exposição a situações de risco. Nesta altura do ano é mais frequente fazer refeições fora de casa, experimentar novos alimentos, recorrer a buffets ou consumir refeições preparadas por terceiros, o que dificulta o controlo dos ingredientes e aumenta o risco de ingestão acidental de alergénios. Nas viagens ao estrangeiro, as barreiras linguísticas podem ainda dificultar a comunicação da alergia e a garantia de uma evicção rigorosa do(s) alimento(s) em causa.
Existem efetivamente alimentos mais consumidos durante o verão, como é o caso de alguns frutos frescos da época, nomeadamente o pêssego e outros frutos da família das rosáceas, como a ameixa, a cereja, o alperce ou a nectarina. Na Europa do Sul, incluindo Portugal, a alergia ao pêssego assume particular importância, sendo uma das causas mais frequentes de alergia alimentar em adolescentes e adultos.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, esta alergia nem sempre se limita a sintomas ligeiros na boca. Em alguns doentes, sobretudo nos sensibilizados à proteína de transferência de lípidos (LTP), o pêssego pode provocar reações sistémicas graves. O risco de reação alérgica grave pode ainda aumentar na presença de cofatores como o exercício físico, o consumo de álcool ou a toma de anti-inflamatórios nas horas próximas da ingestão do alimento.
Além dos frutos frescos, mantêm-se como causas frequentes de reações alérgicas o marisco, o peixe, os frutos de casca rija, o amendoim, o leite, o ovo, o trigo e o sésamo. No verão, normalmente existe um aumento do consumo de marisco, peixe, gelados e sobremesas e refeições preparadas por terceiros, onde pode existir maior risco de contaminação cruzada. Também é mais comum experimentar pratos típicos de outros países, cuja composição nem sempre é conhecida. Para quem tem alergias alimentares, estes contextos exigem uma atenção redobrada.
Má conservação dos alimentos
As temperaturas elevadas favorecem a deterioração dos alimentos quando estes não são conservados corretamente, aumentando o risco de contaminação por microorganismos e da produção de substâncias tóxicas. Algumas destas situações podem ser confundidas com alergia alimentar, sobretudo quando os sintomas surgem pouco tempo após a refeição. Um exemplo clássico é a escombroidose, uma intoxicação alimentar por histamina, causada pela ingestão de peixe (como o atum) mal conservado. Nestes casos a acumulação de histamina pode provocar vermelhidão na pele, urticária, cefaleias, náuseas, vómitos, cólica abdominal, diarreia, palpitações, tonturas e sudação e até dificuldade respiratória, podendo simular uma reação alérgica grave.
Os sintomas surgem, na maioria dos casos, poucos minutos após a ingestão do alimento, embora possam aparecer até duas horas depois. Os mais frequentes, que podem surgir isoladamente ou em combinação, incluem:
– Urticária / babas vermelhas e comichão na pele;
– Inchaço dos lábios, língua, face ou garganta;
– Náuseas, vómitos, dor abdominal ou diarreia;
– Tosse, pieira, rouquidão ou dificuldade em respirar;
– Tonturas, sensação de desmaio ou perda de consciência nas reações mais graves.
Distinguir alergia alimentar de uma intolerância alimentar
A alergia alimentar resulta de uma resposta exagerada do sistema imunitário e pode provocar reações graves, mesmo após a ingestão de quantidades muito pequenas / vestigiais do alimento.
Já a intolerância alimentar não envolve o sistema imunitário. Habitualmente provoca sintomas digestivos, como distensão abdominal, gases ou diarreia, náuseas e/ou enfartamento, dependendo muitas vezes da quantidade ingerida. Ao contrário da alergia, não coloca em risco a vida do indivíduo, mas pode ter um impacto significativo na sua qualidade de vida.
Esta distinção é fundamental, porque apenas a alergia alimentar pode constituir uma emergência médica.
Na alergia alimentar, a dificuldade em respirar, o inchaço da língua ou da garganta, a alteração da voz, a dificuldade em engolir, a sensação de desmaio, a perda de consciência ou uma queda da tensão arterial são sinais de uma possível anafilaxia, a forma mais grave de reação alérgica. Nestes casos, a pessoa deve ser imediatamente assistida, e poderá ter que ser administrada medicação injetável, nomeadamente adrenalina.
Reação alérgica pode surgir em qualquer altura
Embora muitas alergias alimentares tenham início na infância, algumas surgem pela primeira vez na idade adulta. Entre as mais frequentes nesta faixa etária destacam-se a alergia aos frutos frescos, nomeadamente ao pêssego e a outros frutos da família das rosáceas, a alergia ao marisco e a alergia aos frutos secos de casca rija e ao amendoim.
