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Opinião: LusoJornal – voz, memória e expressão identitária da Diáspora Portuguesa


No âmbito do fórum “Conhecer, Investigar e Difundir”, do 14 e 15 de maio, realizado no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa, sobre Migrações Portuguesas foi-nos solicitado a apresentação de uma palestra sobre o tema “O LusoJornal: Voz, Memória e Expressão Identitária da Diáspora Portuguesa”, reflexão profunda sobre o papel do LusoJornal enquanto espaço de memória, identidade e expressão cultural da diáspora portuguesa em França.

Na nossa intervenção, destacamos a importância dos meios de comunicação comunitários na preservação da história da imigração portuguesa, na valorização da língua e na construção de pontes entre gerações. Da palestra, fica este resumo do que ali dissemos.

Um jornal ao serviço da Comunidade portuguesa

Fundado em setembro de 2004 pelo jornalista Carlos Pereira, o LusoJornal nasceu como um semanário gratuito dirigido aos portugueses residentes em França. Distribuído em bancos, associações, rádios e espaços ligados à imigração portuguesa, tornou-se rapidamente uma referência incontornável da Comunidade luso-francesa.

Hoje, o jornal é acompanhado por cerca de 200 mil leitores e distingue-se pela sua especialização em temas ligados à emigração portuguesa, à vida associativa, às relações entre França e Portugal, à cultura lusófona e à memória histórica da imigração.

A publicação, bilíngue em português e francês, consegue aproximar diferentes gerações: os emigrantes das décadas de 1960 e 1970, mas também os seus filhos e netos, muitas vezes mais francófonos do que lusófonos.

Um arquivo vivo da imigração portuguesa em França

Ao longo dos anos, o LusoJornal consolidou-se como um verdadeiro arquivo da presença portuguesa em França. Cada reportagem, testemunho ou artigo contribui para preservar fragmentos da memória coletiva da imigração, histórias frequentemente ausentes dos grandes meios de comunicação e dos discursos oficiais.

Todos os exemplares do LusoJornal em papel estão atualmente em processo de digitalização, bem como centenas de vídeos produzidos pelo jornal, permitindo o acesso público e o trabalho de investigação histórica.

Durante cerca de três anos, o LusoJornal desenvolveu igualmente conteúdos audiovisuais em direto, aproximando-se de um modelo de televisão comunitária. Entre os programas transmitidos, animamos “Conversas Soltas”, espaço semanal de entrevista e debate sobre temas ligados à Comunidade portuguesa.

Escrever contra o esquecimento

Há cerca de 12 anos que escrevemos para o LusoJornal, ao todo são cerca 1.700 artigos publicados entre as versões impressa e digital do jornal, muitos dos artigos sendo o resultado de longas horas de investigação.

A escrita surge, neste contexto, como uma forma de preservar memórias e dar voz às experiências humanas da diáspora portuguesa. Mais do que relatar acontecimentos, escrever sobre a emigração significa documentar percursos de vida, dificuldades, conquistas e formas de pertença.

“O LusoJornal escreve sobre aquilo que os outros não escrevem”, foi uma das ideias centrais defendidas durante a intervenção.

Parte do trabalho desenvolvido pelo LusoJornal centra-se no chamado “dever de memória”, especialmente em relação à participação dos portugueses nas Guerras mundiais e na Resistência francesa.

Estamos convictos que os artigos do LusoJornal muito ajudaram e contribuíram para a recuperação da Cruz Portuguesa no cemitério de Ambleteuse, a renovação do monumento português em Boulogne-sur-Mer, a valorização do Cemitério militar português de Richebourg, a criação de cerimónias militares portuguesas em Boulogne-sur-Mer e em Ambleteuse… Cerca de 30 artigos de investigação permitiram colocar em evidência, de lembrar portugueses deportados, Resistentes ou integrados na Legião Estrangeira durante a II Guerra Mundial.

Todo este trabalho de investigação e divulgação histórica tem tido eco significativo junto da Comunidade e das instituições francesas e portuguesas.

A língua portuguesa como espaço de pertença

Outro dos temas centrais da palestra foi a preservação da língua portuguesa na diáspora. Ler um jornal em português representa, para muitos emigrantes, uma ligação emocional às origens e à memória familiar.

Foram levantadas, no entanto, preocupações quanto ao enfraquecimento do ensino da língua portuguesa em França. Apesar de existirem cerca de dois milhões de portugueses e descendentes no país, apenas cerca de 14 mil alunos estudam português.

A intervenção questionou igualmente se Portugal estará a abandonar progressivamente o ensino da língua junto das comunidades emigrantes, alertando para o risco de quebra da ligação cultural entre as novas gerações e o país de origem dos seus descendentes.

