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Ana Carvalho é tradutora literária e fotógrafa. Estudou em Leipzig e em Berlim ainda antes da reunificação da Alemanha, foi tradutora em Bruxelas para a União Europeia e vive hoje em Amesterdão. Participou em várias exposições individuais e coletivas em diversas cidades da Holanda, Bélgica e Portugal.

É a responsável, juntamente com Harrie Lemmens, pela revista “Zuca-Magazine”, a única a divulgar a literatura lusófona na Holanda. E foi desta revista, escrita em neerlandês, que nasceu o seu mais recente livro, “O Relógio da Alma”, que acaba de sair na Holanda. O conteúdo deste livro é a simbiose perfeita entre a literatura e a fotografia.

Partindo de uma série de fotografias que ao longo de vários números da “Zuca-Magazine” foram acompanhando citações do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, Ana Carvalho, através da sua arte, construiu um diálogo sublime com o grande poeta português do século XX. Nas palavras do escritor angolano, José Eduardo Agualusa, autor do prefácio da obra, a “Ana não força ninguém a seguir o seu olhar, o que faz é sugerir possibilidades”.

 

Ana, ao folhear este teu livro, que é belíssimo, nasceu em mim uma dúvida que gostaria de dissipar contigo: o que é que nele tem maior preponderância, as tuas fotografias ou as palavras de Pessoa?

Bem, eu espero que haja um equilíbrio entre as duas coisas. Claro que a fonte de inspiração são as palavras de Pessoa. Foi aí que nasceu a ideia e foi aí que, no fundo, nasceu a fotografia. Eu já tinha bastantes fotografias – no meu estilo um tanto abstrato, o que, à partida, oferece muitas possibilidades – e depois de o Harrie me enviar as frases em neerlandês do “Livro do Desassossego”, que ele traduziu, fui à procura de uma fotografia que eu achasse que correspondia, que entrasse em diálogo, com a frase. Que houvesse, como disseste, uma simbiose entre palavra e imagem. E foi assim que fui encontrando, pouco a pouco, as fotografias para as frases. De certa forma, o facto de Pessoa ter também uma maneira abstrata de criar, as frases em si já sugerem um ambiente abstrato, ajuda na correspondência com a minha ideia de fotografia. Portanto, esse processo de encontrar uma fotografia que se adaptasse à frase não foi muito difícil.

 

O Fernando Pessoa é o autor português mais lido pelos holandeses?

Os leitores de Fernando Pessoa fazem parte de um grupo muito específico, não é um autor tão acessível como outros o seriam. Mas quem gosta, quem o lê, principalmente o “Livro do Desassossego”, sente algo absolutamente inesperado, veem-se perante algo que julgavam que não existia. Sentem-se tão fascinados pelo livro que depois o usam quase como Bíblia. Também os seus vários heterónimos, o Álvaro Campos, o Alberto Caeiro, o Ricardo Reis, tiveram grande sucesso. Foi uma descoberta. Aqui, quase que se querem apropriar do Pessoa como se fosse um poeta holandês. É um fenómeno interessante. Neste momento, o Harrie está a traduzir a poesia ortónima do Pessoa. Depois de um longo período sem tradução, vão sair trabalhos novos. Agora, quanto a outros autores, talvez Saramago tivesse sido o mais popular aqui na Holanda.

 

E continua a ser?

Sim. Do Saramago lê-se muito o “Memorial do Convento” e, sobretudo, o “Ensaio sobre a Cegueira”, por causa do filme.

 

O filme realizado pelo Fernando Meirelles.

Sim. E, claro, o Prémio Nobel também fez com que fosse muito lido. O Lobo Antunes também é lido, embora não seja um autor muito acessível, mas quem o lê torna-se um leitor fiel e lê tudo. Em geral, a literatura lusófona é lida, tanto a portuguesa como a brasileira, falo por exemplo do João Ubaldo Ribeiro, que teve bastante sucesso aqui com o “Viva o Povo Brasileiro”. Mas também a literatura angolana com o Agualusa. Há interesse pela literatura lusófona, quer dizer um relativo interesse no meio daquele mar de livros que saem todos os anos.

 

Diz-nos qual o impacto da “Zuca-Magazine” no mundo literário holandês.

A nossa objetivo, claro, é divulgar o mais possível a literatura lusófona e despertar por ela o interesse dos leitores holandeses. Eu creio que tem funcionado. Começou como revista digital, que ainda é, e depois, para trazer as pessoas ainda mais perto da nossa literatura, nós publicamos números em papel e fazemos apresentações em livrarias aqui. Claro que esse contacto mais direto funciona muito melhor. Tivemos alguns convidados. Veio cá, por exemplo, o José Eduardo Agualusa para a apresentação do primeiro número em papel. Já cá esteve a Pilar del Rio para apresentar a “Zuca-Magazine” dedicada exclusivamente a José Saramago. Agora, no último número em papel, dedicada à poesia, convidamos o Zuca Sardan, poeta brasileiro que vive na Holanda e que é, de certa maneira, o nosso padrinho, e que nos falou do surrealismo. O contacto com o público ajuda imenso, é assim que funciona. Uma coisa é ler o livro, outra coisa completamente diferente é ver o autor. Mas também organizamos concursos na revista digital. Por exemplo, para uma citação do Pessoa, eu selecionei duas fotografias e perguntámos às pessoas para escolherem aquela que julgavam adaptar-se melhor.

 

Vamos terminar falando dos teus trabalhos fotográficos. Sei que já expuseste as fotografias que estão neste livro em Portugal, além de exposições anteriores, de outros trabalhos. Sei que neste momento tens uma exposição na “La Petite Portugaise”, a nova e excelente livraria lusófona de Bruxelas. Tens mais exposições programadas? Aqui em Paris, por exemplo?

Eu gostaria imenso e estou totalmente disponível. Como a minha fotografia tem muito a ver com a literatura, seria lógico que as bibliotecas se interessassem.

 

O que faz todo o sentido, dada a tua formação.

Sim, exatamente. A fotografia é a tradução, a interpretação e a ficcionalização da realidade. Parecendo que não, a fotografia está pertíssimo da literatura, visto que a literatura também cria imagens.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Hugo Mezena, autor de “Gente Séria”

Quarta-feira, 31 de outubro, 9h30

Domingo, 4 de novembro, 14h25

 

 

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