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Cultura

 

O angolano Miguel da Costa (Uíge, 1958) lançou, pela L’Harmattan, o livro “Géopolitique de la R.D. Congo, fragilités, menaces, opportunités et perspectives des relations avec l’Angola”, também disponível em português numa versão em livro eletrónico.

Miguel da Costa formou-se em ciências políticas e trabalhou vários anos para a companhia aérea angolana TAAG, tendo sido o seu Presidente. É, desde julho de 2019, Embaixador de Angola em Kinshasa – o que explica a pertinência deste livro – mas já passou por França, onde foi Cônsul-Geral de Angola em Toulouse e Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de Angola.

Angola e a República Democrática do Congo, o seu vizinho francófono do norte, partilham, incluindo o enclave de Cabinda, 2.511 km de fronteira comum. Fronteira que, como escreve Kodjo Ndukuma Adjayi, professor de Direito, no prefácio do livro, estes dois países “não escolheram, mas que podem reinventar”.

Não esqueçamos que a atual fronteira entre Angola e a R.D. Congo foi desenhada, primeiro, pelos imperialismos colonialistas de Portugal e Reino Unido através do Tratado de1884 e, depois, na Conferência de Berlim de 1885, na qual as potências europeias repartiram, sem qualquer consideração pelos povos africanos, o continente entre si. Um mundo, segundo o autor do prefácio, regido por uma geopolítica ao serviço das potências europeias e ocidentais, que, com o fim da Guerra Fria e o começo da Globalização, se viu substituída por “uma estratégia de dominação socioeconómica”.

Veremos, com o recuo, se os desenvolvimentos no leste da Europa não deitarão por terra esta teoria e transformarão, de novo, os mecanismos geopolíticos em verdadeiros aceleradores da História.

Para Miguel da Costa, as relações entre os povos de Angola e da R.D. Congo, sejam comerciais, culturais ou étnicos, são vitais, não apenas para os dois países, mas para o continente como um todo. Tendo isso em vista, e citando a célebre frase divinatória de Napoleão Bonaparte – “deixemos dormir a China, pois no dia em que ela acordar o mundo tremerá” – o Embaixador angolano pergunta se não poderemos adaptar essa antecipação napoleónica ao continente africano. Será que quanto África acordar, o mundo tremerá?

África é o continente demograficamente mais jovem de todos e, ao contrário da Europa e da Ásia, as projeções de crescimento da sua população são avassaladoras. Enquanto as populações da Europa, China ou América de Norte diminuem e envelhecem de modo dramático, a população africana, nomeadamente em Angola e Moçambique, duplicará até 2050.

Angola e o gigante da R.D. Congo – que contam, respetivamente, com 33 e 91 milhões de habitantes – têm tudo a ganhar se convergirem nas estratégias geoeconómicas. Além de uma economia fronteiriça, muitas vezes informal, os dois países apresentam, nessas mesmas áreas, uma miscigenação étnica e sociológica inegável. Por isso, as instabilidades, sejam políticas ou económicas, num deles, terá inevitáveis repercussões no outro.

É essa análise factual que atribui importância e pertinência a esta obra de Miguel da Costa. No futuro, o “despertar” da R.D. Congo fará estremecer pelo menos os países vizinhos, entre os quais se encontra Angola. Esta obra lança pistas de reflexão, eixos de análise geopolítica e coloca em perspetiva os desafios políticos, económicos e sociais dos grandes blocos regionais africanos. A vizinhança de Angola com a República Democrática do Congo traduz incontornáveis imbricações de realidades geopolíticas e geoeconómicas, e estas, por sua vez, tornam estas duas grandes nações não só interdependentes, mas também complementares.

 

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