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John Cage, músico americano, incontornável personagem da arte contemporânea, comparável na sua empresa revolucionária a Marcel Duchamp, criou em 1952, uma peça musical que marcou o resto da história da cultura atual. Intitulou-a “4’33’’ de silêncio”. Um intérprete, sentado frente ao teclado de um piano de concerto, perante uma plateia expectante e ignorante do que a esperava, deixou escoar aquele tempo exato sem se mexer, sem produzir qualquer som. E o que é um tempo curto no correr normal do quotidiano ou mesmo no tempo longo de qualquer espetáculo transformou-se, naquela noite num tempo imenso e incómodo; não exatamente silencioso, pois a audiência, embora disponível para aceitar as experiências radicais do artista e do grupo onde se inseria (que incluía entre outros, o coreógrafo Merce Cunningham ou o artista visual Robert Rauschenberg) começou a agitar-se, a sussurrar, a falar alto. Não houve, afinal, silêncio e foi esse som disperso no espaço e no tempo, o de uma inquietação coletiva, que preencheu o silêncio imposto pela partitura branca de John Cage.

Foi nesse “4’33’’ de silêncio”, tornada hoje peça clássica sem a força revolucionária inicial, que pensei na passada sexta-feira, olhando a rua da minha janela, entre as 24horas e as 24horas quatro minutos e trinta e três segundos seguintes. A rua silenciosa era esse piano mudo e toda a sociedade, escondida nas suas casas, atrás de outras tantas janelas iluminadas como a minha, era a assistência que se agitava impaciente, ignorante dos andamentos seguintes da peça, produzindo ela própria o som que seria o do concerto, agora o som de uma angústia coletiva, não aderindo mas não conseguido também encontrar vias para exprimir a sua impotente revolta face ao que lhe apresentam. Até porque, ao contrário das palmas que enchiam as ruas nas tardes do confinamento, o ruído que produzimos fica agora abafado dentro de cada lar e não é socialmente partilhado.

Os produtores e consumidores de cultura encontram-se também na situação desse público, sujeito então à provocação de um músico, sujeitos agora a uma provocação sem rosto, de um vírus que coloca os governantes e as polícias, os cientistas e os técnicos de saúde, no papel de compositores, múltiplos e dissonantes, de uma peça bem mais arriscada, bem mais radical que a de Cage – embora o seu grau de risco e radicalidade não seja o de nenhuma revolução estética mas sim um risco e radicalidade que nos conduzem a tempos de regressão, de perda e de desorientação (que aquela mesma revolução, afinal, talvez já anunciasse…).

Complicando ainda mais a articulação entre trabalho e lazer ou ócio culto, assistiremos agora às tentativas de adaptação dos teatros, das salas de concerto e dos cinemas aos novos horários, fazendo-o em competição ou complemento com os horários dos restaurantes… Chegados a casa às 21h00 (os engarrafamentos nas saídas de Paris vão portanto ser bastante antecipados!) aumentaremos certamente as horas de consumo de produtos online e por subscrição (não sei se apenas culturais…), aumentaremos talvez as horas de leitura ou recuperaremos talvez as horas de sono que os hábitos urbanos nos fizeram perder. E, então, acordando às 6 horas da manhã, mas sem animais para tratar nem campos para lavrar, talvez nos atiremos à leitura dos Trabalhos e os Dias de Hesíodio, das Éclogas de Virgílio, das Metamorfoses de Ovídeo…

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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