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Somos um país com dez milhões de habitantes em Portugal, mas com cinco milhões de Portugueses e lusodescendentes fora do país. Sendo um país de emigrantes, não há na literatura portuguesa um grande romance recente que aborde a temática da emigração, que se debruce sobre os dramas da adaptação a um novo país, que aborde as questões identitárias de quem esteve tantos anos fora e depois regressou, que pense em linguagem literária na ambiguidade de sentimentos vivida pelos emigrantes em relação ao seu próprio país.

Talvez, por existir um certo desconhecimento, para não dizer preconceito, em relação à realidade da emigração, apesar de não existir em Portugal ninguém que não tenha um parente emigrado.

A literatura recente está, pois, em dívida para com a emigração, dívida essa que poderá, em breve, ser em parte corrigida com a publicação de uma coletânea de contos da emigração pela Oxalá Editora.

Paulo Pisco, Deputado eleito pelas Comunidades portuguesa na Europa prefacia esta coletânea de contos, e sobre estas histórias escreve: «O livro ‘Contos da Emigração – Homens que Sofrem de Sonhos’, um título bonito e romântico, apresenta um conjunto de dez histórias ficcionadas sobre uma realidade muito poderosa, que é a emigração portuguesa, que é vasta e está espalhada por todos os continentes. Nos contos, bem escritos e bastante expressivos, os Portugueses estão representados na sua complexidade social, psicológica, económica e cultural, que caracteriza a vida daqueles que um dia se sentiram impelidos a deixar o país, para procurarem noutras paragens as oportunidades que não encontravam em Portugal, para terem mais horizontes para si e para os seus. Mesmo que também haja quem partiu levado pela aventura e pela curiosidade de conhecer o mundo, algo igualmente familiar aos Portugueses».

A coletânea inicia-se com um conto de Ana Cristina Silva (Prémio Fernando Namora) que relata a passagem a salto para terras de França nos anos sessenta, cujo título é exatamente «A salto». Também as aventuras e tragédias da viagem de um Emigrante até ao país de acolhimento servem de cenário ao extraordinário conto de José Rodrigues Migues, «O Viajante Clandestino».

Os contos de Cristina Torrão e Isabel Mateus – respetivamente «Vidas Adiadas» e o «Apelo do Vale» – centram-se nos dramas da emigração dos anos sessenta, nas horas excessivas de trabalho dos emigrantes, no desencontro com os filhos que não são criados pelos pais porque ficaram em Portugal e no desencontro com o próprio Portugal, quando passados anos, demasiados anos depois, regressam ao seu país.

Nuno Gomes Garcia (semi-finalista do prémio Leya e colaborador do LusoJornal), no conto «O Sobrinho», coloca os dramas da emigração dos anos setenta e da emigração recente num país de cenouras para onde emigram as cebolas. Esse registo metaforizado permite-lhe a abordar a exploração dos Emigrantes mais antigos e dos recém-chegados e a discriminação e violência em relação aos Emigrantes.

O conto de Rita Uva, «Partida Largada, Fugida», centra-se igualmente na emigração recente de jovens quadros por causa da crise, o primeiro impacto da vida na Alemanha e a sua inevitável adaptação.

Gabriela Ruivo Trindade (Prémio Leya), Miguel Szymanski e Luísa Coelho partilham nos seus contos o tema da interculturalidade e da questão das origens culturais. «Cab Driver» de Gabriela Ruivo Trindade relata-nos as aventuras e perceções de um taxista português emigrado em Londres em relação a clientes de diferentes culturas. «A minha Bicicleta Verde» é um conto auto-biográfico sobre as origens portuguesas e alemãs do autor. Luisa Coelho, por seu lado, no conto «Uma História Verdadeira», explora o cruzamento de culturas europeias na origem de uma personagem africana.

Por último, a coletânea contém ainda um conto do nosso grande Eça de Queirós –«Um Poeta Lírico» – que nos conta a história de um poeta grego, nas andanças do narrador pela Inglaterra.

«Este conjunto de contos tem essa virtude maior que é a de nos fazer viajar pelas vidas daqueles que um dia tiveram de deixar o país, pelas suas dificuldades e dramas, pelos seus sonhos e ambições, pelo seu impulso aventureiro, pelas suas experiências nos países de acolhimento e como vivem a sua ligação a Portugal», pode ler-se no prefácio de Paulo Pisco.

Um conjunto de narrativas que constituem um tributo a todos aqueles que um dia tiveram de emigrar.

A Oxalá é uma jovem editora na Alemanha que já editou livros como «Tu és a única pessoa» de Cristina Torrão, «A menina do mar» de Sophia de Mello Breyner Andersen em alemão ou «A mulher transparente» de Ana Cristina Silva.

 

 

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