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Guilherme Monteiro, jornalista português, correspondente em França para a SIC, fez o ‘seu’ balanço do ano de 2019 e a sua projeção para 2020.

O jornalista que chegou durante o ano a França, realçou os conflitos sociais como os eventos mais marcantes. No que diz respeito a 2020, o desejo de Guilherme Monteiro é que haja uma verdadeira tomada de consciência dos governantes para implementar políticas em torno do ambiente.

 

O que mais o marcou em 2019?

A minha chegada a França e a oportunidade de testemunhar as tensões sociais de rejeição às reformas do presidente Emmanuel Macron que, embora um pouco mais pacíficas que no final de 2018, continuaram irredutíveis pelas ruas de todo o país.

Desde o ainda movimento dos Coletes Amarelos, que se continuou a alimentar da reprovação ao cosmopolitismo e ao liberalismo político de Macron, ao renascer do movimento sindical, muito adormecido e fragilizado desde o eclodir dos então coletes amarelos.

O novo sistema de pensões, mãe de todas as reformas, por ser a grande promessa do presidente francês durante a campanha eleitoral de 2017, conduziu de novo ao despertar das ruas, nos moldes ditos tradicionais. Quer isto dizer, com os líderes sindicais à cabeça do movimento de contestação.

Mas mais, este último ano permitiu-me testemunhar a crença dos franceses em dois “guetos” – o “Gueto dos Ricos” e o “Gueto dos Pobres” nas palavras do jornal francês Le Monde, que noticiou em junho um relatório do Instituto do Planeamento e Urbanismo, onde é possível verificar, num mapa da região de Paris, “comunas bastante ricas” rodeadas de “comunas bastante pobres”.

Marcou-me a facilidade com que conversando com as pessoas nas manifestações, em palestras em que se debate a crise social no país, nos transportes públicos, é possível discernir na região da capital francesa, onde vivo, os dois grupos sociológicos distintos para os quais falam Emmanuel Macron e a nacionalista Marine Le Pen. “Duas Franças que não se cruzam e não se falam”, como diz o sociólogo Sylvain Crépon, numa análise no Le Monde, ao resultado das eleições europeias de 2019, em que a União Nacional saiu vencedora.

Nesse retrato de Crépon, o partido nacionalista não foi além do terceiro lugar em Lille, do quarto em Lyon, ou quinto em Paris, “municípios protegidos dos votos da União Nacional devido à composição sociológica” de uma “elite desconectada”. Já nos subúrbios da capital francesa, em Aulnay-sous-Bois, Sevran, Seine-Saint-Denis, a extrema-direita disparou. “Uma rutura sociológica” analisada por Crépon, que se constitui num estado de espírito presente em França e que senti permanentemente.

Recordo-me dos diversos testemunhos que ouvi desta França que parecem duas: desde pessoas que me garantiam passar por dificuldades para pagar a renda da casa ou dar de comer aos filhos à visão de quem considera que Emmanuel Macron está a tornar França mais competitiva, mais forte economicamente, com maior justiça social e um país com maior liberdade individual e ascensão social.

Recordo, por isso, o breve movimento dos lenços vermelhos, no início do ano, em resposta aos coletes amarelos, que defendiam, tal como Macron, querer “circular livremente”, “trabalhar livremente” e “restituir o crescimento à França”.

Por outro lado, podemos ler o cronista social Èric Zemmour que demarcou num artigo do conservador Le Figaro, a existência de uma França dos “vencedores da globalização” e dos “criados”, que “cuidam dos seus filhos” ou “trabalham nas cozinhas dos seus restaurantes”. Enquanto o sociólogo Jérôme Fourquet, no livro “O Arquipélago Francês: Nascimento de Uma Nação Múltipla e Dividida” fala numa França “elitista”, que apoia o atual presidente francês, e numa França “popular” que se reúne em torno da União Nacional.

Eu vi uma França em tensão, num braço de ferro permanente, entre duas visões antagónicas de país que me marcaram profundamente. Será interessante analisar durante 2020 os embates internos entre estas duas posições, com trarão as devidas consequências para França e para a Europa.

 

O que espera a nível pessoal para 2020?

Bom, pode ser cliché, mas estar bem de saúde e rodeados dos meus amigos e da minha família. São os verdadeiros desejos para este ano. Na verdade, gosto de ser surpreendido pela vida e se, por um lado, considero fundamental uma visão de planejamento a curto médio prazo, e olhar ‘por cima da copa das árvores’ a longo prazo, é necessário também deixarmo-nos conduzir pelo aqui e o agora. Por isso, que seja também um ano de novas conquistas e de descobrir mais mundo. O objetivo é sempre crescer e conhecer mais.

 

O que espera que possa mudar a nível mundial em 2020?

A rapidez com que os líderes mundiais tomarão medidas para combater as alterações climáticas. É que apesar da consciência mundial acerca desta crise planetária, o ano de 2019 voltou a registar um aumento das emissões de gases com efeito de estufa, que trazem o aumento da temperatura média na Terra, o derretimento dos glaciares e conduzem ao à subida do nível médio das águas do mar. Esta tendência do aumento do dióxido de carbono, que se verifica desde a revolução industrial, não está a ser travada nem pelas greves climáticas, nem os sucessivos avisos por parte dos cientistas ou as diversas cimeiras. Não estão a haver tomadas de decisão suficientemente eficazes por parte dos líderes mundiais, apesar das tomadas de posição fortes.

O programa das Nações Unidas para o Ambiente fixou como fundamental a redução de 7,6% ao ano, entre 2020 e 2030, das emissões de gases com efeito de estufa para que se consiga atingir o objetivo de manter o aumento da temperatura abaixo dos 1,5 graus Celsius. Na Cimeira do clima, em Madrid, que tinha como grande objetivo o acordo sobre emissões poluentes, não foi possível nenhum compromisso. Apenas o de adiar para 2020, para a Cimeira de Glasgow, novas negociações.

E se há esperança já que o discurso dominante é o de preocupação e vontade, 2020 terá que ver finalmente traduzida esta necessidade numa verdadeira estratégia.

 

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