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Neste segundo domingo do mês de maio, a aldeia de Cávado, perto de Viseu, festejava o seu Santo padroeiro e a população estava em grande animação. Durante dois dias tinha lugar a festa profana e a religiosa. Tanto a devoção popular como a alegria eram contagiosas e sempre reunia gente da região.

Quatro homens com idade na casa dos quarenta anos, todos casados e pais de filhos, passavam as festas com alegria, mas também com receio, pois tinham planeado partir para França no final dos festejos. Alguns conterrâneos e familiares já viviam em França e ao voltarem de férias, tinham dado muitas boas notícias sobre os modos de vida e também o valor dos salários, que por ali se podiam ganhar.

“Posso dizer – e tenho aqui o Carlos que não me deixa mentir – que nós ganhamos lá na ‘usine’ três francos e meio por hora e trabalhamos 130 horas por mês, o que nos faz, depois do câmbio a três escudos, cada franco, perto de oito contos limpos. Hoje, aqui em Portugal ganhamos dois contos e meio no máximo, ao mês. Vê de pois a diferença” dizia o António, recentemente chegado, precisamente para viver a festa da sua terra.

E eram estes argumentos que, nos finais dos anos sessenta, faziam com que a população rural e até citadina, procurava sair do país e tentar uma nova vida no estrangeiro, em França ou na Alemanha, ou até outros países europeus.

Só a vizinha Espanha é que não era tentadora, pois a peseta tinha quase o mesmo valor que o escudo e os salários eram quase idênticos.

Os quatro chefes de família, tinham já refletido demoradamente nesta aventura que iam viver dentro de dias. José, Albano, Aquilino e Artur iriam seguir a mesma estratégia para esta situação, quando se tratava de se passar a fronteira clandestinamente: o “salto”, como era conhecido e era descrito como umas horas de caminho, a pé ou de carro e mesmo de comboio, mas sem documentos legais, para se (ultra)passar a fronteira. Eram caminhos rurais ou mesmo simples caminhos de cabras, pelos montes raianos de Portugal ou de Espanha, mas sempre perto de eixo rodoviário principal, para depois se facilitar o transporte e a travessia da vizinha Espanha com um meio motorizado. Perto de 600 quilómetros separam a cidade de Vilar Formoso e a cidade de Hendaye, que se situa já em terras de França.

Um “passador” de nomeada, tinha por alcunho o “Bacalhau” – era como um nome de código, se assim se podia dizer e deste modo, o seu verdadeiro nome não andava nas bocas das pessoas, nem mesmo se falava da sua terra ou família.

Ele foi contratado já havia uns meses e tudo foi combinado entre eles, nos mais pequenos pormenores.

“Eu tenho os meus preços e as minha garantias falam pelos preços” dizia o Senhor Bacalhau. “Vocês preparam-se e eu levo-os até França, até mesmo ao vosso destino final. Depende dos preços que vocês querem pagar. Tenham em conta o carro de aluguer, os bilhetes de comboio e alguma comida. Dão-me duas terças do valor de imediato e o resto será alguém que por cá fica de família que mo dará. Até ao destino que vocês me disseram, são 20 contos cada um. Se estão de acordo, vamos lá a isto”.

E assim se concluía o negócio da viagem entre os quatro Cavadenses e o Senhor Bacalhau, uns dias depois do Carnaval.

Segunda-feira, pelas 5 horas da madrugada, discretamente, um carro de aluguer particular entra na aldeia adormecida e parou junto do chafariz centenário, onde a água cantava a sua melodia ao cair no tanque, melodia que estes quatro homens iriam recordar com saudade.

Entraram no carro, partiram silenciosos e sem abraço nem carinho aos familiares que abandonavam, para não mostrarem a dor que lhes ia na alma.

“Eh pessoal, estamos a cerca de 180 quilómetros de Vilar Formoso. Temos para duas horas e meia. Como está planeado, eu deixo-vos perto da vila de Vilar e depois passo para o outro lado da fronteira com o carro e vocês vêm lá ter comigo. Depois arrancamos em direção da França. Tudo se passará bem, podem fazer-me confiança” disse o passador.

Como tinha anunciado, o tempo foi passando e a distância era percorrida, deixando para trás Fornos, Celorico da Beira, a cidade da Guarda e inúmeras pequenas aldeias que ladeavam a estrada nacional.

Um pequeno alerta à saída de Pinzio, onde se pensou que a Polícia de Estado estaria a fazer uma operação de controle. O passador, com poucas palavras, explicou que estavam em passeio, de visita a familiares e puderam continuar a viagem sem mais incómodo.

