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Interrogada pelo LusoJornal sobre a existência de racismo na Comunidade portuguesa de França, a Conselheira das Comunidades Luísa Semedo afirma que “a Comunidade portuguesa é racista, porque o mundo é racista”.

Luísa Semedo é filósofa, escritora, docente universitária, já foi Presidente da AGRAFr, a Associação dos graduados portugueses de França, já foi Presidente da Coordenação das coletividades portuguesas de França (CCPF) e é atualmente membro do Conselho das comunidades portuguesas, eleita por sufrágio universal aqui em França. Também já foi candidata a Deputada pelas listas do Partido Socialista à Assembleia da República portuguesa, pelo círculo eleitoral da Europa. Mas Luísa Semedo também é uma ativista, uma militante, não somente antirracista, mas também antifascista e antidiscriminação de género.

Interrogada na “Entrevista Live” do LusoJornal sobre se a Comunidade portuguesa de França é racista, Luísa Semedo começou por dizer que “essas questões são difíceis, são muito quentes, muito apaixonadas, até polémicas” e lembrou que a luta antirracista “passa mesmo pela discussão, pelo debate, mesmo se é difícil, é essencial que os órgãos de comunicação social possam dar uns passos para essas temáticas”.

“O racismo não é só uma questão de tratamento interpessoal, não é só chamar nomes a alguém ou fazer mal a alguém, é um problema muito mais geral, é um problema estrutural e portanto restringir bastante esta questão, dizer se os Portugueses são ou não racistas… o mundo é racista, é difícil ouvir isto, mas é verdade: o mundo é racista” diz Luísa Semedo. “Portugal é racista, a França é racista, porque é um sistema de poder que foi instituído há séculos e séculos, para chegarmos até aqui. […] É um sistema baseado na pilhagem, na invasão do continente africano, no rapto des suas riquezas pelo Ocidente, o mundo mais rico e, portanto, isto continua e as pessoas que vivem nesses países continuam a ser alvo das réstias de todo este sistema”.

Por todo o mundo têm surgido manifestações para denunciar a morte de George Floyd, nos Estados Unidos. “Este evento veio despertar algo que está, de certa forma, demasiado adormecido e que são questões das quais nós não falamos, ou melhor, nós falamos entre nós, eu falo com o meu grupo de amigos, com as pessoas que estão interessadas por essas questões, com outros ativistas, mas depois disso, não passa suficientemente para o público”.

Luísa Semedo evocou os valores de Democracia e de Igualdade, que são aliás pilares fundamentais da criação da União Europeia, por exemplo e, se não houver igualdade, “algo de mal está a passar-se, que vai ter que ser resolvido num momento ou noutro. Não vale a pena varrer para debaixo do tapete, porque vai explodir a um dado momento”.

Confrontada com o facto de, em Portugal, haver uma Ministra e Deputadas negras, Luísa Semedo contrapôs com o facto de, ao mesmo momento ter sido eleito André Ventura, que considera ser “um retrocesso”.

Luísa Semedo demitiu-se de Presidente do Conselho Regional do CCP/Europa precisamente para contestar a eleição de André Ventura e “para não ter de lhe apertar a mão”. “Para mim é muito importante que o racismo seja algo de intolerável na sociedade, por isso eu digo que o mundo é racista, porque se o racismo fosse intolerável, era impossível termos um André Ventura no Parlamento, todas as pessoas estariam chocadas e haveria logo movimentos de protesto. E não houve. Há uma espécie de normalização” e comparou com a subida de Marine Le Pen em França.

A Conselheira das Comunidade confessa que “é óbvio que nós não podemos mudar as mentalidades das pessoas, isso passa por mudar o racismo estrutural. É preciso uma vontade política, é preciso haver um antirracismo político, é esse trabalho que é preciso ser feito”.

Luísa Semedo lembrou também a história da própria emigração portuguesa para França, quando os Portugueses viviam ainda na clandestinidade e eram indocumentados. “Nessa altura, a luta antirracista juntava Portugueses com Árabes e Negros. Então é incrível, porque nós já não estamos nessa luta agora, e uma das razões é porque nós entramos na cidadania europeia, nós não nos consideramos como simples estrangeiros, já não somos indocumentados, já não somos ilegais, e só por isso cria um distanciamento em relação à questão do racismo”.

Também a degradação de estátuas por parte dos militantes antirracistas foi tema da entrevista com o LusoJornal, nomeadamente a estátua do Padre António Vieira, em Lisboa. “A questão é com quem nos identificamos? Identificamo-nos com o Padre ou com os Índios? Eu que estou na luta antirracista, identifico-me com os Índios”.

A ativista desdramatizou a situação, diz que “nós estamos aqui a fazer um bicho de sete cabeças, mas não existem grupos de negros que andam aí à caça aos brancos. Isso não existe”. Mas considerou que está em curso uma “autêntica revolução”.

 

 

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