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Duas vozes percorrem “O duplo fulgor do tempo” (Ed. Licorne, 2019), último romance de Maria Graciete Besse. Com efeito, a história, que se passa na região da Caparica (donde é originária a autora), entrecruza o destino de duas mulheres que viveram a 200 anos de distância, muito diferentes, mas que são ambas vítimas da lei patriarcal.

Uma delas é uma antiga camponesa, a refletir sobre a velhice enquanto espera pela morte num lar da região: “Chamo-me Luísa, que é nome de fidalga… sei que a morte me espera no fim deste verão, mas não tenho medo de morrer… desde que os meus filhos me deixaram aqui neste exílio, conto os dias e observo os velhos à minha volta, alguns já muito degradados, outros transformados em legumes malcheirosos, e penso que envelhecer é isto, abandonar a esperança, esquecer-me de mim, deixar-me mirrar pouco a pouco, diluir-me sem quase dar por isso, perder as forças, o desejo de viver (…) mas ainda não perdi a memória, lembro-me de quase tudo, sobretudo do passado…”

A outra é uma ilustre desconhecida, pertencente à família dos Távoras, que também se chama Luísa: “Tudo o que vinha de França a divertia, mas gostava sobretudo de se dedicar à leitura de versos e novelas amorosas que partilhava em tardes inquietas com a mãe. Esta confiava-lhe por vezes que apreciava deveras a sua viveza de espírito e, quando estavam as duas sozinhas, pedia-lhe que lesse em voz alta capítulos inteiros de livros de cavalaria, mesmo se sabia que eram pouco recomendados para donzelas. O avô materno, apesar de muito viajado, costumava dizer que uma verdadeira fidalga tinha por vocação o recato e só devia sair de casa três vezes na vida, para batizar, para casar e para ser enterrada”.

“Apesar de pertencerem a épocas e a extratos sociais diferentes, – afirma Maria Graciete Besse numa recente entrevista concedida a Sandra Leandro, da Universidade de Évora – ambas conheceram o obscurantismo, a solidão e o abandono, sem nunca perderem o desejo de escapar à condição de vítimas de um sistema que sempre considerou as mulheres como seres inferiores”.

Graças a um trabalho rigoroso de investigação, em “O duplo fulgor do tempo” Maria Graciete Besse oferece-nos também, quase sob a forma de crónicas, a oportunidade de atravessarmos dois séculos de história (séculos XVIII e XX), sempre sob o seu olhar crítico. A jovem fidalga, casada com o primo D. Álvaro de Távora, que lhe fora escolhido pelo pai, assistiu à sucessão de várias catástrofes: o terramoto de Lisboa, a terrível condenação de seus parentes, o suplício do padre Malagrida e a prisão de seu marido, antes de entrar no convento da Madre de Deus. Em paralelo, a antiga camponesa conta-nos, na primeira pessoa, a participação do pai na guerra da Flandres (“um dia pensou que ia morrer, escondido na trincheira com uma arma que se chamava luísa, era a sua menina, por isso me pôs esse nome quando nasci…”), a emigração a salto para a França ou ainda a sua admiração pelo escritor José Saramago, apesar de nunca o ter lido: “de quem gostei mesmo foi do Saramago, que era um homem do povo e não tinha manias, como dizia a minha filha que um dia até me leu uma carta que ele escreveu a uma avó chamada Josefa, com palavras tão bonitas… nunca li um livro dele, mas ainda hei de perguntar se têm ali na estante da biblioteca, para não morrer estúpida”.

Maria Graciete Besse nasceu na Caparica e reside em França desde 1974. Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorada com uma tese sobre a obra de Alves Redol (Universidade de Poitiers, 1985), foi responsável do Departamento de Português da Universidade de Paris IV-Sorbonne e coordenadora do Grupo de Estudos Lusófonos. É autora de uma importante obra de crítica literária. Em França, publicou em particular “Lídia Jorge et le sol du monde. Une écriture de l’éthique au féminin” (L’Harmattan, 2015) e “José Saramago et l’Alentejo: entre réalité et fiction” (Petra, 2015). Em poesia, conta entre os títulos mais recentes “A ilha ausente”, “Errância laminar” e “Na inclinação da luz”.

“O duplo fulgor do tempo” é um romance primoroso e apaixonante, escrito numa linguagem precisa e límpida, onde a História se cruza com a ficção. Um livro para ler absolutamente, e não só em tempos de confinamento…

 

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