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Eça de Queirós foi certamente um dos mais ilustres Cônsules de Portugal em Paris, onde assumiu funções em 1888 e onde ficou durante 12 anos, até à sua morte em 1900, na casa onde residia, em Neuilly-sur-Seine.

O Consulado Geral de Portugal em Paris é um dos mais antigos no mundo. Há referências ao Consulado em Paris que datam do ano 1760, como é o caso das cartas do Conde Aposentador-Mor sobre negócios do Cônsul de França.

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim em 1845 filho de um magistrado nascido no Rio de Janeiro, José Maria Teixeira de Queiroz e de uma aristocrata de Monção, Carolina Augusta Pereira d’Eça. Mas os pais não eram ainda casados, por oposição do avô materno de Eça de Queirós e por isso a criança nasceu em casa de um parente, sem referência à mãe. O casal só contraiu matrimónio quatro dias depois do Coronel José Pereira de Eça, pai de Carolina, ter falecido.

Eça de Queirós cresceu com os avós paternos na aldeia de Verdeminho, perto de Aveiro. Frequentou o colégio do Porto e depois a Universidade de Coimbra.

Começou a publicar em Lisboa, na Gazeta de Portugal, quando se fixou na capital, em 1866, quando tinha apenas 21 anos, e mais tarde no Diário de Notícias. Publicou artigos até ao fim da vida, por vezes por necessidade financeira.

Depois de entrar na carreira diplomática, em 1872 obtém o primeiro posto de Cônsul de Portugal em Havana, Cuba, seguindo-se Bristol e Newcastle, na Inglaterra e mais tarde Paris.

Antes de chegar a Paris, Eça de Queirós já tinha devorado a literatura francesa. Veio mesmo a França, propositadamente, para visitar Émile Zola, e dizem que a sua literatura é claramente influenciada por Flaubert, que admirava muito. Só que o próprio Émile Zola diz que o trabalho de Eça de Queirós “é melhor” do que o de Flaubert.

Em casa do pai convivia com Camilo Castelo Branco e em Coimbra foi amigo de Antero de Quental.

O livro de Eça de Queirós “O Egito”, só editado em 1926, resultado de uma viagem que fez àquele país, em 1969, para “cobrir” jornalisticamente a inauguração do Canal de Suez, foi a primeira obra do autor.

Em 1871 escreveu a novela policial “O Mistério da Estrada de Sintra”, com a colaboração do escritor Ramalho Ortigão e lançou o folheto mensal “As Farpas”, com sátiras direcionadas à sociedade portuguesa.

O lançamento do romance “O Crime do Padre Amaro”, em 1875, e depois “A Tragédia da Rua das Flores”, “O Primo Basílio”, “Mandarim” e “Relíquia”, marcam o início do Realismo em Portugal. Todos estes livros foram publicados antes de chegar a Paris.

No ano em que chegou à capital francesa, publicou “Os Maias” e depois seguiu-se um período fértil de escrita, mesmo se não voltou a ser publicado, por exemplo de “O Tesouro”, “Correspondência de Fradique Mendes”, “A Ilustre Casa de Ramires” ou ainda “202 Champs Elysées”.

Quando Eça de Queirós chegou a Paris, moravam na capital francesa cerca de mil nacionais portugueses, como por exemplo Antero de Quental, António Nobre, Amadeu de Souza Cardoso ou Mário de Sá Carneiro. Era uma elite portuguesa que vinha a Paris para estudar, para se cruzar com outros artistas ou simplesmente para ser visto e viver uma vida de boémio.

Quando chegou, Eça de Queirós viveu num apartamento no 5 rue Crevaux, entre a avenue Foch e a avenue Bugeaud, não muito longe da atual Embaixada de Portugal. Aliás, o então Embaixador de Portugal Francisco Seixas da Costa mandou colocar uma placa neste edifício onde hoje é concierge uma portuguesa. Eça viveu neste edifício entre 1889, pouco tempo depois de ter chegado à capital francesa, até 1891, antes de se mudar para Neuilly.

Quando Eça de Queirós chegou a Paris, o Consulado de Portugal estava situado no 16 rue de Berri, entre a avenue des Champs Elysées e o boulevard Haussman onde atualmente está o Hotel Califórnia. O diplomata-escritor veio substituir o antigo Cônsul – o Visconde Augusto de Faria – mas a mulher deste recusou sair das instalações do Consulado, criando situações caricatas.

Augusto de Faria foi revogado no seguimento da viagem da Rainha D. Amélia a Paris. A mulher do Rei de Portugal era francesa e não teria gostado da atitude do Cônsul de Portugal. Pouco tempo depois recebeu ordens de regresso e foi nomeado Eça de Queirós para o substituir. A mulher do Visconde não gostou, achou que Eça de Queirós se candidatou ao posto contra o anterior diplomata e, num primeiro tempo, recusou sair da Chancelaria, provocando alguns escândalos que Eça de Queirós reportou a Lisboa.