Fizeram uma pequena pausa para “arrefecer” o carro, como explicou o passador, e também para matarem a sede junto de uma fonte de J.A.E., no centro de um largo, vizinho da estrada, e onde facilmente se podia estacionar à sombra de altos pinheiros, o que se tornou muito agradável para todos.

Os quatro homens, que se conheciam desde a infância, não tinham vontade de falar. O medo e a saudade tinham-se apoderado das suas almas. Simples olhares e pequenos sorrisos traduziam inúmeros sentimentos que os faziam sofrer. Mas a expectativa de tempos melhores e vidas mais agradáveis na companhia das famílias, dava-lhes a força de fazerem esta viagem de descoberta, mas com muitas incertezas.

“Eh rapazes, então estão mudos e surdos ou quê? Isto vai-se passar bem. Car***o! Não se aflijam” dizia de tempos a tempos o Senhor Bacalhau, para os encorajar.

Chegaram o destino indicado pelo passador.

Desceram do carro, escutaram as últimas recomendações que lhes foram dadas antes da passagem pela fronteira. “Agora, vão dois a dois, direitos além àquele hotel que estão a ver, e depois dois entram no café que está à esquerda e os outros dois ficam à porta do hotel, porque de lá vocês podem ver-me a passar a fronteira no carro. Depois de eu estar do outro lado, e sempre dois a dois, distanciados de uns 50 metros, vocês avançam para a fronteira. Entendidos?”

Foi assim que fizeram. O José e o Aquilino entraram no café, pediram uma bebida, o Albano e o Artur, parados mais acima, lado a lado, fumavam com ar distraídos, observando, por debaixo da pala dos chapéus, a fronteira distante de cerca de 200 metros.

Na fronteira o cenário anunciado verificou-se sem problemas, e o passador estava já conduzindo o seu Opel Record em terras de Fuentes d’Onoro.

Os quatro homens preparavam-se para passar a fronteira, porque neste preciso horário, ninguém lhes pediria documentos nem informações sobre o destino, nem em Portugal, nem em Espanha. A cumplicidade entre a Polícia fiscal e os passadores dava estes desfechos felizes aos clandestinos que procuravam sair de Portugal.

Só que… um velho Mercedes preto parou junto a Albano e Artur, que caminhavam já em direção da fronteira, a cerca de 50 metros do destino final. Três homens saíram do carro e um deles ficou ao volante, deixando o motor a trabalhar. Pela maneira de vestirem, não deixavam dúvidas sobre aquilo a que vinham e qual era a profissão.

“Então estão de viagem?” disse um deles. “Vocês sabem que por aqui não é bom andar a pé? Apresentem os vossos documentos de identidade e rápido. Qual era o vosso destino meus meninos?”

O José e o Aquilino observavam a cena e não se mexeram do café. Minutos depois viram os seus amigos entrarem no carro da Polícia, que fez inversão de marcha, e voltou para o centro de Vilar Formoso, desaparecendo na curva.

“Já estão fod**os os dois. Se o Bacalhau não untou as mãos aos f***os da p**a, já por aqui ficam e também nós ficamos” disse José, com medo.

“Talvez não. E nós… o que é que fazemos? Fazemos como ele nos disse? E se nos apanham também?” respondeu Aquilino. “Deus queira que não. Vamos lá… ver. Ele disse para lhe fazermos confiança, não foi? Então…”

Ainda caminhavam no passeio e estavam perto da saída do café, quando de novo, o mesmo velho Mercedes veio estacionar junto de José e de Aquilino, e nos mesmos moldes foram “embarcados” pela Polícia.

Não fizeram oposição nenhuma, como tinha prevenido para estes casos, o Senhor Bacalhau. Deram entrada na sede da PIDE de Vilar Formoso, onde se encontravam já os amigos e foram interrogados sobre o destino que tinham e outras coisas mais, durante uma hora. Mas se destino eles tinham, não o divulgaram. Cada um, em sua cela, passaram metade da noite e por volta das três da manhã, aconteceu uma boa surpresa.

O Senhor Bacalhau foi anunciado por um Polícia, como sendo amigo deles, e que os vinha buscar para os levar à Guarda.

Coisa que não aconteceu, pois no cruzamento, a direção tomada foi a da fronteira, e as terras de Espanha. “Por aqui me vistes…” disse o Senhor Bacalhau.

Mais tarde, vieram a saber que o Senhor Bacalhau tinha grandes amigos e conhecimentos por aquelas paragens e tudo se podia arranjar.

Dois dias depois, estavam em Lyon, em casa de familiares que os albergaram e que tinham já promessas de trabalho.

Uma nova vida ia começar para estes quatro homens.

 

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