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“Dernière chanson avant la nuit” é o segundo romance de Francisco Camacho, jornalista e editor, que, em 2008, conquistou com o romance “Niassa” o Prémio P.E.N. Clube na categoria Primeira Obra.

Publicado em Portugal como “A última canção da noite”, “Dernière chanson avant la nuit” conta-nos a história de Jack Novak, um músico que decidiu desaparecer sem deixar rastro depois de atingir o auge da fama como guitarrista da banda Bitters. Filho de uma escocesa e de um diplomata jugoslavo de origem croata, Novak nasceu em Inglaterra e, embora não tenha vivido em primeira mão o confronto entre Croatas e Sérvios durante a Guerra da Jugoslávia, o sangrento conflito acabaria por lhe deixar marcas devido à morte prematura do seu pai que, ao ver a destruição da sua pátria jugoslava, sucumbiu a um ataque cardíaco.

Esse seu desaparecimento dará azo às mais bizarras teorias da conspiração. Raptado por extraterrestres? Raptado por mafiosos? A verdade é que essa misteriosa desaparição, como tantas vezes acontece com as mortes prematuras de celebridades, deixou nas massas um sentimento de perda apenas gerado por aqueles que se tornaram mitos.

Três anos depois, Jack Novak reaparece em Portugal com vontade de contar a história do seu desaparecimento e revelar ao mundo o que andou a fazer ao longo desses anos. Nesse momento junta-se à história outro personagem: David Almodôvar, um crítico musical com uma vida desgraçada. A uma acusação de plágio soma-se a fuga da sua mulher.

David e Jack deambularão juntos por Marrocos. O primeiro em busca de respostas para uma crise existencial e o segundo cheio de vontade de contar tudo o que descobriu.

Além de um livro de viagens, que se passa na estrada, este romance é também um compêndio sobre música.

 

Francisco, o que é que afeta mais o Jack Novak: o facto de não saber conviver com a fama ou o trauma de que padece?

O trauma de que padece sem dúvida. Eu não quero entrar muito pelo seu trauma porque posso estragar a leitura. O trauma dele é, como tu referiste, um trauma herdado do pai, homem que ficou profundamente abalado, abalo que lhe custou a vida e que esteve relacionado com a Guerra dos Balcãs. Esse trauma da guerra, essa violência extrema que aconteceu no final do século XX em plena Europa, é um fardo que o Jack Novak carrega e que torna difícil a sua convivência com a fama e com o estar constantemente debaixo dos holofotes.

 

Eu também já te ouvi dizer numa entrevista que este livro é sobre a liberdade. O que queres dizer com isso?

Eu usei aqui a figura de uma celebridade como oposição a alguém absolutamente livre. Enfim, eu não sou uma pessoa célebre, mas imagino que seja muito complicado sê-lo, sobretudo para algumas pessoas. Eu imagino que haja personalidades que se adaptem mais facilmente a esse estatuto, ou seja, uma pessoa sair de casa e ser imediatamente reconhecida. No outro dia, vi um documentário sobre os The Rolling Stones quando fizeram a digressão na América Latina e o Mick Jagger dizia, enfim, passados estes cinquenta anos de carreira, dizia que, quando se olhava ao espelho, ainda via o Mick, o cidadão Mick, aquele que sempre fora antes de ser conhecido, e que tinha muita pena de não poder ir dar um passeio a pé na rua porque isso era impossível. Então é muito engraçado porque a imagem que se via enquanto ele dizia isto em voz off era a imagem dele a passear num cemitério no México.

 

Aí de certeza que ninguém o incomoda.

Sim (risos), aí ninguém o incomoda! O livro é, portanto, sobre essa liberdade. Quantas vezes é que nós não temos vontade, e creio que a todos os seres humanos lhes ocorre isso pelo menos uma vez por dia ou por semana, não sei, conforme o nosso grau de desassossego… mas quantas vezes é que nós não temos vontade de largar tudo e ir embora? Depois, claro, não o fazemos porque temos responsabilidades, porque temos laços que nos prendem ao dia a dia, à rotina. Mas tenho a certeza que esse é um pensamento que assalta as pessoas com muita regularidade. É por isso que eu digo que é um romance sobre a liberdade. É a história de alguém que resolve largar literalmente tudo.

 

Francisco, este livro também é sobre música. Muita música. Eu conheço gente que diz que raramente ou nunca ouve música. Tu, pelo contrário, mergulhaste este livro em música. Qual é a importância da música na tua vida?

Até me faltam as palavras… A música é a minha paixão mais antiga e mais permanente. Sem querer aqui dar ares de ter sido um rapaz precoce em termos musicais, mas eu tenho discos com a data de quando eu tinha dez anos. Juntava o dinheiro que a família me dava no Natal ou nos anos e ia comprar discos com essa idade. E os tipos das lojas até ficavam meio espantados a perguntarem-se “o que está aqui a fazer este rapaz a comprar discos dos Joy Divison?”. Lembro de uma vez me terem dito “mas isto não é para a tua idade!”.

 

Claro, essa precocidade, que é disso mesmo que se trata, nota-se perfeitamente neste livro. Nota-se nele que a música está absolutamente entranhada na literatura…

Está, está… E já tinha acontecido isso no romance anterior, no “Niassa”, que tem algumas semelhanças com este, porque é um livro que também se passa na estrada e que está muito impregnado de música. Agora, ainda por cima, achei graça porque a minha editora em França, a Estelle, pediu-me uma playlist para pôr na badana do livro. E eu achei isso um desafio interessantíssimo e por isso o livro vem acompanhado por uma playlist para que os leitores possam ler o livro ao som daquelas músicas. Mas voltando à tua pergunta: a música é a minha paixão permanente, eu ouço música todos os dias.

 

Ouves música nova?

Sim, sim. É evidente que tenho as minhas coisas preferidas… Fiz cinquenta anos e existem coisas que eu gosto especialmente, que têm a ver com a minha vida, com o meu passado, mas procuro sempre manter-me atualizado.

 

Bem, eu tenho de falar nisto para não fugir à ordem do dia, tanto em França como em Portugal. O plágio é um assunto que está constantemente na ribalta, seja na literatura seja na música… O plágio é um dos temas que abordas no livro. E neste livro há uma coincidência dos diabos. A um oceano de distância, um americano e um português escrevem a mesma coisa. Achas possível, na vida real, essa coincidência?

Não sei se é muito possível. O livro, ao mesmo tempo que tem este ritmo de viagem, de liberdade e de aventura, também tem um tom um bocadinho nostálgico e melancólico. E eu quis equilibrá-lo com uma certa dose de absurdo. E esse é um dos aspetos mais absurdos do livro, que é alguém escrever um texto exatamente igual ao de outra pessoa que está exatamente a um oceano de distância. E, na vida real, a possibilidade de isso acontecer são reduzidíssimas, mas enfim foi uma coisa que eu achei divertida. E pus-me nessa posição: “imagina tu que agora escrevias aqui um texto nas maiores das inocências e já tinha havido alguém que já tinha utilizado exatamente as mesmas imagens”.

 

E essa coincidência deu cabo da vida do David.

E essa coincidência deu-lhe cabo da vida… mas eu achei muita graça a esse exercício, a essa possibilidade.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado:

Quarta-feira, 05 de junho, 9h30

Domingo, 09 de junho, 14h25

 

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