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Nestas férias de verão, e por dever de ofício de pastor, vi-me levado de Lisboa até Trás-os-Montes, onde tinha ido pela última vez na minha juventude. Recordo essa viagem aos 18 anos, que demorou 16 horas de comboio de Lisboa a Bragança. Guardei na memória a paisagem deslumbrante – que contemplei sentado no degrau do comboio lento e a vapor, na linha do Tua – e de mais perto vivi a bondade das suas gentes.

Por coincidência, ou não, tinha já convidado o Bispo de Bragança-Miranda a vir presidir, em 12 e 13 de outubro, aqui em Paris, à peregrinação aniversária da 6ª e última aparição de Nossa Senhora, em Fátima.

D. José Cordeiro é o pastor de uma das duas dioceses transmontanas, e a mais antiga. Visita agora a Comunidade portuguesa de Paris e região parisiense.

Dia 12, a partir das 20h30 (porque é sábado), recita-se o terço, seguido da missa dominical e da procissão de velas ao redor do Santuário. No final, e como é habitual, faz-se o Adeus à Virgem.

Domingo, dia 13 de outubro, o terço recita-se pelas 10h00 e às 11h00, D. José preside à missa dominical, em que administrará o sacramento da confirmação a uma trintena de jovens da catequese e adultos.

E convidei-o a pensar na importante Comunidade de transmontanos, diocesanos de Bragança e também da Diocese de Vila Real, sua vizinha. Para lá das fronteiras eclesiásticas, há um mesmo povo de gentes boas e uma terra de rara e magnífica beleza, a quem o grande escritor português Miguel Torga chamava de “Reino Maravilhoso”.

Esse ilustre português e um dos maiores filhos transmontanos, dizia que Trás-os-Montes “fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos”. O genial ensaísta, dramaturgo e poeta, manteve durante toda a vida um forte apego, e relação visceral mesmo, pela região que o viu nascer e apresentou as maravilhas de Trás-os-Montes ao mundo, que o quis ler. Em “Os Novos Contos da Montanha”, “A Criação do Mundo” ou nos 16 volumes dos seus diários, as referências são inúmeras.

Num dos seus mais conhecidos textos, Torga escreve: “Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite”.

A respeito da aldeia em que nasceu, Miguel Torga disse com aquela confiança de quem vê a vida com olhos duma simplicidade e confiança evangélicas: “S. Martinho de Anta é um berço onde tenho de nascer todas as horas e morrer um dia”. E digo evangélica, porque independentemente das convicções religiosas de Torga, o Espírito de Deus sopra onde quer e ninguém sabe de onde Ele vem e para onde vai (cf. Jo 3, 8).

Ao chegar à região, diz o poeta: «Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada: – Para cá do Marão, mandam os que cá estão!…

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena: – Entre! A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso. A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua».

Caro leitor transmontano, não importa onde tenha nascido: o berço é todo ele o mesmo: «Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. (…) Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. (…) A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão».

E das suas gentes Miguel Torga diz, e espero que ainda assim seja, mesmo com aqueles que do berço original saíram para vir em França ganhar o seu pão: «Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde: – Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar. (…) Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada. (…) Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei».

Caros transmontanos, filhos de Trás-os-Montes, esse Reino Maravilhoso, dias 12 e 13 de outubro sois bem-vindos! Como cada Português a este santuário da Mãe celeste que temos.

 

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