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O trabalho em torno da memória de Aristides de Sousa Mendes que foi feito em França, nos últimos 34 anos, pelo Comité nacional francês de homenagem a Aristides de Sousa Mendes, contribuiu largamente para a entrada do antigo Cônsul de Portugal em Bordeaux durante a II Guerra mundial no Panteão nacional português. “Uma grande parte do trabalho feito em França foi determinante para as Leis que foram votadas no Parlamento português e que conduziram depois à entrada de Aristides de Sousa Mendes no Panteão” disse ao LusoJornal Manuel Dias, o Vice-Presidente do Comité.

Manuel Dias respondia ao novo programa de “entrevistas-live” do LusoJornal, “Expressões coletivas”, animado por Lurdes Galvão Rodrigues numa parceria com a Coordenação das Coletividades Portuguesas de França (CCPF).

O Comité nacional francês de homenagem a Aristides de Sousa Mendes foi criado por iniciativa do padre operário Bernard Rivière, já falecido, no seguimento de um trabalho feito pelo jornalista da RFI, entretanto também já falecido, Álvaro Morna.

Em Israel, Aristides de Sousa Mendes foi declarado “Justo entre as Nações” em 1966, “mas isso ficou praticamente desconhecido” lembrou Manuel Dias. “Só em 1986, quando começaram a surgir homenagens nos Estados Unidos e no Canadá é que efetivamente tivemos conhecimento disso e este trabalho foi iniciado”.

Nessa altura estava a decorrer em Lyon o processo de Klaus Barbie, um oficial da Gestapo responsável por milhares de deportações para os campos de concentração, torturas e até mortes, como a do Resistente Jean Moulin. A defesa de Klaus Barbie alegava que ele era apenas um funcionário e que obedecia às ordens superiores e o Comité contrapôs que Aristides de Sousa Mendes também era um funcionário do Estado português, mas decidiu desobedecer para salvar vidas! Na altura a imprensa francesa “pegou” neste assunto e deu a conhecer aos Franceses o ato do antigo Cônsul de Portugal em Bordeaux.

 

Homenagens a Aristides em França

Ao mesmo tempo que foram prestadas homenagens nacionais a Aristides de Sousa Mendes no Panteão, em Lisboa, o Comité Sousa Mendes organizou uma série de eventos em Bordeaux, Cenon, Bayonne e Hendaye.

A versão portuguesa da exposição do “1940 | Exílios para a vida” esteve patente ao público no Panteão Nacional, em Lisboa, e a versão francesa da exposição foi mostrada em Cenon, num grande equipamento cultural, o Rocher de Palmer, inaugurada pelo Maire, pelo atual Cônsul-Geral de Portugal em Bordeaux, Mário Gomes e por Manuel Dias.

A Comunidade judaica organizou uma cerimónia em memória de Aristides de Sousa Mendes na Grande Sinagoga de Bordeaux, uma missa foi rezada na Catedral, celebrada pelo Arcebispo de Bordeaux, houve uma receção na Mairie de Bordeaux, outra no Hôtel de Région, foram inauguradas novas placas da Rue Aristides de Sousa Mendes em Bordeaux e na escola que tem o nome do antigo Cônsul português, foi projetado o filme “A Heranda de Aristides” em Cenon, mas o momento forte teve lugar junto do busto de Aristides de Sousa Mendes, num dos jardins da cidade, inaugurado em 1994 pelo então Presidente da República Mário Soares e pelo antigo Maire de Bordeaux Jaques Chaban-Delmas.

Estava presente a Ministra francesa dos antigos combatentes, a Préfête da região e várias outras autoridades civis e militares, assim como 60 alunos de escolas primárias, colégios e liceus.

Houve também um conjunto de eventos no Consulado geral de Portugal em Bordeaux entre as quais a inauguração de uma placa vinda do Senado americano. “O Senado americano homenageou Aristides em abril do ano passado e enviou dois delegados para inaugurar uma placa no atual Consulado de Portugal, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, em inglês, em francês e em português” explicou Manuel Dias ao LusoJornal.

O Cônsul-Geral organizou também um conjunto de manifestações culturais no Posto.

Também a Mairie de Hendaye e de Bayonne decidiram associar-se a esta homenagem a Aristides de Sousa Mendes com eventos na Ponte da Fronteira, em Hendaye, e em frente do antigo Consulado português em Bayonne.

 

Uma exposição a circular

A exposição “1940 | Exílios para a vida” tem duas versões realizadas pelo Comité Aristides de Sousa Mendes. A versão portuguesa foi enviada para Portugal, esteve no Panteão, vai estar novamente exposta em Lisboa, por iniciativa do programa intergovernamental português “Nunca Esquecer”.

