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Não é frequente um romance de estreia de uma autora brasileira ser publicado em França um par de anos depois da sua publicação no Brasil. Juliana Leite (Petrópolis, 1983) e o seu “Entre as mãos” são duas dessas raridades.

Publicado em 2018 pela editora Record e galardoado com o Prémio Sesc de Literatura, este romance foi então publicado em França pela Éditions de l’Aube – “Entre les mains”, tradução de Anne-Claire Ronsin – e encontra-se à venda nas livrarias.

“Entre les mains” conta a história de Magdalena, uma tecelã que, depois de um acidente (poderá ter sido algo mais do que isso…), tem de reaprender a viver, não só por causa das mãos deformadas que a impedem de viver do seu trabalho, mas, também, devido às cicatrizes emocionais e psicológicas que a transformaram numa pessoa diferente. Ao ser atropelada pelo autocarro, Magdalena, que se encontra entre a vida e a morte, vê o tempo parar.

À medida que a protagonista vai recuperando, se vai reconstruindo, o leitor mergulha também na sociedade brasileira. Não a das elites, mas sim a da classe trabalhadora que – num país onde a proteção social, tal como a conhecemos na Europa, é praticamente inexistente – ao não poder exercer o seu mister, tal como Magadalena, vê posta em causa a própria sobrevivência. Uma sociedade que não garante o direito de um trabalhador enfermo à convalescença é, ela própria, percebe-se, uma sociedade doente e em fim de linha. O leitor mergulha igualmente naquele espaço único que é o Rio de Janeiro, cidade de imensos contrastes que Juliana Leite explora de maneira magistral.

Para quem espera um romance de voltas e reviravoltas, de ação trepidante, ficará certamente desapontado. “Entre les mains” tem um enredo simples, é verdade, mas, em contrapartida, possuí uma estrutura de avanços-recuos e uma linguagem poética riquíssimas (alguns julgá-las-ão excessivamente complexas) que explicam em parte por que razão chegou num tão curto espaço de tempo ao mercado francês. A sua estrutura fragmentária e em camadas (no fundo, uma estrutura desestruturada), que cruza e descruza linhas e vozes narrativas, serve tanto de substrato às temáticas da solidão e do abandono, da esperança e do otimismo, como à construção de uma protagonista densa, dividida em duas, partida ao meio, entre o antes e o depois do acidente.

Um romance de estreia – de uma jovem escritora lusófona que promete – à procura de leitores exigentes.

 

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