Opinião : Em abril águas mil? Em abril sonhos mil…

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Faço parte integrante de uma geração que os políticos chamam “os nossos emigrantes”, mas nunca emigrei. Nasci em França e a minha língua materna é o francês. Mas pelo nome e história familiar, faço parte da terceira geração de emigrantes.

O que representa “a emigração”, este à priori, que hoje ainda é um estigma na maneira de pensar de algumas pessoas e que serve de base para análises políticas e sociais?

O que é que os políticos portugueses e as políticas do país aguardam de nós, jovens de origem portuguesa e “da emigração”, alguns dos quais, já perderam o nome de família, porque um dos pais é de outra nacionalidade?

Que reivindiquemos a nacionalidade portuguesa para tudo o que conseguimos com os esforços pessoais, que nos possam elevar: na arte, no desporto, na política, no sector empresarial? Que um homem ou mulher que obtenha um sucesso ou venha a ser conhecido publicamente, se recorde da “pátria madre”, esse conceito de “mãe que nos pariu” mas que não nos criou, que espreme o melhor que podemos dar, mas nunca contribuiu senão com a raiz que atirou para o mundo, e que formou a nossa árvore familiar, mas cujos frutos foram lançados por este mundo fora, expulsos da terra que os viu nascer: pelo vento da crise económica que os obrigou a ir buscar condições melhores ao longe?

Podíamos sentir mágoa, pelo contexto familiar, tantas vezes doloroso, porque emigrar é uma aventura que abre portas e novas perspetivas para o mundo, mas também rasga o tecido familiar em mil pedaços e torna desertas as províncias dos jovens que deveriam fazer parte do desenvolvimento desses lugares, poderíamos, pois, ter uma mágoa contra o país de origem. Pátria, sim, mas mãe é a mãe que nos pôs no mundo. Sinto orgulho nas raízes portuguesas, mas isso não deve trair os meus valores familiares.

O que fazer, então, com os conceitos, tão apregoados, sobretudo entre a emigração e os descendentes da emigração: de pátria, de origem, de raízes? O que fazer com uma herança imaterial? Quem nos chama a regressar ao país? Uma pátria madre ou madrasta para com os nossos pais, avós…, ou apenas a voz dos nossos antepassados que amavam essa terra, apesar das condições de vida duras que os arrancou dali?

Os países são terras com fronteiras definidas por lutas, sacrifícios, vidas humanas onde os nossos antepassados definiram que “Aqui vai ser Portugal!”, há um apego emocional ao que foi a terra dos nossos pais ou avós, onde julgamos encontrar algo que nos pertence e que está na base da nossa construção como pessoas. Há um amor inerente à terra que nos parece estar na origem da nossa vida.

A rejeição dessa terra como se fosse uma pessoa física que nos expulsou, não faz sentido, porque o verdadeiro problema são as políticas sucessivas antes e após o 25 de Abril, data a partir da qual os meus familiares esperaram tanto uma estabilidade para regressar, uma expectativa mais feliz para as gerações vindouras, mas Portugal continuou a ser um horizonte geográfico sem esperança de regresso digno, onde os senhores que ali mandam, não dão valor suficiente às artes, à mão de obra especializada…

Mas no final, pode-se amar uma terra, o que ela representa na história, o que ela representa para nós e para os nossos, mas, como me ensinou filosoficamente o meu avô materno: “a minha pátria é a minha família” e ficaremos, pois, onde a expectativa económica e social é a mais favorável para a nossa família, enquanto cogitamos de como tornar Portugal nesse país que “aquela madrugada de Abril” prometia e que tem tardado a chegar.

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LusoJornal