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Há dois anos que Paula Gomez luta sem descanso, e com uma coragem enorme, para que seja reconhecido o enorme prejuízo que sofreu, depois duma intervenção cirúrgica.

Foi em julho de 2018 que esta portuguesa foi admitida na policlínica de St. Herblain, localidade a oeste da França, perto de Nantes, para uma mastectomia (1). Depois de ter tido alta, teve de ser novamente hospitalizada, devido a uma infeção nosocomial (2).

“Eu fui operada na policlínica e saí depois da operação. Alguns dias depois dei entrada nas urgências, onde me detetaram um estafilococo dourado”, explicou ao LusoJornal.

O balanço desta hospitalização é trágico: Paula Gomez teve de ser amputada dos dois pés, do antebraço esquerdo, e de três dedos da mão direita. Depois teve de fazer uma longa reeducação, e hoje desloca-se em cadeira de rodas, ou utiliza várias próteses para poder dar alguns passos.

Mas, apesar de tudo, esta portuguesa, de 52 anos, casada com um francês de origem espanhola, e mãe de três filhos, afirma que são eles que lhe dão a coragem para continuar a sua luta para ver reconhecido este acidente de que foi vítima e o prejuízo que sofreu.

Paula Gomez, que exercia a profissão de solicitadora (3), perdeu uma grande parte da sua autonomia, e precisa sempre de uma pessoa que a ajude a deslocar-se e tudo isso acarreta despesas muito elevadas. Segundo nos disse, devido a ter uma profissão liberal, e também ao salários elevados do seu marido, não pode receber a AAH (Allocation Adulte Handicapé) uma pensão para adultos deficientes que a ajudaria a enfrentar as enormes despesas inerentes ao seu estado de saúde.

“Hoje em dia, em França, temos a sorte de ter um organismo que indemniza pessoas vitimas de acidentes médicos. As infeções nosocomiais são acidentes médicos” referiu Paula Gomez.

O problema tem-se arrastado e a pandemia de Coronavirus piorou a situação, pois teve de esperar pelo fim do confinamento para poder mover um processo contra a policlínica. Pior ainda: um processo deste tipo dura, em média, três anos! “Eu tentei resolver o problema de comum acordo com a policlínica, mas eles recusaram” justifica em declarações ao LusoJornal.

Muitos deficientes continuam a poder conduzir os seus veículos, mediante a transformação, adaptada a cada tipo de deficiência. Mas essa modificação custa muito caro. “Neste momento não posso trabalhar e limito-me a aconselhar algumas pessoas que precisam da minha ajuda, mas mesmo isso me é difícil, pois não posso deslocar-me como antes, conduzir um veículo normal”.

As declarações de Paula Comez, deixam-nos compreender uma grande dor, mas também uma coragem imensa. Amigos e familiares afirmam que ela sempre teve muita personalidade e coragem, e ela prova isso mesmo ao afirmar que “neste momento bato-me contra o meu cancro, mas também me bato contra a minha deficiência. Agora tenho também de me bater para fazer respeitar os meus direitos, e estou a travar uma batalha jurídica. Mas eu sou crente, tenho fé, e espero que as coisas se passem pelo melhor”.

Numa situação tão delicada, muitas pessoas esmorecem, mas Paula Gomez afirma que é muito importante dar a conhecer o que lhe aconteceu, “pois trata-se de um problema muito frequente, nos estabelecimentos hospitalares” e que deseja “alertar o maior número de pessoas”. “O que me aconteceu a mim, pode acontecer seja a quem for. Hoje toda a gente precisa ir ao hospital por uma razão qualquer, e eu não acho normal que na época em que vivemos se entre no hospital para ser tratado, e se saia com uma deficiência para o resto da vida”.

 

(1) A mastectomia é uma forma de tratamento do cancro e consiste na ablação da mama.

(2) O estafilococo dourado (staphylococcus aureus) é uma bactéria muito perigosa, que pode provocar doenças que vão da simples infeção, até doenças extremamente graves.

(3) Profissão liberal. Licenciado em Solicitadoria ou em Direito, este profissional exerce o mandato judicial e presta consulta jurídica (Wikipédia).

 

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