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Miguel Magalhães, o Diretor da Delegação de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian, considera que a morte de Eduardo Lourenço é uma “partida que faz pena e que deixa saudades”.

“Conheci-o melhor desde que assumi funções aqui em França” conta ao LusoJornal, explicando que “era extremamente humilde e com uma curiosidade infinita, sem preconceitos, sem juízos”. Conta que quando vinha de Lisboa, diretamente do aeroporto para a Fundação, “já vinha com sacos de revistas que entretanto tinha comprado, de todo o espetro político, porque estava interessado na sociedade, no seu todo”.

Uma das características que Miguel Magalhães mais destacou de Eduardo Lourenço era a de ser “um conversador”. “As pessoas da sua estatura discursam, ele conversava”.

Para o Diretor da Gulbenkian em Paris, o ensaísta que agora faleceu com 97 anos “era um brilhante, um finíssimo conhecedor de literatura, de música, de arte… tanto de Fernando Pessoa como de Montaigne”. Mas é como ensaísta que mais se destacou. “Era um descodificador da alma portuguesa, sem nunca ter desligado da Europa”.

Num comunicado divulgado esta manhã, o Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian manifesta “o seu profundo pesar” pela morte de Eduardo Lourenço, “colaborador de longa data” e Administrador não executivo da Fundação entre 2002 e 2012.

“Pensador de espírito livre e olhar profundo, aberto e sempre diferente sobre as questões, o Professor Eduardo Lourenço deu, ao longo dos anos, um importante contributo na forma de se pensar o destino português”, referiu a Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Isabel Mota. Recordando “um amigo”, Isabel Mota destaca “a sua imensa cultura, alavancada por uma enorme sede de conhecimento e interesse pelo sentido das coisas, o seu amor pela História, o seu discreto sentido de humor, tão característico dos homens de grande sabedoria”.

“Uma referência que há de permanecer em nós apesar de, neste momento, deixar a Fundação Calouste Gulbenkian de luto”, conclui.

Miguel Magalhães recorda os momentos em que Eduardo Lourenço foi convidado para intervir na Fundação, em Paris, “mas também vinha muitas vezes assistir a eventos, sem neles participar, apenas pela curiosidade que o caracterizava”. Mas lembra sobretudo uma sessão em que Eduardo Lourenço dialogou com o filósofo Marcel Gauchet. “Foi um momento de grande emoção” confirma Miguel Magalhães ao LusoJornal.

Depois da morte da mulher, Eduardo Lourenço deixou Vence, no sul da França, onde vivia, e instalou-se em Lisboa. A Fundação Calouste Gulbenkian, onde Eduardo Lourenço ainda mantinha gabinete, continua a publicar as suas obras. Foram recentemente editados os VIII e IX volumes das suas Obras Completas, “Requiem para Alguns Vivos” e “Pessoa Revisitado. Crítica Pessoana I (1949-1982)”.

Teve vários livros publicados em França, e em 2015, as edições Gallimard publicaram “Une vie écrite”, uma compilação de textos, coordenada por Luísa Brás de Oliveira.

Mais recentemente, já em outubro deste ano, foi editada em França uma antologia-manifesto intitulada “Habiter poétiquement le monde” com textos de cerca de 50 pensadores de renome internacional, entre os quais está Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço.

 

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