“Wedetetepa”, do antropólogo Michel Mignot – À descoberta do povo Xavante do Brasil

Cultura

 

“Wedetetepa, un village indigène du Cerrado (Brésil). Essai d’anthropologie”, do antropólogo Michel Mignot, mergulha o leitor no modo de vida em vias de extinção dos indígenas do Cerrado, essa savana brasileira, bioma em risco devido à pressão do agronegócio brasileiro que alimenta o resto do mundo, nomeadamente o gado europeu.

Perdida no Cerrado, a aldeia indígena de Wedetetepa, nome que significa “madeira bem dura”, perto da cidade de Campinópolis, recebeu a visita de Michel Mignot por três vezes em 2008, 2010 e 2019. As estadias do antropólogo francês, observador-participante, nessa clareira composta por treze casas não teve por base um “projeto científico preciso”, não sendo este livro, portanto, “um estudo planificado de uma aldeia Xavante, tal como o entendemos nas universidades”.

 

Quem é então este povo Xavante?

O povo Xavante, originário do tronco da família linguística Macro-Jê (o Tupi é o outro grande grupo linguístico do Brasil), está reduzido a cerca de 18 mil indivíduos e concentra-se hoje nas reservas indígenas do estado do Mato Grosso. Grandes perdedores da colonização portuguesa do atual território brasileiro, os povos indígenas representam apenas 0,47% da população do país (cerca de 900 mil) e, vítimas de ataques racistas e de constante discriminação, continuam a sua secular luta pela sobrevivência.

Recordemos sem esforço que, em 1500, os povos originais brasileiros constituíam naturalmente 100% da população. Eis a escala do extermínio.

Foi a amizade que levou Michel Mignot, etnólogo e especialista no sudeste asiático, a esta pequena aldeia Xavante perdida no “Cerrado”, o que lhe possibilitou descobrir uma organização social e uma cultura muito diferentes das suas pesquisas anteriores, embora num contexto político particularmente hostil, visto que a própria existência do povo indígena está ameaçada pela expansão agressiva do agronegócio que persiste no ecocídio suicida.

Um livro ricamente ilustrado pelas fotografias do próprio autor que salta da vida do quotidiano na aldeia até à cosmogonia indígena, que concebe o universo como uma casa dotada de uma grande cúpula, passando pela forma como o povo se vê a si próprio: um povo guerreiro. Um vislumbre de um mundo diferente que, ao invés de ser protegido pelo Estado brasileiro como património da humanidade, se vê a caminho da extinção e do esquecimento.

“Wedetetepa” é portanto uma obra muito bem-vinda.

 

Donativos LusoJornal