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José Batista de Matos ajudou a construir 23 estações de metro em Paris e chefiou centenas de homens, mas em maio de 68 associou-se aos protestos e tornou-se num dos instigadores da greve numa estação da capital francesa.

O Português da aldeia de Alcanadas, na Batalha, chegou ao ‘bidonville’ de Champigny em abril de 1963 para «fugir à ditadura», deixando para trás as «idas de bicicleta à Marinha Grande para ir buscar o Avante» e as escutas clandestinas, em casa, da rádio Voz da Liberdade e da Rádio Moscovo.

Com 84 anos, José Batista de Matos conta entusiasmado «a visão apocalíptica» que teve quando, no início de maio de 68, durante a pausa de trabalho das obras do metro de Charles de Gaulle-Étoile, viu «o largo ao lado do Arco do Triunfo cheio de jovens sentados», foi falar com eles e sentiu «o germinar da vontade» de participar no movimento.

Depois, foi à Universidade da Sorbonne e integrou uma Comissão de estudantes-trabalhadores, a partir da qual organizou a greve junto dos seus colegas operários, mesmo sendo ele Chefe de obras de uma equipa. «Fizemos reuniões na Sorbonne e tentei com outros amigos – alguns Franceses, um ou dois Portugueses – parar o ‘chantier’ na Étoile, em que havia 60, 70 e tal pessoas. E conseguimos parar aquilo. O trabalho parou completamente», recordou, descrevendo o momento como «uma vitória muito grande».

José Batista de Matos começou a participar nas manifestações e ia às reuniões na Sorbonne do ‘Comité ouvriers-étudiants’ porque aquele mês foi para ele «o sonho de um mundo melhor» e «ao fim de 28 dias» conseguiu um aumento de 35 francos por semana», tudo «recordações fabulosas, não só a parte material mas a consciencialização das pessoas».

«Nós combinávamos os sítios das manifestações e qual o sentido dessa manifestação em République, Nation, Porte d’Italie, Étoile… Quando sabíamos que havia uma fábrica em greve lá íamos para incitar as pessoas a não irem abaixo», continuou, enquanto a mulher, Ascenção de Matos, recorda a «angústia» de o ver sair «de Vespa direto a Paris» quando na televisão «parecia que era a guerra».

Como «não havia gasolina nenhuma para ninguém, nem para os ricos», Batista de Matos conhecia um Português numa gasolineira «que tinha à parte um ou dois bidões de gasolina» e encheu-lhe o depósito da moto «uma vez ou duas».

O Português participou nas manifestações de rua porque «tudo se pode vencer com o número de pessoas», viu muita gente «a mandar até botas e ‘pavés’ à polícia» mas diz que nunca mandou nenhuma pedra às autoridades nem andou «a descalçar Paris», ainda que tenha tido de «fugir à frente da polícia» com o filho de sete anos.

«Todas as manifestações que havia, eu ia a todas. Não falhava uma sequer porque eu pensava que a minha presença podia ser benéfica para os outros, não para mim», sublinhou, apontando que nessa altura «ganhava bem» mas ia por uma «questão de respeito pelos outros e por solidariedade».

Ainda que houvesse «uma solidariedade bestial» entre os estudantes e os trabalhadores, chegou a haver uma reunião em que os operários, incluindo Batista de Matos, forçaram a entrada na Sorbonne e também no teatro Odéon. «Foi a primeira vez, na minha vida de homem, que no Odéon os senhores professores, doutores, se tratavam todos por tu. Não havia você, não havia senhor doutor. Aquilo transformou-me», contou o autor de «Uma vida de militância cívica e cultural», acrescentando que na sua boca tinha sempre a palavra «liberdade».

Batista de Matos recorda, ainda, ter participado na ocupação da Casa de Portugal na Cidade Universitária de Paris, onde comeu «à vontade que estava tudo cheio porque eram só filhos de ricos portugueses» e como havia «malta da LUAR e alguns antigos presos políticos ninguém se atreveu a chamar a polícia».

O Português continua a ser o rosto da emigração lusa no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, onde há um desenho a ilustrar o momento em que ele e dois companheiros penduraram uma bandeira vermelha numa grua em protesto contra a manifestação de apoio ao General de Gaulle, que iria pôr fim ao ímpeto do maio de 68.

«Há três anos, um senhor telefonou-me para minha casa porque foi ao Museu e viu essa fotografia. No dia 27 de maio, ele ia na manifestação dos ‘gaullistas’ e houve um ‘gaullista’ que ergueu a pistola para lá para cima para mandar para a gente», contou.

Do outro lado da linha, o senhor disse-lhe: «Ainda bem que você está aí porque houve um ‘gaullista’ que o queria matar a você e aos outros dois».

Batista de Matos recorda o maio de 68 como «o catalisador» e «a essência» da sua vida, acredita que «é preciso maio de 68 em permanência para combater as desigualdades porque 2% da população do mundo tem tanto como 98% do mundo» e diz que na sua vida associativa sempre se bateu para «ressuscitar um pouco o maio de 68».

«Eu hoje sinto o maio de 68 como a emancipação de uma camada de homens e mulheres que se bateram para a liberdade deles e dos outros e essa liberdade expressei-a pessoalmente quando em 1982 inaugurámos, com um Militar de Abril, um Monumento ao 25 de Abril em Fontenay-sous-Bois», concluiu o fundador da Associação Portuguesa de Fontenay-sous-Bois (93) que foi, também, Conselheiro das Comunidades Portuguesas durante oito anos.

 

 

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