É também importante esclarecer que uma alergia alimentar não surge após um primeiro contacto com o alimento. Para que ocorra uma reação alérgica, o sistema imunitário tem de ter sido previamente sensibilizado, ou seja, necessita de reconhecer a proteína responsável pela alergia ou uma proteína estruturalmente muito semelhante. É precisamente por este mecanismo que muitos adultos desenvolvem alergias alimentares. Nas pessoas alérgicas aos pólenes, o sistema imunitário pode reconhecer proteínas semelhantes presentes em determinados frutos frescos, legumes ou frutos de casca rija, originando reações alérgicas quando estes alimentos são consumidos. Da mesma forma, indivíduos alérgicos aos ácaros podem desenvolver alergia ao marisco devido à existência de proteínas muito semelhantes, como a tropomiosina, presentes em ambos. Este fenómeno designa-se por reatividade cruzada.
Assim, quando uma pessoa refere que “sempre comeu aquele alimento sem problemas”, isso não significa que a alergia tenha surgido de um momento para o outro. Na realidade, a sensibilização pode ter ocorrido ao longo do tempo ou através da exposição a outros alergénios com proteínas semelhantes, tornando possível o aparecimento de uma alergia alimentar numa fase mais tardia da vida.
Cuidados a ter quando comem fora de casa
É essencial informar sempre o restaurante sobre a existência da alergia e confirmar se existem medidas para evitar a contaminação cruzada. A contaminação cruzada ocorre quando vestígios de um alimento que causa alergia passam para outro alimento, por exemplo através da partilha de superfícies ou utensílios.
Além disso, recomenda-se:
– Ler atentamente a ementa e esclarecer dúvidas sobre os ingredientes;
– Evitar alimentos cuja composição seja desconhecida;
– Ter especial atenção a molhos, sobremesas e buffets;
– Levar cartões identificativos da alergia traduzidos para a língua local, quando se viaja para o estrangeiro;
– Nunca assumir que um alimento é seguro apenas pela sua aparência.
As pessoas com risco de anafilaxia devem transportar sempre consigo o seu kit de emergência, que deve acompanhá-las durante toda a viagem e estar facilmente acessível. A peça fundamental deste kit é o autoinjetor de adrenalina, que constitui o tratamento de primeira linha da anafilaxia e deve ser administrado sem demora perante uma suspeita de reação alérgica grave.
Além da adrenalina, é habitualmente recomendado transportar um anti-histamínico e um corticóide oral, de acordo com o plano terapêutico definido pelo médico assistente. Nos doentes com asma ou que habitualmente apresentam sintomas respiratórios durante as reações alérgicas, é igualmente importante levar um broncodilatador de alívio (inalador de SOS).
Antes das férias, é aconselhável verificar a validade de toda a medicação, garantir que existe quantidade suficiente para toda a viagem e confirmar que o doente e os seus acompanhantes sabem reconhecer uma reação alérgica grave e utilizar corretamente o autoinjetor de adrenalina.
Experimentar alimentos novos durante as férias
Depende do tipo de alergia e do risco individual. As pessoas com alergias alimentares conhecidas devem ser particularmente cautelosas ao experimentar alimentos desconhecidos, sobretudo quando existe possibilidade de contaminação cruzada ou dificuldade em identificar todos os ingredientes.
Importa também recordar que algumas alergias alimentares podem surgir precisamente em alimentos consumidos apenas de forma ocasional. A exposição intermitente e irregular a determinados alimentos parece favorecer, em alguns casos, o desenvolvimento de sensibilização alérgica. É o que pode acontecer com alimentos muito sazonais ou consumidos apenas em determinadas regiões ou épocas do ano, como os caracóis, as lapas ou as amêijoas. Assim, o facto de um alimento ter sido tolerado anteriormente não garante que não possa surgir uma alergia após exposições repetidas ao longo do tempo.
Sempre que se pretenda experimentar um alimento novo, é preferível fazê-lo em locais onde seja possível confirmar os ingredientes e onde exista acesso rápido a cuidados de saúde, caso ocorra uma reação inesperada.
Independentemente do destino de férias, quem tem uma alergia alimentar deve transportar sempre consigo a medicação de emergência e conhecer o plano de atuação em caso de reação alérgica. Estes cuidados permitem desfrutar das férias com maior segurança e tranquilidade.
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Dra. Susana Piedade
Imunoalergologista
Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC)






