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Passados mais de 100 anos da Batalha de La Lys, uma das mais mortíferas para Portugal, a historiografia continua a debater se o comando britânico tinha conhecimento da ofensiva alemã que acabou por matar centenas de Portugueses.

A Batalha de La Lys, na Flandres francesa, foi desencadeada pelas forças alemãs em 09 de abril de 1918, durante a Primeira Guerra (1914-1918). Entre as tropas portuguesas, a ofensiva fez cerca de 400 mortos, 6.600 prisioneiros e muitos feridos.

Um debate que se mantém nos dias de hoje é o facto de as tropas portuguesas que estavam na linha da frente irem ser retiradas precisamente na noite de 9 para 10 de abril de 1918, um dia depois do ataque alemão e se o comando britânico (Portugal intervinha ao lado do Reino Unido no conflito) terá então optado por sacrificar as tropas portuguesas.

Ouvido pela Lusa, o historiador António José Telo afirmou que “há indícios de que a Grã-Bretanha sabia que ia haver uma grande ofensiva”.

Embora ressalvando que não existirá um documento que o comprove, António Telo está convencido de que a Grã-Bretanha sabia que as suas tropas na Flandres iam ser alvo de um ataque e, como medida de precaução, fez avançar na véspera, 08 de abril, 15 unidades britânicas que são colocadas na defesa dos rios Lys e Lawe, e não na linha da frente.

António José Telo, que em conjunto com Pedro Marquês de Sousa escreveu a obra “CEP – Os militares sacrificados pela má política”, admitiu à Lusa que a historiografia “omitiu” ou “ignorou” esta questão. Nessa obra, é referido que “havia a identificação de sintomas anormais na atividade do inimigo [Alemanha] desde os começos de abril no setor português. Mas não foi dito em termos oficiais que isso indicava que estava iminente um grande ataque”.

Outro historiador deste período, Filipe Ribeiro de Meneses, defendeu que “no alto comando inglês reinava a dúvida sobre os planos alemães” e que os Britânicos “não sabiam a dimensão do ataque alemão nem os objetivos do ataque”.

Para Ribeiro de Meneses, se os Britânicos “soubessem absolutamente que os Alemães iam atacar em 09 de abril, tê-lo-iam dito abertamente, até porque a ordem dada ao Corpo Expedicionário Português (CEP) para recuar a 10 de abril impediu qualquer preparação para a batalha”.

Filipe Ribeiro de Meneses, que lançou o livro “De Lisboa a La Lys”, disse à Lusa que o General Haking, Comandante do Corpo Britânico, em que estava inserido o CEP, decidiu fazer recuar as tropas portuguesas de 09 para 10 de abril, sob “um alto grau de nervosismo”.

“Eu acho que ele tem de facto a esperança que se consiga substituir o CEP a tempo de pôr lá uma unidade britânica, porque já tinha havido motins entre forças portuguesas, o CEP tinha claramente chegado ao fim das suas forças, precisava de uma boa temporada na retaguarda a descansar”, explicou.

Nesse sentido, “os Portugueses passaram essa noite a fazer as malas, a preparar-se para a retirada, estavam a encaixotar armas, a encaixotar munições, a preparar o gado, preparar artilharia para recuar”.

“Em vez de passarem a noite a verificar se as trincheiras estavam bem construídas, se os sacos de areia que os protegiam estavam cheios, se as metralhadoras estavam municiadas, se a artilharia estava pronta para fazer fogo, se as linhas de comunicação estavam prontas para funcionar, em vez de se estarem a preparar para uma batalha, estavam a preparar-se para se vir embora”, acrescentou Ribeiro de Meneses, após a leitura dos diários da missão britânica no conflito.

O CEP, símbolo do esforço de guerra português na frente ocidental, chegou às trincheiras em janeiro de 1917, e após a Batalha de La Lys desapareceu enquanto força organizada.

A Primeira Guerra Mundial terminou em novembro de 1918, com a vitória dos aliados. O centenário da Batalha de La Lys foi evocado em 08 e 09 de abril de 2018, em França, em cerimónias nas quais estiveram presentes os Presidentes de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e de França, Emmanuel Macron, e também o Primeiro-Ministro, António Costa.

 

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