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O Fernando da tia Lurdes regressava de mais um dia de trabalho no campo. Neste dia, ele tinha dado a jornada ao maior proprietário da aldeia. Juntamente com mais trabalhadores jornaleiros, a tarefa do dia foi de cavar o quintal da “Espechinha” que tinha quase meio hectare de dimensão.

Cansado, suportava a enxada no ombro, mas sorria porque avistou a namorada que avançava também a caminho da aldeia, regressando também ela da fonte, com um cântaro de água à cabeça, em direção a sua casa.

– “Reza” Virgínia… desta vez não me escapaste. Hoje ganhei eu – disse Fernando, contente com a avantajem de ter sido o primeiro a dar hoje a ordem. Uma tradição muito antiga nas aldeias em tempo de Quaresma: os jovens amigos e os namorados, davam vida a uma tradição, no final, para saber os que perdiam a obrigação de pagarem as amêndoas da Páscoa.

– Já acabaste o dia? – pergunta a Virgínia sorrindo, tentando encobrir as faces vermelhas por ter sido surpreendida pelo namorado ao mandar a “Reza”.

– Sim… este dia já cá canta. Mas hoje andei a “comer”. Ganhei um pouco menos… mas é assim – disse Fernando, resignado pelo salário recebido.

– Então diz-me cá… a tua viagem, já está tudo resolvido? – pergunta baixinho Virginia.

– Estou à espera que o passador me mande recado, me diga o dia. O resto já está tudo combinado. Se calhar vou ter com ele sábado de Ramos, a Trancoso.

– Deus te ajude e que corra tudo bem. Eu cá esperarei por ti. Mas tu deverias ir o mais depressa possível lá para fora, para França, porque para o ano que vem, já podes ser chamado para a inspeção… para tropa, nas colónias. Aquilo não anda nada bem por lá. Estão agora a ir muitos para lá, em comissão!

– Não te aflijas, isto está por dias. Não tenhas medo, faz-me confiança.

– Tu bem sabes como eu te faço confiança. Tenho rezado tanto a Nossa Senhora por ti… e por mim e ela não nos vai abandonar.

 

No sábado antes do domingo de Ramos, Fernando foi ao mercado, na companhia de irmão mais novo, o João. A razão da viagem era para encontrar o passador de Penedono, que já tinha encontrado um mês antes, mas que agora lhe daria as últimas informações para a viagem até França.

O encontro teve lugar no café das Portas d’El Rei. Discretamente e falando baixo, os dois homens trocavam “dizeres” sobre o que iria acontecer dentro de dias. Eram os últimos preparativos.

– Bom, estamos então combinados. Eu vou lá levá-lo ao destino, a casa do seu tio. Você tem é que me dar a direção bem “certinha” – disse o passador, que tinha como alcunho “Viriatinho”.

– Pode contar comigo. Espero também poder contar consigo. Eu não duvido – disse Fernando sorrindo.

– Muito bem, estamos entendidos então. Eu passo lá na sua terra na terça-feira, depois do domingo de Páscoa, pelas cinco horas da manhã. Ainda vai ter tempo de pagar as amêndoas à sua namorada e a toda a família.

Concluiu-se assim a conversa. Viriatinho saiu do café e desapareceu na multidão deste dia de mercado em Trancoso.

Os dois irmãos, depois de pagarem a despesa, também saíram do café, onde Fernando ainda tentou a sorte jogando no Totobola e deixando o boletim válido ao irmão. “Eu pus o bilhete no nome dos dois e se ganharmos, vais-me logo buscar a França”. Sorriram os dois, mas a separação eminente já lhes fazia doer os corações e as mentes.

Avançando na multidão, entraram na feira do calçado, onde Fernando “investiu” numas botas de cabedal e nuns sapatos. As botas eram para o irmão, pois ele era o seu padrinho da Crisma e tinha de lhe dar uma prenda. Estávamos na Páscoa, e em tempo de tradições que deviam ser respeitadas. Mais tarde, ainda entrou numa mercearia onde comprou três quilos de amêndoas. Um para a sua Virginia e os outros para os amigos e a família.

