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São 15h30. A temperatura ronda os 38 graus. Caminhamos até ao cimo da aldeia. O ligeiro vento seca-nos a camisa, dominamos a aldeia adormecida, é hora da sesta.

Sentados num pedaço de tronco de pinho, escrevemos.

Colocámo-nos a pergunta: porque escrevemos, porque escrevo?

Aos escrevermos sobre os outros, não será que estamos a escrever sobre nós mesmos? Não será que as nossas historias individuais não serão em parte comuns?

Vem isto a propósito do livro que lemos atualmente: “Contrabando e emigração numa aldeia raiana – Foios” de Alberto Trindade Martinho e José Manuel Nunes Campos, e em particular sobre o testemunho de António Robalo, Presidente da Câmara do Sabugal.

A história da infância de António Robalo é em parte a nossa história, a história de alguns de nós. Outeiro de São Miguel, na Guarda, lugar que nos é comum… também estes locais fazem parte das histórias da emigração dos anos 60 e 70 do século passado.

Os nossos pais emigraram para França, diziam eles por poucos anos, ganhar uns tostões, construir uma casa, comprar eventualmente um carrito e regressar.

A questão dos filhos colocava-se. Levar estes para França seria a obrigatoriedade de aprender a língua de Molière, fazer amizades, namorar, casar… inviabilizando ou tornando difícil o regresso. Que solução?

Surgiu a hipótese de deixar os filhos em colégios, internatos, na família em Portugal.

Para além dos filhos, havia a outra parte da genealogia: os ascendentes, os “velhotes” de quem por vezes tinha-se necessidade de virem se ocupar. Que fazer ficar ou regressar de França? Era como estarmos assentados entre duas cadeiras… nem sempre fácil de manter o equilíbrio, nem sempre fácil de evitar conflitos familiares. O mês de “férias” em Portugal era um mês de ocupação de avançar com os trabalhos na casita e de guarda os ascendentes.

Como dizíamos atrás, surgem os colégios, os internatos… o auge destes estabelecimentos os anos 70 do outro século.

Pessoalmente, passámos pelo Colégio de São Miguel, na Guarda, de Manteigas e pelo Liceu da Covilhã.

Como António Robalo, também nós íamos passar parte das férias grandes junto dos pais, em França, aproveitando para ganhar uns trocos nas “fermes” na apanha das batatas… a partir dos 16 anos na fábrica de plástico onde trabalhavam os nossos pais… uma maneira também de darmos valor a estes e aos seus sacrifícios.

Anos felizes da nossa juventude? Agora que está passado meio século, diremos que sim, contudo com boas e menos boas recordações.

Como muitos outros, os nossos pais privaram-se da nossa companhia para, como eles diziam, nos darem um melhor futuro: um presente parcialmente sem os filhos, os filhos sem os pais…

Foi o período da educação de massa: o deitar sempre à mesma hora, o dormir 40, 50 no mesmo dormitório, o ter que andar na regra levando tantas reguadas quantos os erros no ditado. As crianças, os adolescentes, são duros entre eles, a quem se confiar quando se era amolestado por condiscípulos?

As cartas de nossos pais chegavam por vezes às nossas mãos já abertas, havia quem colecionasse selos? Estávamos ainda nos tempos da ‘outra senhora’… Salazar tinha caído da caldeira substituído por Marcelo Caetano. A resposta aos pais era dada num determinado dia e hora por todos os escolarizados… nós por cá, tudo bem graças a Deus…

Que trabalheira a das nossas mães durante o Verão! Toda a roupa, do lenço às calças, tinham de ter o mesmo número. Para mim, eram três a cozer: o 2, o 3 e o 0. Eu era o 230! Após a lavagem da roupa, esta era-nos distribuída em função do nosso número… a tropa antes da tropa… ir para o ultramar começava a meter medo.

Será que fizemos as “burrices” necessárias do adolescente? Talvez não. Talvez se tenha passado demasiado cedo da infância para o adulto sem termos adquirido a experiência do adolescente.

Os colégios e internatos tinham grandes responsabilidades, tinham de nos entregar direitinhos aos nossos pais emigrantes.

A liberdade no Outeiro de São Miguel? O jogo de futebol? O passeio de domingo à aldeia, em frente, todos juntos, acompanhados pelas guias freiras?

No meio disto tudo, nós, os filhos de emigrantes, éramos considerados, de uma certa maneira, como uns privilegiados, fruto do sacrifício dos nossos pais, com o pagamento da pensão mensal. Havia no Outeiro São Miguel uma outra classe, os filhos de gente pobre, vestidos todos com a mesma bata, azul e branca. Estes retribuíam a educação escolar fazendo alguns trabalhos, a cantina deles era separada da nossa, dizia-se que ali se comia menos bem. Outeiro de São Miguel preparava estes jovens para um futuro, uma profissão.

