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Após 55 dias de confinamento, os franceses regressaram ontem às suas rotinas com muitas limitações, novas regras e apreensão, especialmente para quem tem de se deslocar em transportes públicos numa zona de risco como a região parisiense.

“Não tive muito medo [de voltar ao trabalho], mas claro que tenho receio de ficar doente. É importante concentrarmo-nos nas coisas que temos para fazer, mas não escondo que não dormi muito com a preocupação”, revelou Helena, em plena Gare du Nord, em declarações à Lusa ontem de manhã.

Helena, que trabalha num atelier de artes, voltou ontem ao seu local de trabalho físico, após quase dois meses de teletrabalho e, para isso, utilizou os transportes públicos desde a sua casa, em Pantin, até Paris.

O trajeto “fez-se bem” e com “pouca gente nos transportes”, mas de forma muito diferente do que é habitual, relata à Lusa esta francesa com origens italianas. No chão, há marcações sobre sentido de circulação, agentes distribuem gel desinfetante e, acima de tudo, o uso de máscara é obrigatório.

Uma tarefa complicada especialmente na Gare du Nord, que é a maior estação de comboios da Europa e a terceira do Mundo. Por dia, passam por aqui 700 mil pessoas e para além dos comboios de longo curso, há 25 linhas que servem Paris vindas dos seus arredores.

Foi a pensar nisso e na dificuldade de encontrar máscaras à venda a preços razoáveis que a região de Île de France (que engloba Paris e os seus arredores), promoveu ontem de manhã a distribuição gratuita de 110 mil máscaras nesta estação. “Decidimos responder à urgência sanitária. Não queremos que nos nossos comboios e linhas de metro os utentes estejam sem máscara. E é por isso que estamos aqui a dá-las. O Estado ainda não encontrou uma solução, portanto a nosso região Île-de-France está na primeira linha”, afirmou Patrick Karam, membro do Conselho Regional da região.

No início do mês de abril, Patrick Karam demitiu-se das funções de vice-Presidente do Conselho Regional, mantendo-se contudo na estrutura, por considerar que havia má gestão das medidas sanitárias por parte de autoridades como a Agência Regional de Saúde e do consórcio que gere os hospitais da região parisiense.

Patrick Karam reconhece que ainda é difícil encontrar máscaras e que isso é um problema, especialmente numa região tão afetada pelo vírus. “O desconfinamento é um verdadeiro problema porque o vírus circula. E a nossa é uma das regiões mais complicadas e expostas”, indicou.

Paulo Marques, autarca de origem portuguesa da cidade de Aulnay-sous-Bois e também Presidente da Civica, associação que agrupa os eleitos de origem portuguesa em França, veio ajudar nesta distribuição. “Há um certo medo, mas finalmente o Governo decidiu trabalhar juntamente com as autarquias e isso era algo que já devia ter feito antes. Estamos a fazer tudo o que podemos para apaziguar as pessoas”, indicou o eleito de origem portuguesa.

David, que começou ontem um novo trabalho em Lille e tem passagem obrigatória pela Gare du Nord, diz não ter receio de apanhar transportes públicos nem voltar a circular livremente. “Vou começar um novo trabalho. E é uma nova jornada de todos os pontos de vista. Estive confinado na minha casa, junto a Rennes. Hoje no comboio tudo se passou bem e não havia quase ninguém”, relatou.

Apesar de ser o fim do confinamento, a oferta de transportes públicos em Paris e de comboios de longo curso foi diminuída para cerca de 50%. Na capital, pelo menos 60 estações de metro estão fechadas.

Mas estas medidas podem não chegar. “O risco é não respeitar um metro de segurança e parece-me que os responsáveis investiram nas sinalizações necessárias para limitar os contactos, mas continua a ser insuficiente”, indicou Alexandra, médica e que ontem ia de Paris para a região do Val d’Oise para dar consultas num gabinete de médicos de família.

Esta parisiense, tal como muitos dos seus pacientes, teme uma segunda vaga e espera que as pessoas continuam a ter uma atitude prudente face ao vírus, embora admita que têm de voltar ao trabalho. “Paris continua a ser uma cidade muito ativa e dinâmica. As pessoas têm de voltar a trabalhar, mas cabe-lhes respeitar as medidas de segurança”, declarou a médica.

Confrontados com as dificuldades de manter essas mesmas medidas nos transportes públicos, muitos franceses procuram novas formas de se deslocar e a bicicleta tem sido um dos meios privilegiados e que se vai manter com o fim do confinamento. “Temos muitos pedidos de bicicletas, especialmente para pessoas que se querem deslocar para o trabalho e evitar os transportes públicos. Temos também muitos pedidos de bicicletas elétricas para quem não está muito habituado a pedalar”, revelou Sony, mecânico da loja de bicicletas AlloVelo, situada no 2º bairro da capital.

Esta loja não fechou durante o confinamento, mantendo-se aberta por marcação para reparações urgentes ou encomendas especiais. No entanto, devido à falta de mecânicos, este estabelecimento decidiu não integrar a plataforma criada pelo Governo para a comparticipação de 50 euros na reparação de bicicletas antigas.

Para os restantes comércios, considerados não essenciais, na segunda-feira assinalou a reabertura, mas uma visita à Rue Rivoli, uma das ruas mais apreciadas por locais e turistas para as compras, mostra que o regresso não é para todos.

“Os empresários estão a passar por grandes dificuldades. Eu estava confinada e hoje saí para ver se podia ajudar um pouco os comerciantes e os restaurantes. Mas está tudo fechado”, concluiu Monira, que vive no 19º bairro da capital e esperava poder fazer algumas compras nesta rua esta manhã.

Muitas lojas ainda estão a adotar as medidas de segurança, como as marcações no solo, e as poucas que abriram informam logo à entrada onde se pode desinfetar as mãos. Outras decidiram escrever em letras garrafais na entrada: “Estamos felizes por vos voltar a ver”.

Já os restaurantes, bares e cafés só devem regressar ao ativo no início de junho.

Quanto às escolas, ficou ao critério de cada autarca o que fazer na sua cidade e Paris escolheu que o regresso só se faria na quinta-feira e com um número muito limitado de crianças. Escolas de ensino básico e liceus não vão reabrir por agora e o ensino superior só volta em setembro.

E mesmo se os números de mortos e pessoas hospitalizadas continua a descer, Patrick Karam relembra que a epidemia continua a ter novos focos na região parisiense. “40% de todas as pessoas internadas nos cuidados intensivos em França devido à Covid-19 são da Île-de-France. E ainda temos focos, especialmente a céu aberto. Há uma centena de campos de migrantes e refugiados, especialmente de origem moldava, onde se detetou a doença e eles não estão confinados. São pessoas que continuam a circular e não se conseguem proteger”, concluiu o Conselheiro regional.

 

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