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Demorou demasiado tempo até que Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul de Portugal que estava em Bordeaux na altura em que deflagrou a II Guerra mundial, fosse resgatado do ostracismo a que foi votado pelo ditador Salazar, então Presidente do Conselho e Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Foram precisos 46 anos até que começasse a ganhar forma o processo de reconhecimento e reabilitação de Sousa Mendes, o mais extraordinário dos diplomatas portugueses, que conscientemente aceitou pagar o preço de ver a sua carreira destruída por desobedecer às ordens do Estado porque, se não o fizesse, poderia estar a mandar para a morte milhares de pessoas que fugiam desesperadas do avanço dos nazis.

Mas Sousa Mendes agiu de acordo com a sua consciência, com sentido de humanidade, incapaz de ficar indiferente à sorte de milhares de pessoas, entre franceses, judeus, russos e de muitas outras nacionalidades, entre as quais também membros da família real do Luxemburgo.

Perante a fuga descontrolada de milhares de pessoas que a partir de Paris deixavam tudo para trás, Aristides de Sousa Mendes pôs-se a dar vistos sem parar em passaportes que chegavam aos sacos, sem olhar a credos, raças ou condição social. Terão sido mais de 30 mil os vistos que passou, cerca de 10 mil a judeus. Na cerimónia que se realizou para a concessão de honras de Panteão a Aristides de Sousa Mendes, o Presidente da República exprimiu bem aquilo que todos devemos defender, que é o nosso sentido humanista, tolerante, inclusivo, de respeito pelos outros.

“Não há raça, etnia, religiões, culturas, civilizações que sejam umas mais do que outras e que não mereçam, todas e todos, o mesmo respeito da dignidade da pessoa, da sua inexpugnável diferença”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

Entre junho de 1940 e 1986 passaram 46 anos. Anos em que houve resistências mesmo dentro das paredes da diplomacia à reabilitação do Cônsul de Bordeaux. Mas em 1986, o Presidente da República, Mário Soares, condecorou a título póstumo o diplomata português e o Estado pediu desculpa e indemnizou a sua família por ter sido expulso da carreira diplomática. Dois anos mais tarde, outro socialista, Jaime Gama, apresentou na Assembleia da República uma moção que foi aprovada por aclamação para que se procedesse à sua reabilitação. Paralelamente, tem havido esforços, até agora, infelizmente, infrutíferos, para transformar a Casa do Passal, que pertenceu à família, em Casa-Museu, no Carregal do Sal. Mas agora, com base numa resolução da Deputada Joacine Katar Moreira, aprovada por unanimidade no Parlamento, o reconhecimento supremo é a concessão de honras de Panteão a Aristides Sousa Mendes, 81 anos depois de ter salvo milhares de vidas contra a vontade de Salazar, que nunca lhe perdoou o seu sentido de humanidade, a sua coragem e a sua retidão moral e ética, que hoje são uma referência e um orgulho, não apenas para Portugal, mas para a humanidade. Aliás, muito antes, em 1966, já Israel lhe atribuía o título de Justo entre as Nações, concedido a não judeus que durante a II Guerra mundial ajudaram a salvar judeus.

Mas é mais do que devida uma outra referência. Ao mesmo tempo que em Lisboa Aristides de Sousa Mendes recebia honras de Panteão, em Bordeaux realizavam-se também cerimónias de homenagem ao diplomata português, frente ao seu busto, com a presença da Ministra delegada à Memória e aos Antigos Combatentes, Genevieve Darrieussecq, e Manuel Dias Vaz, vice-Presidente do Comité Sousa Mendes, desde a sua fundação, em 1988.

Manuel Dias Vaz é uma pessoa extraordinária, que tem feito um trabalho notável, incansável e persistente na divulgação da ação do diplomata. E, por isso mesmo, merece também o devido reconhecimento pelo inestimável trabalho de cidadania que ao longo de décadas tem realizado, que tem levado longe o nome do Cônsul de Bordeaux e o nome de Portugal, guiado pela crença num mundo melhor, mais justo e de paz.

 

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