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Cultura

 

O escritor e etnólogo francês Jean-Yves Loude acaba de lançar “Le chemin des vierges enceintes” (Éditions Chandeigne), obra complementada por um site de internet que, de maneira interativa, facilitará esta original viagem literária e etnográfica: uma peregrinação de Puy-en-Velay até Santiago de Compostela, com paragem em 14 estações, passando por Trás-os-Montes, Porto e Minho.

 

O que são então estas quase desaparecidas “virgens grávidas”?

“Bem-aventurados sejam o ventre que te carregou e os seios em que tu mamaste”. Esta passagem bíblica (Evangelho segundo Lucas, XI, 27) deu azo, na parte final da Idade Média, entre os séculos XIII e XVI, a um movimento artístico que conduziu ao súbito aparecimento de estátuas de Virgens Grávidas um pouco por todo o lado. Este fenómeno, que atingiu principalmente França, Espanha e Portugal, trouxe para o interior das igrejas e dos lugares de culto o mistério da gravidez de Maria e até a amamentação de Jesus, colocando o corpo feminino no centro de um grande fervor religioso de índole popular.

Estas estátuas, capazes de sacralizar o milagre do nascimento e o corpo feminino, levaram a alegria e as dores inerentes à gravidez e ao parto para o centro do culto, feminizando-o, logo humanizando-o. Maria, uma mulher, aparece em posição de destaque nas igrejas, não apenas representada como criatura de Deus mas essencialmente como mãe, não muito distante da hora do parto, esse momento “caótico, sujo e impuro” que tanto assusta o patriarcado (ver o clero masculino) que domina o mundo desde tempos imemoriais. A gravidez e o parto como símbolos do poder feminino: eis a razão que levou ao desaparecimento progressivo dessas estátuas das igrejas destes três países (já lá vamos).

A mulher como um dos centros do culto medieval contradiz muito dos preconceitos que ainda vigoram a propósito da Idade Média. Convém recordar que as mulheres medievais, nomeadamente as de origem humilde, eram bastante mais livres e emancipadas do que as suas congéneres dos séculos XVIII ou XIX.

Por que razão desapareceram então as estátuas das Virgens Grávidas das igrejas?

Jean-Yves Loude associa estes desaparecimentos à lógica de um discurso de exclusão elaborado por homens religiosos. A imagem da mulher não deve (não pode!) estar no centro do culto. Esta postura misógina materializou-se no Concilio de Trento (1545-1563) cuja diretiva proibiu a exposição indecente do corpo feminino prestes a dar à luz. Como consequência essas estátuas personificando o poder feminino foram destruídas, escondidas, utilizadas como material de construção…

Hoje, tal como fizeram Jean-Yves Loude e Viviane Lièvre, a sua colaboradora, ainda é possível encontrar algumas dessas estátuas. Sobreviventes de uma das enésimas tentativas de apagamento dos símbolos do poder feminino. Este livro ressuscita esse culto medieval pouco conhecido e é muito bem-vindo.

 

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