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Já perdi a conta das crónicas em que fui obrigado a dizer-vos que pouco havia para dizer. Uma prolongada estada em Portugal, entre o Natal e os primeiros e múltiplos trabalhos de janeiro, permitiu-me, por razões profissionais ou curiosidade cultural, ver um conjunto de exposições, de filmes e de peças de teatro, em Lisboa, no Porto, em Amarante e Faro.

Programei poder trazer aqui ao vosso conhecimento notícia desses factos culturais, na esperança de que, numa possível ida a qualquer destas cidades, pudessem ver alguns deles ou os pudessem recomendar a familiares e amigos em viagem. O interessante suplementar era poder falar-vos de uma realidade que França não conhecia, por estarem os teatros, os cinemas e as exposições fechadas desde meados de dezembro e assim nos prometerem que vão continuar.

O interesse era poder falar de uma “exceção portuguesa” que afinal, infelizmente, terminou a semana passada com o desencadear do segundo confinamento decretado em Portugal.

O impasse em que me encontrava achou porém uma saída aqui, em França, em Paris. E assim posso, ao invés de me queixar do vazio que nos rodeia, falar de uma coisa que realmente aconteceu: um espetáculo único, a experiência de um quase ensaio-geral para uma estreia e para início de uma carreira pública que não vai acontecer brevemente mas, ainda assim, uma realidade que apenas no quadro de uma apresentação profissional tem possibilidades de acontecer.

O espectáculo (de dança, vocal e plástico) é “Macchabée”, a interprete é Alice Martins e a coreógrafa Magda Kachouche.

Percorrendo três salas muito diversas nos espaços culturais de Mains d’OEuvres, em Saint-Ouen, às portas de Paris, a bailarina vai desenvolvendo (ou desdobrando) uma personagem. Os gestos, guarda-roupa e vocalizações iniciais situam-na numa transição entre o animal e a máquina, um incerto futuro tecnológico e um indeterminado primitivismo. A cada mudança de sala a personagem ganha humanidade, passa da expressão gutural e mecânica à voz humana, abandona os gestos descoordenados, deixa de rastejar (uma solução tão comum na dança contemporânea), vai-se libertando de pesados fragmentos do seu fato, ganha sofisticação, rodeando-se de adereços de cena (de uns risíveis óculos cor-de-rosa a um sofisticado toucado plástico e refletor) e musicais.

Na sala final, a única claramente adaptada à pratica da dança e teatro, a bailarina joga (penso que esta parte deveria ou poderia ter sido mais bem explorada) com dois ovos cozidos (que descasca, desfaz e em parte come), ensaia uma caricatura da masculinidade, despe-se (pudicamente protegida pela obscuridade) e, reaproveitando todas as peças de roupa que foi retirando e todos adereços que foi usando, compõe no chão um corpo ao mesmo tempo que recita em português (tradução de um texto da coreógrafa e de Noémie Monier que necessita ser mais trabalhada) um poema que nos descreve e percorre os significados desse mesmo corpo, desse cadáver feminino (como a grafia do substantivo em francês nos indica) onde os olhos, a voz, a perda do rosto, definem e explicitam a dureza e dificuldade do nosso confronto (do confronto da bailarina) com o mundo.

Bon courage para o Novo Ano, boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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