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Gérard Arnoux, antigo piloto, sindicalista e conselheiro técnico de diversas associações de vítimas de acidentes aéreos, publicou “Le Rio-Paris ne répond plus”, o inquérito mais recente sobre o crash e que desmantela alguns dos veredictos, nomeadamente o de 5 de setembro de 2019, em que os juízes de instrução consideraram ter sido o acidente causado por “erros de pilotagem”, ilibando assim as duas companhias, a Airbus e a Air France, de qualquer responsabilidade. Arnoux, neste livro, combate esse branqueamento e coloca os pilotos não no banco dos réus, mas sim no lugar das vítimas.

Mas voltemos a essa noite fatídica de 1 de junho de 2009 em que o voo AF447 mergulhou nas águas do Atlântico ao largo das costas brasileiras levando consigo 228 vidas. Já a grande altitude, atravessando uma zona de fortes turbulências, as três sondas responsáveis por medir a velocidade, fabricadas pela empresa francesa Thales, foram entupidas por cristais de gelo. Para Gérard Arnoux foi essa a causa direta do acidente.

As leituras contraditórias das sondas, quando o avião voava em piloto automático, conduziram ao bloqueio total do sistema informático do Airbus A330, lançando no cockpit uma cacofonia de múltiplos alarmes e deixando os pilotos desarmados – devido, segundo o autor, à negligência da formação providenciada pela Air France – perante a falha generalizada desses dispositivos tecnológicos.

Todavia, para os juízes, ao contrário de Gérard Arnoux, os defeitos na conceção das sondas do avião não foram a causa da queda do avião. Os juízes preferiram responsabilizar os pilotos mortos no acidente, apontando como causas da catástrofe “as ações inadaptadas” do piloto, a “insuficiente vigilância” do copiloto e as “graves disfunções de coordenação no seio da tripulação”.

Porém, para Danièle Lamy, Presidente da Association Entraide et Solidaire AF447, cujo filho faleceu no acidente, o juízo de setembro de 2019 “é um insulto à memória das vítimas, tomado por uma Justiça às ordens e sob influência da Airbus e do lobby da aeronáutica”.

Neste livro, o autor refuta a decisão da justiça francesa, recusando-se a ver nos pilotos mortos os bodes expiatórios cuja responsabilização apenas serve para branquear as responsabilidades da Airbus e da Air France. Ele aponta as já conhecidas falhas das sondas, a ausência de reação a incidentes anteriores, a falta de formação dos pilotos e os procedimentos oficiais inadaptados como as origens da tragédia.

Uma história muito mais complexa do que aquela em que se alicerça a decisão dos juízes e que vai desde a conceção de elementos essenciais para a segurança de um avião aos defeitos encontrados na formação dos pilotos, sendo estes, em última análise, duplamente vitimados pelas circunstâncias. Por um lado, foram vitimados pelas lacunas da sua preparação nos simuladores de voo, impossibilitando uma reação certeira e atempada ao bloqueio dos sistemas de voo, e, por outro, tal como os restantes 226 mortos, vitimados pela incompetência e irresponsabilidade da poderosa indústria aeronáutica europeia.

 

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