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Festejámos no passado dia 25 de abril 47 anos de vida em democracia, quase tantos como vivemos em ditadura, na certeza que a liberdade que conquistámos em 1974 irá durar infinitamente mais do que os tempos obscuros da repressão e da censura que durou quase meio século.

Aquilo que melhor caracteriza a democracia é a sua natureza imperfeita, de permanente construção, sem a precipitação daqueles que querem que se destrua tudo para criar algo de novo, sem que saibam muito bem o quê. Sempre que isso aconteceu, gerou-se injustiça, perseguições e sofrimento e, seguramente, uma situação bem pior do que antes havia. As ditaduras nunca foram amigas do povo; sempre usaram o povo e se afirmaram contra ele.

Portugal tem sabido superar sempre as suas crises, evoluir e adaptar-se aos tempos e às necessidades. Somos uma nação antiga, com uma grande história e um passado cosmopolita de que nos devemos orgulhar, mesmo que se possam apontar alguns pecados cometidos ao longo da história.

Mas, como muito bem assinalou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão solene na Assembleia da República, é preciso cautela quando julgamos o passado a uma distância de tantas décadas, de tantos séculos, porque os valores predominantes de então não são, claramente, aqueles que hoje guiam a nossa leitura do mundo.

Os tempos hoje são outros e os desafios são novos. A desinformação e a manipulação da realidade, de que os movimentos extremistas de direita de forma tão oportunista se têm aproveitado, é um flagelo perigoso das nossas sociedades que é preciso combater sem tréguas, para afastar as tensões e os confrontos, sobretudo quando desliza para a vontade explícita de enfraquecer as instituições democráticas e ofender as pessoas, instrumentalizando o racismo e a xenofonia, com discursos antimigratórios como trampolim para ganhar influência à custa dos mais frágeis.

Portugal tem sabido resistir às crises com a força da democracia que se foi consolidando e nenhuma ameaça tem sido suficientemente forte para a derrubar. Não derrubou a pandemia, como não derrubará o extremismo de direita, tóxico e venenoso, que, entretanto, emergiu no país, com a sua retórica bafienta de laivos salazaristas, com os seus discursos ignóbeis que enchem cada palavra que proferem com manipulação e mentira para convencer os mais desprevenidos. Como antes se dizia, a reação não passará, e, mais tarde ou mais cedo, muitos dos que agora aderem a esses movimentos, acabarão por ver a ilusão para que estão a ser arrastados. Não são bem-vindas, por isso, as ideias do antigo regime nem o saudosismo fascista que envenenam a sociedade.

Portugal evoluiu, desde o 25 de abril de uma forma notável. É claro que haverá sempre muito por fazer, como sempre acontece em qualquer democracia. A democracia é um processo de permanente construção, com o escrutínio dos cidadãos. Longe estão os tempos do atraso de 1974 em que a mortalidade infantil levava 50 por cento dos bebés e crianças, em que o acesso à saúde e à educação era só para alguns privilegiados, em que a emigração devastava o país, em que havia guerra colonial, em que a água e eletricidade falhavam constantemente, em que as estradas e os portos eram inexistentes, em que a pobreza e a ignorância marcavam o atraso do país.

Nunca será demais lembrar o papel central do Parlamento e das instituições democráticas, da justiça no combate sempre inadiável à corrupção, do esforço para eliminar as desigualdades, da pobreza e da exclusão e do aumento acelerado do salário mínimo e das reformas para os idosos, do acesso ao ensino superior agora em linha com a média da União Europeia.

Quem pode ignorar que em 1974, em proporção, o salário mínimo estava em 17 euros e hoje está em 665 euros, que o PIB per capita aumentou de 57 mil euros para perto de 200 mil euros, que as pensões médias aumentaram de 30 euros para 4.570, entre tantas outras coisas que foram fundamentais para melhorar a vida de todos. Tantas conquistas. Tantas conquistas que temos obrigação de defender, todos, com sentido de justiça, sem cair nas tentações das respostas fáceis e nos cantos de sereia dos movimentos extremistas que destroem o que abril conquistou.

 

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