Alguns anos depois, Eça de Queirós mudou as instalações consulares portuguesas em Paris para alguns edifícios mais longe, no 35 rue de Berri, onde curiosamente hoje também está um outro hotel, o Champs Elysées Plaza.

Quando se mudou para Neuilly-sur-Seine, dois anos depois de ter chegado a Paris, Eça de Queirós foi viver para uma casa situada no 32 rue Charles Lafitte. A casa ainda hoje existe e é habitada pelo casal Mayer, atual proprietário, que a mostra com orgulho a quem a quer visitar, preservando a memória do escritor.

Eça de Queirós morou ali com a mulher Emília de Castro, com quem casou alguns anos antes de chegar a Paris, quando já tinha 40 anos, e com quem teve 4 filhos: Maria e José Maria nasceram em Bristol antes da mudança para França, António nasceu em Paris e Alberto foi o único a ter nascido em Neuilly.

Aliás, uma placa oferecida pelo Grémio Literário, descerrada pelo Presidente da República Jorge Sampaio, em 1996, por ocasião dos 150 anos do nascimento de Eça de Queirós, foi descerrada junto à porta da casa da rue Charles Lafitte. No dia da inauguração da placa discursou Jorge Sampaio, mas também Nicolas Sarkozy, na altura jovem Maire de Neuilly-sur-Seine.

Segundo Francisco Seixas da Costa, a casa foi frequentada por muitos amigos do escritor, como os portugueses Carlos Mayer, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Batalha Reis, António Nobre, Alberto de Oliveira, António Feijó, Carlos Lobo d’Ávila e os brasileiros barão do Rio Branco, Eduardo Prado, Magalhães de Azeredo, Joaquim Nabuco, Domício da Gama e Olavo Bilac.

Em 1893 Eça de Queirós teve de deixar a casa da rue Charles Lafitte, provavelmente por razões económicas, para se instalar a alguns quarteirões dali, numa casa hoje demolida, onde viria a falecer a 16 de agosto de 1900, com apenas 55 anos. Em 1950, o então Embaixador Marcello Mathias mandou colocar uma placa de mármore na frontaria do edifício, oferecida pela Escola de Belas-Artes do Porto.

Eça de Queirós teria morrido de tuberculose visceral, como aliás morreram de tuberculose alguns dos seus ascendentes e mais tarde os irmãos Alberto, Carlos e Henriqueta. Tinha pouco mais de 1,70 m, era magro, fumava muito, apreciava a boa mesa e longas noitadas e diz-se que teria multiplicado as aventuras amorosas na capital francesa.

Durante os 12 anos que passou em França, fez sucessivas curas termais para tentar resolver os problemas de que padecia: “diarreia crónica sem sangue, com emagrecimento, nevralgias, febre e, por fim, edemas dos membros inferiores”.

Em Paris foi seguido por um médico brasileiro, Melo Viana, e em maio de 1900 pediu o auxílio do famoso médico francês Bouchard. Este receitou-lhe um tratamento nas termas suíças de Glion-sur-Montreux, mas quando regressou da Suíça, vinha ainda mais debilitado, desesperado, e até afetado por problemas financeiros. Quando o Doutor Bouchard o voltou a consultar, pediu de urgência um soro salino isotónico ao Instituto Pasteur, mas o soro já não chegou a tempo. Morreu aos 55 anos e foi substituído no cargo de Cônsul de Portugal em Paris por Armando de Navarro.

O corpo de Eça de Queirós foi transladado de França para Portugal, onde acabou por ter um funeral com honras de Estado. Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, mas mais tarde foi levado para o cemitério de Santa Cruz du Douro, no concelho de Baião, perto da Casa de Tormes que tanto descreveu.

Eça de Queirós foi um dos raros escritores portugueses a conquistar fama internacional quando ainda era vivo, sendo considerado o maior representante do Realismo em Portugal. Uma boa parte da sua obra foi traduzida para francês, como é o caso de “A Relíquia” traduzida por Georges Readers e Fernand Sorlot, “Os Maias” traduzido por Paul Teyssier, “O Primo Basílio” traduzido por Lucette Petit, “202 Champs-Élysées” traduzido por Marie-Hélène Piwink, “A ilustre casa de Ramires” traduzido por Marie-Hélène Piwnik, “A tragédia da rua das flores” traduzido por Jorge Sedas Nunes e Dominique Bussillet, “O crime do Padre Amaro” traduzido por Jean Girodon ou “O Mistério da estrada de Sintra” traduzido por Simone Biberfeld, entre muitos outros.

A sua obra foi traduzida para mais de 20 línguas diferentes.

Em 2005 foi inaugurada na esplanada da avenue Charles de Gaulle, em frente da igreja Saint Jean-Baptiste, um busto de Eça de Queirós, oferecido pela Câmara municipal de Lisboa. A iniciativa partiu da Associação Cultural Portuguesa de Neuilly-sur-Seine e do então Embaixador de Portugal em Paris, António Monteiro.

E em Paris, o antigo Cônsul Geral de Portugal Luís Ferraz, decidiu dar o nome de Eça de Queirós aos salões nobres do atual Consulado, na rue Georges Berger.

 

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