Mesmo se foi ele que disse primeiro, muitas vezes; a frase “Reza menino… Reza menina”, tinha a intenção de pagar as amêndoas a todos. “Quem sabe se para o ano ele poderia pagar as amêndoas outra vez, e em tempo de Páscoa”. Se tudo corresse bem, só Deus sabe onde ele andaria.

Regressaram à aldeia no fim da manhã, na camionete-feirante do tio Zé Pote. E as ocupações do quotidiano absorviam os pensamentos dos dois jovens.

“Vamos preparar os ramos para levar amanhã à missa, ó João. Temos que ir à quinta do Parentes buscar uma boa pernada de loureiro e arranjar também alecrim, e um pouco de oliveira. Não podemos ficar atrás, pois no ano passado diziam que fomos nós que tínhamos os ramos mais lindos . Vamos lá, ainda temos tempo de chegarmos à quinta antes de irmos fazer as camas do gado e ordenhar as cabras” disse Fernando ao irmão.

– Mais uns dias, ó Nando, e depois terei que fazer as ordenhas e isto tudo sozinho. Enquanto tu vais à procura de nova vida – disse João com ar triste.

– Não estejas triste rapaz. Se tudo correr bem, eu depressa te virei buscar, a ti e à Virgínia. Tudo vai correr bem meu irmão.

 

Dia após dia, passaram-se as festas Pascais, as tradições populares e religiosas, a Via-Sacra, a procissão dos figurantes em Trancoso, que reunia muito povo e onde Fernando, a namorada e o irmão não podiam faltar.

– Então já fizeste a mala Fernando? – procurava a Virgínia, com medo da sua própria ousadia.

– Não é mala, é um saco de levar às costas, caso tenha de andar a pé.

– E já sabes quando partes? – pergunta Virgínia já com lágrimas a encher-lhe os olhos.

– Não quero que chores. Para mim já é difícil partir, mas ver-te a chorar é que não gosto mesmo nada. Por favor fá-lo depois de eu me ir embora. Mas eu voltarei para te vir buscar, como já te prometi. Levo-te no coração Virgínia.

– Tens razão, desculpa. Mas são já as saudades.

Na segunda-feira de Páscoa foi o último adeus da despedida. Fernando, discretamente, e sem abraços – só com palavras – despediu-se da família durante este dia em o que o Padre da Freguesia passava de casa em casa a levar a bênção Pascal, e “tirar” o Folar. Ele fazia parte do cortejo, levando uma lanterna. “Boas festas corporais e espirituais. Aleluia, aleluia! Jesus Cristo ressuscitou, aleluia”.

No fim do dia, já pela noite, avistou Virgínia, junto da fonte centenária da aldeia, a encher o cântaro. Foi ali, ao abrigo dos olhares, que trocaram beijos, abraços e carinhos… as últimas promessas de namorados.

– Não me esquecerei de ti. Vou pedir muito a Nossa Senhora que te proteja Nando. Tu levas o meu coração contigo – dizia Virgínia baixinho.

– Tem confiança em mim e em Deus. Tudo se passará bem.

 

A noite foi curta e o sono esteve quase ausente. Fernando ouviu o velho despertador a tocar, anunciando o aproximar da hora da chegada de Viriatinho. A mãe acabava de lhe preparar o saco da merenda e uma malga de café fumegava em cima da mesa, com alguns biscoitos que ainda sobravam das festas.

Olhou pela janela e a lua cheia iluminava a rua com luz pálida, que ele tão bem conhecia. Durante instantes quis gravar esta imagem para recordar mais tarde.

Fernando despediu-se dos pais e foi até ao largo da aldeia. Sentou-se nas pedras do Pelourinho e olhava a estrada deserta. Pouco depois apareceu a luz de um carro, o carro de Viriatinho.

