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A primeira edição do Paris-Roubaix Feminino decorreu no passado sábado, 2 de outubro, com a presença de uma atleta portuguesa, Maria Martins, conhecida por Tata Martins, da equipa Drops-Le Col supported by Tempur.

A prova foi vencida pela britânica Elizabeth Deignan (Trek-Segafredo Women) que se superiorizou à holandesa Marianne Vos (Team Jumbo-Visma Women) e à italiana Elisa Longo Borghini (Trek-Segafredo Women).

Quanto a Tata Martins (Drops-Le Col supported by Tempur) terminou no 19° lugar a 5 minutos e 55 segundos da vencedora.

Esta prova feminina decorreu 125 anos após a primeira edição da prova masculina que ocorreu em 1896.

O LusoJornal teve a oportunidade de falar com a ciclista portuguesa que também esteve presente nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão, na prova de ciclismo de pista.

 

Foi a primeira edição desta prova. Qual é o sentimento?

O objetivo era fazer parte deste evento. É uma das provas mais lendárias no ciclismo na Europa. É histórico o que o ciclismo feminino está a viver. O primeiro objetivo era estar aqui presente e claro terminar.

 

Quais eram os objetivos para esta prova?

O objetivo da equipa era proteger e ajudar a nossa líder nos “pavés”, nos momentos caóticos, manter a nossa líder segura. Terminar a corrida era o meu objetivo. Chegar a Roubaix, fantástico.

 

Teve tempo de estudar o percurso antes da prova?

Fizemos duas ou três vezes o percurso antes da corrida e obviamente os “pavés” aqui são únicos e não se encontram noutro lugar do mundo. Não há nada igual. É uma dificuldade extrema e foi uma corrida de eliminação porque com o passar dos setores, acumula-se cansaço, tanto físico como mental. De qualquer modo, é fantástica esta corrida.

 

As condições meteorológicas complicaram a prova…

O problema foi o piso escorregadio e a lama. Mas o mais complicado é antes de entrar nos setores “pavés” porque temos que estar bem colocadas. Isso é decisivo.

 

Prova mítica e muito difícil…

É uma corrida muito bonita… sobretudo para aqueles que estão a ver na televisão (risos). Para nós, foi uma corrida especial porque fizemos história. Fico feliz por fazer parte disto.

 

Esta corrida ocorre 125 anos depois da primeira edição dos masculinos…

É muito tempo. Quando se fala de uma prova tão mítica, deveria haver uma prova feminina há mais tempo. Temos de lembrar que há mais de 100 anos que há ciclismo feminino, então porque não o Paris-Roubaix? Só foi agora… é a desigualdade entre masculinos e femininos. Acredita que, pouco a pouco, as coisas vão-se normalizando, e já começa com esta prova feminina, primeira edição. Até nos prémios que se recebe, acho que podia haver mais harmonização…

 

Podemos dizer que o ciclismo feminino está a evoluir no bom sentido?

Os patrocinadores têm apostado, cada vez há mais equipas femininas. As coisas estão a evoluir.

 

E o que disse o Patrick Lefevere, Diretor desportivo da equipa masculina Deceuninck-Quick Step, criticando o ciclismo feminino, isso choca?

Choca ter este tipo de mentalidade nos tempos atuais. Acho que está um pouco fechado e um pouco retardado no tempo. Não sei o que dizer mais. é apenas um comentário estupido. Isso passa-nos ao lado. As mulheres estão a crescer e os patrocinadores sabem disso.

 

Que balanço podemos fazer da sua temporada?

Acho que foi uma temporada muito muito positiva para mim. Nunca vou esquecer, principalmente pelo que vivi nos Jogos Olímpicos e no Campeonato da Europa de pista. Passei bons momentos e boas experiências com a equipa. Eu estou aqui para isto, gosto disto. O que me motiva é criar momentos bons e conhecer pessoas fantásticas como tenho conhecido. Quero apenas desfrutar deste percurso da minha vida.

 

Atingiu o que queria nos Jogos Olímpicos?

Quem não sonha com uma Medalha olímpica? Mas sair com um diploma para os meus primeiros Jogos Olímpicos, estou muito, muito, satisfeita, acho que superei todas as expectativas. Dificilmente vou conseguir um feito como consegui e da forma que fiz.

 

Podemos dizer que tem arrasado no ciclismo feminino português?

Eu acho que não estou a ‘arrasar’. Eu simplesmente tenho orgulho na nação que levo às costas, e vou tentar levar o mais longe possível. E também temos outras atletas que estão a chegar… É tudo por Portugal. Temos amor por Portugal, por esta bandeira. Vou fazer de tudo para orgulhar a nossa bandeira.

 

Como se chega a este patamar no ciclismo feminino?

Por gosto. O gosto por isto sempre me motivou. O principal fator foi a paixão pelo ciclismo e o apoio da minha família. Por vezes não é fácil, aliás, raramente é fácil. Passamos por muitas dificuldades. Mas com todo o apoio que tenho, nunca desisti. Sem esse apoio, não estaria aqui.

 

Como veio essa paixão pelo ciclismo?

Isto começou quando era mais jovem, em passeios com o meu tio. E acabou por se tornar uma paixão.

 

Renovou com a sua equipa, qual foi o sentimento? E vai continuar a praticar ciclismo de pista e de estrada?

É um contrato que me deixa segura para os próximos dois anos e estou muito contente na equipa onde estou. Estou estável, é o mais importante. Eles sempre me apoiaram tanto no ciclismo de estrada como no ciclismo de pista, aliás foi uma das condições quando assinei, era continuar a praticar as duas modalidades. É uma equipa cinco estrelas.

 

Quais são os objetivos que tem?

Gostava de ganhar uma Medalha olímpica, ou uma grande prova, mas o meu verdadeiro sonho quando era mais jovem, era ser atleta olímpica, e esse sonho já o realizei este ano em Tóquio. E também tenho o sonho de ser piloto-aviador, mas claro isso neste momento está pendente. Mas no ciclismo, em termos de sonhos, eu apenas quero desfrutar deste momento da minha vida e ver o que consigo fazer. Não tenho assim um sonho, uma corrida específica que queira ganhar. Se acontecer, claro que estarei extremamente feliz, mas não é um objetivo em que eu diga: ‘Quero vencer esta corrida’. O meu verdadeiro sonho era ser olímpica, e esse já concretizei. Sinto-me realizada.

 

Tem uma mensagem para as mulheres que têm medo de apostar no ciclismo?

Claro que é complicado, não vou dizer que é fácil. Eu, aliás, também tive muitas indecisões na altura. Foi um processo complicado. Eu compreendo que seja difícil: ou entramos numa equipa ou na Universidade. Em Portugal há ainda mais dificuldades, porque não há grande apoio. É uma decisão muito grande. Mas o que eu digo é: se gostam disto, tentem! A carreira de um desportista é curta, portanto se gostam verdadeiramente disto, deixem andar, sem pressão nem nada. Foi o que eu fiz. E estou satisfeita com o que faço diariamente, é tudo o que importa.

 

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