Eduardo Lino

João Costa Ferreira apresentou um recital em dó sustenido menor na Embaixada de Portugal em Paris


Os salões da Embaixada de Portugal em Paris encheram‑se por completo ontem para receber o pianista e musicólogo João Costa Ferreira, Diretor da Maison du Portugal André de Gouveia, na Cité internationale universitaire de Paris, que apresentou um recital singular encerrando a temporada 2025/26 do ciclo Musicorama, coordenado pelo Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal, Jorge Barreto Xavier e com Direção artística de Bruno Belthoise.

O concerto, concebido como uma experiência estética unificada, propôs ao público uma imersão profunda na tonalidade de “dó sustenido menor”, explorando o imaginário romântico que Franz Liszt descrevia como um “abismo” – um território emocional onde se entrelaçam mistério, vertigem e intensidade.

O programa, cuidadosamente estruturado, reuniu obras de Rachmaninov, Chopin, Scriabine e culminou com a “Sonata quasi una Fantasia, op. 27 nº 2”, de Beethoven, mais conhecida como “Sonata ao Luar”.

A escolha desta tonalidade, rara antes do século XIX e praticamente ausente nos vastos catálogos de Haydn, Mozart, Beethoven ou Schubert, conferiu ao recital uma coerência conceptual pouco habitual. Como explicou o próprio artista na nota de apresentação, a “unidade tonal” funciona aqui como eixo poético e histórico, celebrando o romantismo musical e a sua relação com as profundezas psicológicas.

A primeira parte abriu com o célebre “Prélude op. 3 nº 2” de Rachmaninov, seguido da “Valsa op. 64 nº 2” de Chopin e da “Étude op. 2 nº 1” de Scriabine, num percurso que alternou lirismo, tensão e introspeção. O público, convidado a não aplaudir entre as obras para preservar a continuidade da narrativa musical, acompanhou em silêncio atento a progressão emocional do recital.

Seguiram‑se o “Nocturno B. 49”, o “Prélude op. 45” e a “Étude op. 25 nº 7” de Chopin, bem como a “Étude op. 42 nº 5” de Scriabine, antes de um momento de grande delicadeza com a “Vocalise op. 34 nº 14” de Rachmaninov, na versão para piano de A. Richardson.

A “Fantaisie‑Impromptu op. 66”, também de Chopin, preparou o terreno para o ponto culminante da noite: a sonata de Beethoven, apresentada como o horizonte simbólico deste percurso em “dó sustenido menor”.

A interpretação de João Costa Ferreira destacou‑se pela clareza estrutural, pela atenção ao detalhe e por uma expressividade que soube equilibrar virtuosismo e contemplação. A sala, repleta, reagiu com entusiasmo ao final do “Presto agitato”, reconhecendo a força comunicativa de um recital pensado como um todo orgânico.

Eduardo Lino

Natural de Leiria, formado na École Normale de Musique de Paris e doutorado em Música e Musicologia pela Sorbonne, João Costa Ferreira tem desenvolvido uma carreira que cruza performance, investigação e direção artística. Além de dirigir a Maison du Portugal, é Diretor artístico do Concurso Internacional de Composição de Leiria e do Festival Leiria Cidade Criativa da Música UNESCO, e tem-se apresentado em salas de Portugal, França, Bélgica, Espanha e Países Baixos. Os seus concertos e gravações têm sido transmitidos por RTP‑Antena 2, France Musique e outras rádios europeias.

Com este recital, o ciclo Musicorama, cuja primeira temporada agora termina, reafirma o seu papel na promoção da criação musical portuguesa e na dinamização cultural da Embaixada de Portugal em França, oferecendo ao público parisiense uma programação exigente e de grande qualidade artística.

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