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O realizador terceirense David Pinheiro Vicente começa em março, em Paris, uma residência artística durante a qual irá escrever “A Casa do Vento”, um filme sobre “a história de Portugal” e “várias pessoas a crescer”.

A ideia para a sua primeira longa-metragem já vem a ser “escrita há algum tempo”, mas David Pinheiro Vicente foi um dos seis selecionados para uma residência artística da Cinéfondation, do Festival de Cannes, onde, de março a julho do próximo ano, o realizador vai poder dedicar-se a tempo inteiro à escrita desta obra.

“É muito difícil saber” que forma terá o filme, porque ainda não é “um objeto concluído”, explica à Lusa o realizador, mas adianta que “tem a ver com a história de Portugal”.

A história versa sobre “essa vivência de Portugal” e “muitas histórias familiares” que “influenciam sempre” o autor. “E há sempre uma parte também sobre crescer e um lado ‘coming of age’. Neste caso, é a história de várias pessoas a crescer”, concretiza.

Em foco estarão os períodos antes e depois do 25 de Abril de 1974, e a “relação com as colónias portuguesas e com o período de descolonização ou pós-colonial”.

É um tema que o fascina, “e especialmente agora”, quando se vive “uma época em que há muitas pessoas a pensar sobre isso e muitos fantasmas que têm também vindo ao de cima de alguma forma, e que colocam cada vez mais questões” que interessam a Pinheiro Vicente.

Os temas políticos são também o mote para a história de crescimento das personagens. “Penso que é importante para mim tentar perceber de onde é que vem um determinado tipo de ideias, e quando é que elas são instauradas na pessoa – quando é que uma pessoa passa a acreditar naquilo em que acredita”, explica o cineasta de 24 anos.

O filme olha para o passado, mas parte do presente, já que o panorama político atual surge “indiretamente”: “Influencia tudo, porque suscita muitas discussões e começamos a indagar sobre isso, ou a indagarmos especialmente sobre a forma como as pessoas recebem ou como discutem e legitimam um certo tipo de ideias, um certo tipo de discursos”.

Também o crescimento, tema que já tinha abordado em filmes anteriores, vem de um espaço de autoconhecimento. “Claro que, como tenho 24 anos, as épocas que eu conheço melhor da vida, ou aquilo de que posso falar, são as de uma pessoa mais nova, porque é sobre esse período que posso refletir agora. Só quando ultrapassamos é que conseguimos olhar de fora. Para mim é muito mais natural, se calhar, perceber melhor ou contar a história de um adolescente do que uma outra pessoa”.

David Pinheiro Vicente é o segundo português a ser escolhido pela Cinéfondation, depois de, em 2016, Nuno Baltasar, realizador da curta-metragem “Doce Lar”, ter sido selecionado para esta residência.

Esta iniciativa tem por objetivo apoiar jovens cineastas em início de carreira, nomeadamente através de residências artísticas bianuais, em curso desde 2000, destinadas ao desenvolvimento de primeiros projetos.

David Pinheiro Vicente nasceu na ilha Terceira, nos Açores, estudou Cinema e Estética, na Escola Superior de Teatro e Cinema, foi Diretor de arte de várias curtas-metragens e séries de televisão, e assistente da cineasta Salomé Lamas, realizadora de documentários como “El Dorado” e “Terra de Ninguém”.

“O Cordeiro de Deus”, uma coprodução luso-francesa selecionada este ano para as competições do IndieLisboa e do Festival de Cannes, é a segunda curta-metragem do realizador, depois de “Onde o Verão Vai (Episódios da Juventude)”, filme de escola que teve estreia mundial em 2018, no festival de cinema de Berlim, na competição Berlinale Shorts.

Esta ‘curta’ foi entretanto exibida em mais de 40 festivais, recebeu menções honrosas em San Sebastian e Tel Aviv, assim como o prémio de melhor ‘curta’ no Festival de Vila do Conde, em 2018. O canal Arte-ZDF incluiu-a na sua programação. “O Cordeiro de Deus” foi adquirido para exibição em televisão e ‘online’ pelo canal Arte France.

 

Inês Linhares Dias, Lusa

 

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