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Geovani Martins nasceu em 1991, escreveu um livro de contos – “O sol na cabeça” (2018) – e, graças a ele, tornou-se repentinamente na nova coqueluche da literatura brasileira (vendeu 40 mil exemplares num país de 200 milhões de habitantes… a prova de que no Brasil pouco se lê), gerando, como se diz por estes dias, um grande buzz mediático, efeito que lhe garantiu uma entrada de prestígio no mercado francês ao ser editado e publicado pela Galimard – belíssima tradução de Mathieu Dosse – no passado mês de outubro, com o título de “Le soleil sur ma tête”.

Já publicado numa dezena de países e com os direitos vendidos para o cinema, esta coletânea de treze contos prova o fascínio que a pobreza e a violência cariocas exercem a nível planetário, facto já conhecido desde que Paulo Lins publicou, em 1997, “Cidade de Deus”, romance cuja adaptação cinematográfica de Fernando Meirelles se tornou um grande sucesso global. Mesmo se, para um leitor europeu, o caos inorgânico da favela, um polo de pobreza e miséria rodeado da beleza natural estonteante do Rio de Janeiro, uma mistura única de infortúnio e exotismo, é uma combinação bastante apelativa, o livro de estreia de Geovani Martins vai muito mais além.

Na tradição do realismo brasileiro, o autor (ele próprio um morador da favela do Vidigal) utiliza, por um lado, a linguagem despojada e vivaz dos habitantes dos morros, aquele português que a um falante europeu da língua soa a pura incongruência, mas à qual é difícil ficar imune, seja pela musicalidade seja pelo calor que transmite, e, por outro, pelo mergulho sem complacência na psicologia dos personagens, um universo variado que tem no centro o marginalizado, o delinquente, todos igualmente vítimas de segregação racial, de desigualdade socioeconómica e de violência policial. Tudo, porém, a uma escala brasileira, ou seja, capaz de atingir proporções absolutamente estratosféricas, tendo, de novo, a capacidade de espantar um europeu branco de classe média que ao ler estes contos só poderá pensar: “como é que isto é possível?”.

Apesar dos exagerados empolgamentos, muito típicos do nosso impaciente tempo, referenciam Geovani Martins como “o novo Guimarães Rosa” ou mesmo um “James Joyce da periferia”, algo que cheira a histerismo de rede social e a marketing disparatado, afinal o jovem autor publicou apenas uma coletânea de contos, a verdade é que Geovani Martins tem tudo para dar certo. O excelente ritmo da linguagem da periferia suburbana do Rio de Janeiro, realidade tratada com enorme sensibilidade, e o trabalho psicológico dos personagens, a tensão em que vivem, fazem de “O sol na cabeça” muito mais do que mais um livro pitoresco sobre um universo, o da favela brasileira, tão atrativo para o cidadão médio europeu, não fosse o Brasil, hoje mais do que nunca, um caldeirão repleto de contradições, de esperança e desolação, simultaneamente tão humano e tão desumano.

 

Linda de Suza 19/20

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