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Tinha 8 anos e relembro muito bem esse jantar familiar, esse momento que nos reunia todos, o meu irmão Carlos, os meus pais Joaquim e Maria dos Anjos e eu, ao menos uma vez por dia, à volta da mesa e depois, por vezes, raras, em frente da televisão.

Mas nessa tarde, os meus pais estavam preocupados e, depois de um dia de trabalho, nessa quinta feira 25 de abril de 1974, o regresso a casa trouxe uma nítida mistura de ansiedade e de alegria contida. Tinham ouvido “coisas”, durante o dia e ao sair do emprego, nos bastidores do hipermercado Carrefour onde trabalhava o meu pai ou à saída da fábrica de borrachas Mesnel, onde trabalhava a minha mãe. Cruzaram amigos ou conhecidos e mesmo alguns franceses comentavam que alguma “coisa” tinha acontecido em Portugal.

A rádio estava acesa, a televisão estava ligada, as próprias janelas pareciam ter ficado abertas em corrente de ar com a porta onde começariam a bater vizinhos. Mais tarde.

A “coisa”, pois nenhum dos nossos lhe deu um nome antes de, no Jornal da noite, se ouvir, pela primeira vez, a palavra “revolução”. Ainda ouço ou quero ouvir «Une révolution a eu lieu au Portugal ce matin. Les militaires ont pris le pouvoir. Le Premier Ministre part en exil. La population est dans la rue et… chante en brandissant des Oeillets!».

Toda a noite deles, curta, e parte da nossa, ouvimos o zunzun dessa palavra, descobrimos Grândola, Vila Morena, o MFA e… os cravos vermelhos.

 

Hermano Sanches Ruivo

Autarca em Paris, Presidente da associação Activa

 

Testemunho recolhido para o LusoJornal, no quadro da Exposição sobre os 40 anos do 25 de Abril, do fotógrafo Mário Cantarinha, publicado na edição em papel do LusoJornal de abril de 2015.

 

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