Também eu António Robalo, e talvez no mesmo ano que tu, fiz a Crisma, um familiar não pode vir para fazer de padrinho, sentindo-me abandonado, também a mim o Padre Geraldes serviu de padrinho.

Em outubro, o nosso pai fazia uma ida e volta de comboio para nos trazer ao colégio. Que trabalheira, que massada… ainda bem novos começamos a fazer a viagem sós, com 4 a 5 mudanças a fazer. Também nós tivemos direito a que um bolso fosse cozido no interior das cuecas, para ali colocar as notas com que pagaríamos a pensão mensal e com que pagar o anis semanal em Manteigas, na única meia hora de liberdade do sábado, no café Avenida.

O nosso pai tinha fabricado uma mala de madeira que fechávamos com um cadeado. Como esconder as notas? No fundo da mala, no papel que a tapissava, criávamos uns rebordos, ali colocávamos os mil e cinco mil escudos… nunca dai desapareceram. Quando os pais vinham no verão ainda havia restos.

Em Manteigas, a liberdade encontrámo-la no escutismo, que nos permitiu conhecermos a Serra da Estrela sem os meios de comunicação atuais, belos tempos dos caminhos a seguir, do morse, do semafórico, das tendas da tropa, da aprendissagem da camaradagem, do fazer comida, dos primeiros socorros, do contacto com a natureza, o desempenhar de responsabilidades.

Em Manteigas, conhecemos os padres de direita e de esquerda, recordamo-nos do Padre Rafael que jogava connosco ao futebol. Ir às aulas de história com o Padre Pedro era como que ir a um espetáculo, aprendíamos a história com as suas histórias, se ao meio dia três copos tivesse bebido em vez de dois… ainda melhor. Por vezes, o Padre Tenrinha vinha dizer para rirmos menos.

Alguns dos meus colegas pensavam que na hora da coral eu fazia de propósito para me porem na rua… Não, não, eu cantava e canto mesmo muito mal.

Outeiro de São Miguel, só rapazes. Em Manteigas éramos rapazes e raparigas, nós nas cadeiras da frente, elas nas de trás. Como comunicar? Havia dois tipos de cadernos: um entre namorados, outro uma espécie de inquérito, todos escreviam, respondiam, uma maneira de passar mensagens, de se ler entre linhas. Também fazíamos circular um livro de autógrafos, que ainda hoje possuímos.

Outro momento de liberdade, eram os torneios de futebol de cinco, na primavera e no verão. O nosso posto era de guarda-redes… poucas entravam… o nome da nossa equipa era H2SO4, fórmula química do ácido sulfúrico. Éramos as vedetas, todo o colégio vinha apoiar, ganhávamos contra os matulões.

Alguns de nós, aproveitavam a noite para se libertarem pela claraboia dos quartos do primeiro andar, as raparigas dormiam no rés do chão. As claraboias permitiam passar facilmente do telhado para uma plataforma, dali para a vila e para a liberdade momentânea, por vezes fruto de uma aposta. De regresso, chegavam às 7h30 e ao pequeno almoço, o padre e a criada tendo sido prevenidos por informadores da peregrinação, faziam o sermão sem missa aos bem aventurados noturnos.

Outro momento de liberdade foi o ano em que tivemos que fazer um herbanário: percorremos campos, caminhos, à procura de raízes térreas, aéreas e aquáticas… ainda hoje o herbanário mostra conservação razoável… Outros tempos, prazeres diferentes.

Chegou o 25 de abril de 1974. Veio o MFA, a passagem de autocarro, vindo do Portugal dos Pequeninos, e a paragem em Santa Comba Dão, terra de Salazar, vieram nos dois anos de Liceu na Covilhã, os meses sem aulas, as greves, o dia da espiga, as aulas nos campos, as revoluções nos diversos quadrantes da sociedade portuguesa, de certas mudanças na emigração: outras histórias, outros tempos, outras recordações… histórias para contar. A emigração e as suas consequências.

Já mudámos 5 a 6 vezes de ‘poisadoiro’, o sol passando entre os pinheiros. Tocam as 18h30.

São horas de descermos. No café da Palmeira, uma ou mais rodadas a partilhar, menos numerosas que há anos: o Covid-19, as piscinas particulares e o ar condicionado afastam as gentes de reuniões, no domingo 15 de agosto houve missa, sem procissão, sem festa popular, sem baile…

 

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