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Morreu esta manhã, em casa, em Paris, Gérald Bloncourt, o fotógrafo que mais deu a conhecer a história da emigração portuguesa dos anos 60.

Gérald Bloncourt nasceu no Haïti e morava em França desde os anos 40. Era pintor, poeta, mas foi sobretudo fotógrafo e tem milhares de fotografias sobre os emigrantes portugueses que chegaram a França fugidos do regime de Salazar.

Gérald Bloncourt tinha sido expulso do Haïti, tendo passado pela Martinique antes de chegar a Paris. Conhecia o êxodo que depois veio a fotografar no caso dos Portugueses. “Na altura não percebi o quanto estava a ajudar os Portugueses” dizia em entrevista ao LusoJornal.

Era militante comunista, foi responsável pelo serviço de fotografia do jornal L’Humanité, para o qual cobriu vários conflitos sociais, trabalhou também para o Nouvel Observateur, L’Express, Le Nouvel Economiste, Témoignage chrétien, entre muitos outros.

Tirou fotografias na Torre de Montparnasse, em Paris, quando estava em construção. Andar por andar. “No andar dos Portugueses, o que mais me impressionou foi o facto de lavarem com delicadeza as ferramentas no fim do dia. Isso não acontecia com operários de outras nacionalidades” contava. “Os Portugueses tinham um cuidado particular com a ferramenta, e isso impressionou-me muito”.

Pouco a pouco, Gérald Bloncourd começou a ganhar confiança com Portugueses. “No início não me queriam deixar entrar no Bidonville de Champigny” contava a sorrir. Mas depois acabou por encontrar lá os mesmos operários que já tinha fotografado nas obras.

As fotografias do maior bairro de lata da Europa, naquela altura, ainda hoje surpreendem. Surpreenderam, por exemplo, Tina, a professora de francês que se reconheceu numa das fotografias. A “menina do bidonville” escreveu uma carta emocionante a Gérald Bloncourt, que aliás o LusoJornal publicou.

Em 1966 fez a primeira viagem a Portugal para fotografar as terras de onde vinham os emigrantes que estavam a chegar aos milhares a França. E em abril de 1974 lá estava ele novamente, em Lisboa, para imortalizar a Revolução dos Cravos. As fotografias que tirou no dia 1 de maio de 1974 fizeram manchetes nos jornais franceses.

Recentemente estava muito doente e esteve hospitalizado por vários períodos. Mas guardava a esperança que sempre transmitia aos que o abordavam.

Uma semana antes de completar 92 anos de idade – porque nasceu a 4 de novembro de 1926 – faleceu. Já tinha falhado, uma semana antes, a inauguração de uma exposição que lhe foi consagrada na Maison du Projet de la Lainière de Roubaix, intitulada Mémoire Vive. Curiosa coincidência em que o autor parte e fica a memória viva das suas fotografias.

O historiador Daniel Bastos dedicou-lhe um livro, e o Presidente da República portuguesa já o homenageou. Recebeu as insígnias com emoção, dizendo que também ele passava a ser descendente dos grandes navegadores portugueses. Ele que em pequeno se fascinou pelas viagens de Vasco da Gama.

Uma cerimónia fúnebre vai ter lugar no cemitério do Père Lachaise, na próxima segunda-feira, dia 5 de novembro. A família e os amigos marcam encontro na porta principal do cemitério às 14h30, e vão depois seguir até ao crematório. “Nem flores, nem coroas” pede a família, que prefere que sejam feitos donativos à associação Haïti Futur.

 

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