O carro parou e as portas abriram-se com certo ruído; manifestando a idade da viatura. Dois homens saíram do carro e o Fernando reconheceu o passador.

– Vamos lá então à vida rapaz? Estás pronto? Vá traz cá o saco.

Fernando respondeu que sim, carregou o saco dentro do porta-bagagens, entram no carro sem mais palavras, e só o acelerar do motor perturbou a paz noturna da praça do Pelourinho.

Durante alguns momentos ninguém disse nada. Dentro do carro cinco homens davam inicio a uma longa viagem que os levaria até terras de França. Quando o sol nasceu, duas horas depois, já estavam para lá da cidade da Guarda.

– Ouvide lá, eu já vos expliquei, mas ouçam bem o que vos digo outra vez. Daqui até à fronteira de Vilar Formoso, vai ser canja e depois, daí para a frente, que Deus nos ajude e as almas Santas. Vocês têm a fazer um pouco do caminho pé. Mas eu depois vou indicar por onde devem passar e onde nos encontraremos do outro lado. Estão a ouvir bem?

– Oh Senhor Viriato, nós fazemos confiança em si.

 

Ao abrigo de umas carvalhas, junto a estrada, estava agora o carro estacionado e o Senhor Viriatinho indicava, desenhando no chão, o caminho por onde deviam passar.

– Vocês vão por este carreiro, sempre em frente. Se ouvirem alguém ou virem alguém, saiam do caminho, e façam por se esconderem para que não vos vejam. Quando passarem a ribeira das cabras, logo ali mais à frente, já são terras de Espanha. Mas não se fiem muito, pois os Carabineiros e a “Grande Ninhada de Ratos”, comem todos juntos e vão de lá para cá, quando é para agarrarem os clientes. Por essas horas já estão para jantar, mas nunca se sabe, eles podem esquecer-se dos “contratos”. Perceberam o que eu quero dizer?

– Olhe lá, e se eles nos apanham? O que é que fazemos?

– Nada, mas mesmo nada. Não fujam porque é pior. Só dizem que vão ao pão a Espanha, à padaria do Viriato. Normalmente eles percebem logo. Mas, às vezes nunca se sabe… percebem?

– Está tudo percebido Senhor Viriato. Vá, diga lá como é que depois nos nos vamos encontrar novamente.

– Eu vou passar a fronteira com o carro e depois vou lá pô-lo, escondido numas casas. Depois venho ter convosco pelo mesmo caminho que vocês levam. Perceberam bem?

– Está bem, sim senhor. Vamos então a isto. Quanto tempo temos que caminhar?

– Calma aí, porra! Vocês estão com pressa ou quê?

– Por agora, vão esperar aqui mais ou menos uma boa meia hora. Até ao escurecer do dia. Depois é que se põem a caminho. Têm de me dar tempo para eu ir até ao outro lado, porra!

– No meu relógio tenho agora oito e meia. Então começamos a caminhar lá para as nove horas é?

– Claro que sim, é isso mesmo que acabei de vos dizer, homem de Deus.

Todos olharam para os relógios e verificaram que as horas eram mais ou menos as mesmas nos mostradores. Sorriram entre eles ao verem o Viriatinho um pouco irritado, com as circunstancias que tomava ali a viagem. Sentaram-se junto à parede que limitava o caminho e começaram a abrir os sacos para comerem uma pequena merenda. A luz do dia descia cada vez mais, mas estariam reunidas, assim, as melhores condições para viajarem, despercebidos das autoridades fronteiriças.

Um dos companheiros de Fernando perguntou de onde vinham. Um a um, responderam que eram de Ponte de Abade, de Trancoso, e os outros dois irmãos das Courelas, aldeia perto de Vila Nova de Foz Côa. Depois das apresentações sumárias e com poucas palavras, a merenda foi acabada com um “Deus nos acompanhe e proteja… e também Nossa Senhora”.