Qual a importância de escrever para o LusoJornal?

Escrever para o LusoJornal permite-nos compreender melhor a riqueza cultural da Comunidade portuguesa, mas também as suas fragilidades, os seus silêncios e as suas memórias. Cada tema torna-se uma oportunidade para refletir sobre o que significa ser português fora de Portugal.

Essa identidade manifesta-se através da cultura, da gastronomia, das festas, da música, das associações e das histórias familiares, mas também através da saudade e da necessidade de manter uma ligação simbólica às origens.

Escrever para um jornal da diáspora implica igualmente responsabilidade: preservar memórias, representar a Comunidade de forma digna e escrever contra o esquecimento. Muitas histórias da imigração são feitas de pequenos percursos individuais que correm o risco de desaparecer com o tempo. Quando são registradas e partilhadas, passam a integrar uma memória coletiva.

O LusoJornal desempenha ainda um importante papel cultural. Divulga artistas, acompanha eventos, promove iniciativas e fortalece os laços sociais entre os imigrantes, tornando-se, assim, um espaço de encontro cultural onde os portugueses da diáspora se podem reconhecer.

Ao mesmo tempo, a diáspora portuguesa está em transformação. As novas gerações vivem identidades mais híbridas, sentindo-se simultaneamente francesas e portuguesas. Isso não representa uma perda de identidade, mas antes uma redefinição das formas de pertença. Os meios de comunicação da diáspora precisam, por isso, de continuar a adaptar-se às novas linguagens e às transformações digitais, sem perder o essencial: a preservação da memória e da ligação humana.

Refletir sobre o LusoJornal é, portanto, refletir sobre a importância de preservar as histórias da diáspora portuguesa. Cada testemunho e cada memória partilhada ajudam a construir uma narrativa coletiva sobre quem somos enquanto Comunidade.

O LusoJornal não é apenas um jornal. É um espaço de memória, identidade e continuidade cultural. Um espaço onde os portugueses da diáspora podem continuar a reconhecer-se, a expressar-se e a manter viva a ligação às suas origens.

Estamos convencidos de que informar é também fortalecer a Comunidade, contribuído para dinamizar a vida associativa portuguesa, criar elos de ligação e desafios, sobrevivências…

A diáspora e os desafios da representação política

A última palestra do colóquio teve como tema: “O que falta estudar?”, abordando ideias como: participação dos intervenientes, identificar lacunas científicas, pedagógicas e políticas.

Antes da abordagem deste tema por Jorge Macaísta, da Comissão de Migrações, colocamos a questão sobre o reduzido peso político da diáspora portuguesa, apesar dos milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo mundo. Foi sublinhada a fraca participação eleitoral nas últimas eleições presidenciais em França e a crescente influência de discursos populistas e extremistas junto de alguns setores da Comunidade emigrante.

Nesse contexto, foi defendida a necessidade de existirem órgãos de comunicação social fortes na diáspora, capazes de combater a desinformação e de promover um debate informado, em vez de deixar espaço apenas às redes sociais e às plataformas digitais.

A falta de apoio aos meios de comunicação da diáspora

Um dos aspetos mais críticos da intervenção incidiu sobre a ausência de apoio institucional aos jornais da diáspora portuguesa. Foram denunciadas dificuldades frequentes no acesso a informações junto de organismos portugueses, bem como a inexistência de apoios sólidos aos meios de comunicação comunitários, a crise da imprensa afetando particularmente os jornais da diáspora, os quais tentam sobreviver muitas vezes graças ao voluntariado e ao empenho pessoal dos seus colaboradores.

A cultura da diáspora ainda pouco reconhecida em Portugal

A palestra terminou com uma reflexão sobre a necessidade de Portugal reconhecer mais plenamente os artistas, escritores e criadores culturais da diáspora. Foi referido o caso da escritora Mélissa da Costa, autora de enorme sucesso editorial em França, mas ainda sem tradução das suas obras em português.

Estamos convictos que o verdadeiro reconhecimento da diáspora acontecerá quando Portugal começar também a convidar artistas e criadores lusodescendentes para apresentarem o seu trabalho no país.

Um espaço de identidade e continuidade cultural

Mais do que um jornal, o LusoJornal foi apresentado como um espaço de memória, identidade e continuidade cultural. Um lugar onde os portugueses da diáspora podem reconhecer-se, partilhar histórias e manter viva a ligação às suas origens.

Num contexto em que as identidades se tornam cada vez mais híbridas, o papel destes meios de comunicação continua a ser fundamental para preservar a memória coletiva e fortalecer os laços entre Portugal e as suas comunidades espalhadas pelo mundo.

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