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Este ano parece que já tivemos férias, mas não é verdade. Parece que parámos dois meses, mas também não é verdade (foram-nos arranjando mil maneiras de continuarmos a trabalhar, às vezes muito mais e em piores condições) mas, ainda assim, terão tido sorte aqueles que não perderam rendimentos nem empregos.

Esta crónica deseja anunciar as férias de modo eufórico (e a verdade é que já podemos ir ao cinema e aos museus e beber cervejas geladas nas esplanadas dos cafés e regressar a Portugal para ver a família, as praias e as montanhas).

Mas sabemos que serão sempre umas férias estranhas de um ano estranho – assombradas por notícias e falsas notícias e por inúmeros números, uns falsos, outros verdadeiros, todos inquietantes. Serão umas férias de que regressaremos em setembro sem certezas relativamente ao futuro próximo. Sem sabermos se os cenários de março a maio não se irão repetir. Mas a verdade, também, é que se os agentes culturais não desistem, se os criadores não desistem, porque havíamos nós, os públicos, de desistir?!

Guardámos para esta crónica eventos que são ainda desta semana, mas também das semanas que se seguem, até ao final do mês. A saber:

A apresentação única e irrepetível, entre as 3 da tarde e as 10 da noite, no 43 rue de la Bellechase, Paris 7, da obra de João/Maria João Costa Espinho, artista que agora transita entre as duas identidades sexuais.

As obras (desenhos, filmes, pequenas coreografias) centram-se no corpo e foram produzidas entre Portugal e França, no período do confinamento (MYARTINTIMESOFCOViD19) apresentam-se como uma instalação que pode ser discutida diretamente entre o/a artista e o público que apareça, mas limitado a 10 pessoas de cada vez (Covid oblige).

O prolongamento, até dia 26 de julho, nas instalações do FRAC (Fonds régional d’art contemporain) da Normandia, em Rouen (e depois de uma interrupção forçada de 3 meses) da grande exposição monográfica de Diogo Pimentão que já aqui referimos.

O artista, embora residindo em Londres, é bem conhecido em França (onde tem galeria e está regularmente presente em salões e feiras). Pimentão jogando frequentemente na dimensão do ‘trompe l’oeil’ explora também o corpo e a porosidade entre corpo e espaço; e fá-lo a partir dos mais elementares recursos do desenho (a grafite e o papel) e dos gestos aproximando-se de abordagens coreográficas. Este projeto teve apoio importante da Fundação Calouste Gulbenkian de Paris, na sua nova estratégia de apoios à criação e também do Camões-Centre culturel portugais à Paris.

Nas fotografias de Tito Mouraz continuamos ainda no domínio do corpo, mas do corpo ausente. Trata-se da representação portuguesa (Camões-Centre cultural portugais à Paris) na segunda edição da exposição coletiva “Visages d’Europe”, de mais de uma dezena de Centros culturais da rede europeia EUNIC e serão expostas no gradeamento da Tour Saint Jacques (com apoio da Mairie de Paris).

O jovem e premiado Tito Mouraz apresenta um projeto de 2017 (A Casa das Sete Senhoras) onde pensa (dá a ver) o corpo fantasmático a partir da exploração visual de uma lenda de encantamento e feitiçaria de uma aldeia da Beira Baixa (a exposição inaugura dia 25 de julho e integra o conhecido Festival de jovem fotografia europeia, Circulation(s)).

Finalmente, temos a energia do corpo eufórico com que poderemos celebrar o verão. Trata-se da coreografia “Gouâl”, do português (ou luso-francês) Filipe Lourenço (nascido em Bourges) que, depois de ver anulada a sua apresentação, em março, no Centre Le Cent Quatre, integra agora o Festival Paris l’Été com espetáculos nos dias 30 e 31 deste mês, respetivamente às 21h00 e às 19h00, sempre nos espaços do Lycée Jacques-Decour, na Avenue Trudaine, em Paris.

Filipe Lourenço aprendeu desde cedo as danças magrebinas (de que se tornou especialista e professor) assim como aprendeu Oud e Kuitra, dois instrumentos tradicionais da música norte africana. Deixo-vos pois com “Gouâl” onde se cruzam a energia e o rigor da tradição com a energia e a mestiçagem das culturas contemporâneas na esperança de que a promessa de “un été en liberte” que o Festival nos faz se possa prolongar na rentrée de setembro e outubro.

Boas férias sempre com boas escolhas culturais.

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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