Quanto à versão francesa, vai estar em Bayonne, em Hendaye e em Oloron-Sainte-Marie, mas também deve continuar a circular em França e deve chegar a Paris em abril do próximo ano. “Estamos a negociar isso com a Casa de Portugal, na Cidade universitária internacional de Paris, com o CRIF e com o Memorial da Shoah” diz Manuel Dias. O LusoJornal associa-se também a este evento.

Esta não é unicamente uma exposição sobre Aristides de Sousa Mendes. “É uma exposição sobre o começo da guerra, sobre o impacto da penetração da ocupação das forças nazis em diferentes países da Europa, que provocou um exílio de massa. Quando a França foi ocupada, em maio de 1940, viviam na região de Paris mais ou menos 3 milhões de refugiados vindos de diferentes países, entre os quais uma quantidade grande de Espanhóis que tinham chegado a França há um ano, no seguimento da Guerra de Espanha”.

Manuel Dias lembrou que o primeiro comboio de deportados que saiu da estação de Angoulême, no dia 20 de agosto de 1940, levou 937 pessoas, essencialmente Espanhóis, mas também 3 Portugueses. “Houve cerca de 150 ou 160 Portugueses que foram vítimas da deportação para os Campos de deportação na Alemanha”.

“Cerca de 9 milhões de pessoas – quase a população de Portugal – foram obrigados a fugir, Franceses ou estrangeiros. Uma grande parte desses refugiados vieram para Bordeaux e para o sul da França, com a esperança que esta zona não fosse ocupada e também com a perspetiva de poderem fugir de França para Portugal, porque Portugal era um país neutro” diz Manuel Dias. “Portugal acolheu durante a II Guerra mundial mais de 500 mil refugiados. Muitos deles eram Franceses. Só 25 mil ficaram em Portugal durante o período da Guerra, a maior parte deles só fizeram escala em Portugal e partiram para as diferentes partes do mundo, África do Norte, América Latina, Brasil, Cuba, etc.”

Para além de documentos, cartas, imagens… há 6 obras monumentais de artistas que ilustram o conteúdo da exposição.

 

Programa para o próximo ano

O Comité Sousa Mendes tem atualmente em curso um ciclo de conferências sobre a Resistência em França, o papel dos estrangeiros e em particular dos Portugueses. Estas conferências são proferidas pelos historiadores Cristina Clímaco, Marie-Christine Volovitch-Tavares e Vítor Pereira, começaram no início deste mês de outubro em Angoulême e prolongam-se até abril de 2022 em Bordeaux, já no próximo dia 9 de novembro, Poitiers, Limoges, Bayonne, Hendaye, Pau, Oloron-Sainte-Marie e Agen. “Nós não queremos falar só dos Portugueses, queremos evocar a Resistência em França, o papel dos estrangeiros e o caso dos Portugueses”.

Outro assunto que o Comité Sousa Mendes vai abordar no próximo ano tem a ver com a importância do Porto de Bordeaux. “A maior parte dos Portugueses que chegaram a França de 1910 a 1920, chegaram de barco. Bordeaux foi um Porto de chegada para grande parte da emigração portuguesa no início do século 20, porque naquela altura as pessoas deslocavam-se pouco de comboio e não havia praticamente carros” diz Manuel Dias ao LusoJornal. “Mas também muitos Portugueses trabalharam no Porto ou nas atividades conexas ao Porto. Vamos também abordar o Porto de Bordeaux como ponto de intercâmbio económico com Portugal”.

Ainda no próximo ano, o Comité Sousa Mendes quer prestar homenagem ao pensador português Eduardo Lourenço, falecido no ano passado, e que viveu entre a França e Portugal.

E quer recordar também “o papel extraordinário dos judeus de origem portuguesa aqui na região desde o século 16”. Com efeito, no seguimento da Inquisição, a comunidade judaica foi expulsa de Portugal e de Espanha e “teve um papel extraordinário na vida económica, social e cultural desta região”.

Manuel Dias quer projetar o filme sobre os irmãos Pereire e fazer uma conferência sobre o papel relevante dos judeus de origem ibérica na região.

“Estes são os grandes temas que nós propusemos às autoridades portuguesas no quadro da Temporada Cruzada França-Portugal. Estamos à espera da resposta para saber se este conjunto de manifestações vão ou não ter o ‘label’ da Temporada Cruzada” mas o Vice-Presidente do Comité Sousa Mendes acrescenta que “mesmo se não nos derem esse ‘label’ nós vamos organizar este conjunto de manifestações”.

 

Ver a entrevista AQUI.

 

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