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Aristides, o Cônsul que salvou vidas, homenageado no Panteão onde “permanecerá até ao fim dos tempos”

Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz Lusa | Mário Cruz

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O antigo Cônsul português Aristides de Sousa Mendes, que salvou milhares de judeus do regime nazi, foi hoje homenageado no Panteão Nacional, onde “permanecerá até ao fim dos tempos”, numa cerimónia acompanhada por música clássica e alertas para a atualidade.

Minutos antes das 11h00 da manhã (hora de Lisboa), no interior do Panteão Nacional, no Campo de Santa Clara, em Lisboa, já as paredes estavam iluminadas em tons de azul e laranja e o rosto de Aristides de Sousa Mendes projetado nos vários ecrãs espalhados pelo recinto.

67 anos após a morte do antigo Cônsul, foram várias as personalidades que marcaram presença na cerimónia que hoje homenageou Aristides de Sousa Mendes, através de um túmulo sem corpo, já que os restos mortais ficarão na terra-natal do antigo Cônsul, em Cabanas de Viriato, Viseu.

Entre os presentes estavam vários Ministros, como o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva ou a Ministra da Cultura, Graça Fonseca, alguns líderes partidários e também Deputados da Assembleia da República, nomeadamente, os que fizeram parte do grupo de trabalho responsável pela homenagem, na sequência da aprovação de uma resolução apresentada pela Deputada Joacine Katar Moreira – na altura ainda em representação do Livre.

Durão Barroso, antigo Primeiro Ministro português, e Carlos Moedas, que tomou posse esta segunda-feira como Presidente da Câmara de Lisboa, também assistiram à cerimónia, bem como outras figuras e vários familiares, entre sobrinhos-netos ou netos de Aristides.

Perto das 11, hora marcada para o início da cerimónia, entraram pela porta principal do Panteão o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro Ministro, António Costa e o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Ocupados todos os lugares, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos interpretou o hino nacional, que ecoou pelas paredes do Panteão.

Coube a Margarida de Magalhães Ramalho, investigadora e coautora do Museu Virtual Aristides de Sousa Mendes, o elogio fúnebre ao mais famoso diplomata português, durante o qual recordou voz da consciência que levou Aristides a salvar milhares de pessoas, lembrando a perseguição aos judeus durante a II Guerra mundial, que terminou com seis milhões deles mortos, entre outros que o nazismo perseguiu.

O Coro do Teatro Nacional de São Carlos voltou a atuar, desta vez para interpretar Requiem, de Fauré: Introit et Kyrie, momento musical que antecedeu a projeção de um vídeo com testemunhos sobre Aristides de Sousa Mendes, a maioria de refugiados ou descendentes salvos pelo antigo Cônsul.

Seguiu-se a intervenção do presidente da Assembleia da República, que evocou o “ilustre português” Aristides de Sousa Mendes, alertando para fenómenos atuais de ódio racial, homofobia, antissemitismo e “recusa do outro”.

Depois de novo momento de música clássica, o Presidente da República subiu também ao púlpito, para declarar que Portugal se curva perante a personalidade moral do antigo Cônsul Aristides de Sousa Mendes, que salvou milhares de judeus, “eternamente grato”, recordando-o “hoje e para sempre”.

O Chefe de Estado defendeu também que “não há raças, etnias, religiões, culturas, civilizações que sejam umas mais do que outras”, salientando que as entradas no Panteão Nacional em democracia, nomeadamente de mulheres, expressam a diversidade da sociedade portuguesa.

“Aqui entrou Aristides de Sousa Mendes e aqui permanecerá até ao fim dos tempos, se os tempos tiverem fim”, declarou.

Foi pelas 12h03 que se formou o cortejo na nave central do Panteão Nacional constituído por assistentes parlamentares, o Chefe do Protocolo do Estado e Secretário-geral da Assembleia da República, o Presidente da República, o Primeiro Ministro, o Presidente do Parlamento, Silvério de Sousa Mendes (familiar de Aristides de Sousa Mendes), o Coordenador e membros do grupo de trabalho parlamentar responsável por definir o processo de concessão de honras e o Diretor do Panteão Nacional.

O cortejo dirigiu-se até à sala 2 do Panteão, onde se procedeu ao descerramento da placa evocativa da homenagem a Aristides de Sousa Mendes e a bandeira nacional foi dobrada por militares da Guarda Nacional Republicana e entregue pelo Presidente da República ao familiar de Aristides de Sousa Mendes.

Com nova interpretação do hino nacional, passavam poucos minutos do meio-dia quando a cerimónia terminou. Lá fora, o movimento de populares foi escasso, dominado mais pelo aparato jornalístico ou alguns transeuntes curiosos.

Nascido em 19 de julho de 1885, na aldeia de Cabanas de Viriato, concelho do Carregal do Sal, Viseu, Aristides de Sousa Mendes morreu em abril de 1954, no Hospital Franciscano para os Pobres, em Lisboa.

Aristides de Sousa Mendes salvou milhares de judeus e outros refugiados do regime nazi, emitindo vistos à revelia das ordens da ditadura – a maioria entre 12 e 23 de junho de 1940 – o que lhe valeu mais tarde a expulsão da carreira diplomática, acabando por morrer na miséria.

Em 1966, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, prestou-lhe homenagem, atribuindo-lhe o título de ‘Justo entre as Nações’.

Em Portugal, em abril de 1988, a Assembleia da República decretou, por unanimidade, a reintegração, a título póstumo, na carreira diplomática do ex-Cônsul em Bordeaux, reconhecendo-se também o direito a indemnização reparadora aos herdeiros diretos.

Aristides de Sousa Mendes foi também condecorado, a título póstumo, em 1986, com o grau de Oficial da Ordem da Liberdade e, em 1995, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, ambas pelo Presidente Mário Soares e mais recentemente em 2016, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, por Marcelo Rebelo de Sousa.

Recentemente, em abril, o Senado norte-americano aprovou por unanimidade uma resolução em homenagem a Aristides de Sousa Mendes.

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