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Conferência em Drancy sobre Trabalhadores Forçados Portugueses durante o III Reich

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Comunidade

 

A Cívica, associação dos autarcas franceses de origem portuguesa, organizou no sábado, na Mairie de Drancy, uma conferência com a equipa do Professor Fernando Rosas, sobre os “Trabalhadores Forçados Portugueses no III Reich”. Para além do Historiador Fernando Rosas, a conferência contou também com intervenções de António Carvalho e Cristina Clímaco.

Para além de muitos autarcas, na sala estava também o Deputado Carlos Gonçalves.

Durante a II Guerra mundial (1939-1940), a Alemanha pôs em funcionamento um sistema de trabalho forçado ao serviço da economia de guerra. Durante este período o regime nacional-socialista foi responsável pela deportação de milhões de civis estrangeiros residentes nos países ocupados. A par com os prisioneiros de guerra e aqueles que estavam nos Campos de concentração, estes estrangeiros foram utilizados como mão de obra escrava.

“É muito importante trazer estas informações a França porque grande parte dos Portugueses que vão parar ao trabalho forçado ou aos Campos de concentração estavam em França como imigrantes” explica Fernando Rosas ao LusoJornal. “As autoridades francesas, para poupar os Franceses de certa maneira, mandavam Portugueses para o trabalho forçado. Temos correspondência nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros de mulheres que escreviam ao Cônsul da sua região a dizer que o marido foi convocado à Gendarmerie e depois… desapareceu”.

A Organização Todt é um elemento-chave na máquina de Guerra alemã e Fernando Rosas apresentou por exemplo a linha de fortificação impressionante entre os Pyrénées e o Cabo Norte, na Noruega, que pode ser o equivalente da Muralha da China. Tal só era possível com a mobilização de milhões de trabalhadores. Só em França, foram necessários mais de 400.000 operários para fortificar a costa ocidental. Alguns deles eram Portugueses.

“O Estado Novo, enquanto Governo, abstêm-se totalmente de qualquer intervenção que possa pôr em risco a sua relação com a Alemanha e, portanto, não mostra qualquer interesse pelos presos dos Campos de concentração e por outras formas de trabalho forçado” diz Fernando Rosas ao LusoJornal, salientando, no entanto que há alguns Cônsules que fizeram uma intervenção para tentar, por exemplo, ajudar Portugueses que foram para a Alemanha sem passaporte. “Como não havia Acordo de trabalho, os Alemães não lhes pediam o Passaporte, mas quando saíam, não os deixavam sair porque não tinham Passaporte. Isso criava situações dramáticas. Um ou dois Cônsules fizeram intervenções nesse sentido”.

A associação Cívica tem um programa em prol do “Dever de Memória” e foi neste quadro que organizou este evento. “Enquanto autarcas, temos todos os anos comemorações sobre a I Guerra mundial e sobre a II Guerra mundial, mas há algo que era desconhecido, era a presença portuguesa nos diferentes Campos de concentração, nos trabalhos forçados, é algo que nos toca muito” explica o Presidente da Cívica, Paulo Marques, ao LusoJornal, lembrando que “de Drancy partiram cerca de 300 Portugueses para os Campos de concentração”.

Também Odete Mendes, Maire-Adjointe de origem portuguesa, diz que Drancy tinha de acolher este evento. “Esta cidade tem uma história muito pesada, interligada efetivamente com a dor da II Guerra mundial e os Campos de concentração. Obviamente é uma temática que nós abordamos muito, mas nunca tínhamos evocado ainda a implicação dos Portugueses. Os Portugueses estiveram nesta história que foi ocultada durante muito tempo pelo Governo português. Eu nasci aqui em França, mas evidentemente as minhas origens estão em Portugal e é uma honra poder ajudar a esclarecer, graças a esta conferência de alta qualidade, esta zona escura da nossa história” disse ao LusoJornal. “Eu tenho a íntima convicção que, para conseguir avançar no futuro, temos que ter plena consciência do passado e perceber o presente”.

A Maire de Drancy, Aude Lagarde, fez também uma curta intervenção final e mostrou-se disponível para acolher na cidade uma exposição criada pela equipa do Professor Fernando Rosas e que a Cívica ajudou a financiar para a fazer circular em França. “A exposição já devia ter chegado cá durante este tempo da pandemia, mas este foi um dos passos importantes que tivemos, através da vinda cá do Professor Fernando Rosas e da sua equipa, para podermos preparar esta exposição sobre os Portugueses nos trabalhos forçados do III Reich” explicou Paulo Marques.

Cristina Clímaco lembrou que no primeiro comboio de Deportados que saiu de Angoulême com 927 prisioneiros no dia 20 de agosto de 1940, já seguiam três Portugueses: João Ferreira Fernandes, José Nunes Mateus e José Ribeiro Sousa.

A historiadora que leciona na Universidade de Paris 8 – Saint Denis, contou alguns casos de Portugueses de França que passaram pelos Campos alemães, como por exemplo Francisco Ferreira, de Guimarães, que emigrou para França nos anos 20, que se naturalizou francês em 1932, foi feito prisioneiro em junho de 1940, internado no Stalag VI J e em 1944 aceitou trocar a prisão por um trabalho. Só que o capataz confundiu a medalha de antigo militar que Francisco Ferreira tinha na gola do casaco com um símbolo comunista e foi parar aos Campos de concentração. Acabou por nunca mais regressar a França e o seu último paradeiro conhecido foi o Campo de Bergen-Belsen.

“Esta é uma Memória que diz respeito aos emigrantes portugueses em França, mas também à República francesa, foi gente que combateu pela França, pela liberdade em França, contra os Alemães na Resistência. Muitos deles já foram devidamente homenageados pelo Estado francês, mas há muitos outros que não o foram” refere Fernando Rosas.

Cristina Clímaco diz que falta conhecer melhor os Portugueses prisioneiros de guerra e “também não conhecemos suficientemente bem a temática dos trabalhadores forçados, como foram recrutados, qual os meios de recrutamento, os locais onde residiam, para que fábricas foram… há aqui um trabalho bastante importante a fazer ainda e é sem dúvida um dos grupos menos conhecidos e que a investigação em curso está a tentar também conhecer um pouco melhor” disse ao LusoJornal.

O evento acabou com um almoço-convívio na sede da Associação desportiva e cultural dos Portugueses de Drancy.

 

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