 

Tinha passado meia hora e decidiram porem-se a caminho, quando uns focos de luz que certamente indicavam lanternas se avistaram perto da ponte da ribeirinha das cabras. Quatro vultos avançavam pelo caminho falando alto. Rapidamente, os quatro homens da viagem clandestina saltaram para trás do muro e esconderam-se da melhor maneira possível, deitados no chão. As vozes chegaram até eles.

– Esta semana não apareceu por aqui ninguém no contrabando do pão e das roupas. Isto está muito calmo. Que te parece Cabo André?

– Deixa lá que daqui a quinze dias vai haver feira em Fuentes, e depois já vais ver mais gente. Hoje ou amanhã deve haver é pessoal a viajar para França. O Chefe do posto já falou nisso.

– Vamos é para casa, que já estou com fome. Vamos ao jantar, cada um para sua casa. Eu é que me lixo, porque hoje vou estar de guarda toda a noite.

– Vais, vais mas é dormir toda a noite – e o soldado da GNR riu-se com satisfação.

Pouco a pouco, a patrulha da GNR afastou-se do grupo que estava ali escondido atrás do muro. Os homens ficaram mais tranquilos, pois a ronda iria acabar brevemente.

Os quatro homens saltaram para o caminho e avançaram em direção da Espanha, das luzes públicas de Fuentes de Onoro. Tinham-se passado perto de quarenta minutos de marcha, e alguém se apresentou a eles no meio do caminho. Quase logo reconheceram o Senhor Viriatinho.

– Sejam bem-vindos. Tudo correu bem? Não encontraram ninguém?

– Apareceu uma patrulha da GNR. Mas escondemo-nos e eles passaram. Iam com pressa para jantar, andavam à procura dos contrabandistas.

– Eles andam à procura de tudo. Mas pronto, já lá vão para a vida deles. Que tenham bom apetite – disse Viriatinho satisfeito com a novidade.

– Então o que fazemos agora? Estamos em Espanha ou não?

– Já cá estais. Agora temos de ver se os Carabineiros não nos pregam alguma. Também já são horas de estarem a dormir ou a cear. Mas a “notita de conto” que o Salazar lhes prometeu, por vezes, faz com que esqueçam os contratos dos nossos “Hermanos malos”. Vamos lá depressa, porque ainda temos quase dois quilómetros de marcha até ao carro.

Algum tempo depois, quando já caminhavam pela estrada alcatroada, a famosa N620, um velho jeep da Guardia Civil apareceu tossindo e fumando quanto podia, tinha dificuldades para subir a pequena encosta onde passava a estrada. Dentro dele três “guardias” que também fumavam e riam de alguma anedota que tinham contado entre eles, e estavam felizes. Nem se aperceberam dos cinco homens portugueses, deitados na valeta, escondendo as caras por debaixo dos casacos.

Esperaram algum tempo até não ouvirem mais o motor do jeep, como o recomendava o Viriatinho, e retomaram a marcha a pé, seguindo na direção que lhes indicava o passador.

 

Encontraram o velho Mercedes junto de uma casa, entraram no carro, instalaram-se com intenções de dormir pois já tinham caminhado perto de dez quilómetros.

– Bom, meus senhores, o mais difícil está feito. Só nos falta agora a fronteira de França, mas aí não temos nada que temer. Os Franceses precisam lá de mão de obra para as fábricas e para a construção civil, vocês estão novos e saudáveis, é o que eles lá querem. Mostram os Bilhetes de identidade e está a andar. Não se aflijam, daqui por dois dias estamos em Paris.

– Se Deus quiser. Eu vou mesmo para perto de Paris, você deve deixar-me em casa da minha irmã, em Aubervilliers.

– Tudo bem, eu tenho aqui as direções que vocês me deram. Não se apoquentem. É como se já lá estivessem.

Como foi anunciado, Fernando e os seus companheiros, passavam a fronteira de Hendaye e dois dias depois, estavam nos seus destinos para iniciarem novas vidas, cheias de promessas.

Nesse ano, a Páscoa calhou em abril.

 

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