Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.
Donativos LusoJornal

 

“É quando você se esquece das palavras que surge a poesia” é assim que abre a mais recente obra que Leonardo Tonus, professor de literatura brasileira na Universidade da Sorbonne, lançou este verão. Um pequeno livro de poesia publicado pela editora Folhas de Relva e intitulado “Diários em mar aberto”.

Poeta – publicou “Agora vai ser assim” (2018) e “Inquietações em tempos de insônia” (2018) – e mentor do “Printemps Brésilien”, festival anual de literatura brasileira inicialmente centrado em França mas que rapidamente se alastrou ao mundo, Leonardo Tonus foi também condecorado Chevalier des Palmes Académiques (2014) e Chevalier des Arts et des Lettres (2015).

Este “Diários em mar aberto” nasce das vidas daqueles que viajam e atravessam mares e terras em busca de paz e de um novo lar que os acolha, mas que, demasiadas vezes, é uma história que ora termina em morte ora num mar de ódio gerado por aqueles que recusam o acolhimento. Essa ignomínia vai-se desvendando aos poucos no livro, não só na poesia, mas também nas notas de rodapé que o poeta vai polvilhando ali e acolá.

A certa altura, no meio do trabalho poético, na página 53, quando o leitor já vai embalado pela poesia de Leonardo Tonus, surge, qual OVNI de ódio ao Outro, a seguinte frase: “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele”.

Esta laracha homofóbica lançada, em 2010, pelo agora Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, serve de bofetada de realidade ao leitor, acordando-o para a triste realidade que é trazida para este livro.

Uma obra que nasce também da própria experiência de vida do poeta, ele próprio um emigrante em França, e do medo de perder a memória familiar. Na verdade, foi uma caixa que o pai, de origem italiana, lhe ofereceu, em 2019, contendo cartas, fotografias e outros pedaços de memória com quase 100 anos, que o conduziu a este trabalho. Faltar-lhe-á uma segunda caixa que explique a viagem do outro lado da família, o lado materno de origem portuguesa.

A poesia de Leonardo Tonus lembra-nos que há em cada um de nós e nas nossas histórias familiares um refugiado, um emigrante, uma mulher ou um homem que foi recebido com uma pedra na mão. Este trabalho de memória interpretado por Leonardo Tonus é um instrumento artístico que ajuda no combate contra todos aqueles que dizem:

“A escória do mundo está chegando ao Brasil, como se nós não tivéssemos problema demais para resolver”, página 89.

Novamente uma frase de Jair Bolsonaro, um homem cujos antepassados italianos cruzaram o Atlântico e emigraram para o Brasil, onde, certamente, alguém também os apelidou de “escória”. Falta ao atual Presidente do Brasil efetuar um trabalho de memória sobre a própria família.

“Diários em mar aberto”, um livro agridoce de Leonardo Tonus.

 

Cultura
X