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Frio, tanto frio que alguns farrapos de neve gelada se agarravam ainda, tantos dias depois do frágil nevão da semana passada, aos passeios, às capotas dos carros estacionados, ao tapete da relva rala dos jardins; nos lagos das Tuilleries e do Luxembourg os patos escorregavam no gelo perdendo a elegância de nadadores. No céu, um sol sem nuvens e o ar rarefeito realçava os dourados das estátuas e das cúpulas, a delicadeza marfim das fachadas e acompanhava o espelho veloz do Sena transbordando sobre os cais.

As pessoas não se resguardaram desse frio no fim de semana: porque os dias estavam assim, belos, porque o discurso do consumo os incitava a sair, a comprar. Desta vez duas realidades se sobrepunham ou justificavam: aproximava-se o fim do período oficial dos saldos; celebrava-se o S. Valentim, dia dos namorados. Acrescentemos o aumento das poupanças nos que, felizmente, mantêm o seu emprego e que há dois meses não gastam dinheiro em nada daquilo que o Governo considera, em simultâneo, não essencial e facilitador da contaminação: restaurantes, teatros, cinemas, museus…

Devido aos limites de pessoas por metro quadrado, em poucas lojas se podia entrar sem ter que enfrentar um longo momento de espera ao frio. Do meu périplo destes dois dias posso estar a retirar conclusões enganadoras e com elas enganar o leitor. São observações empíricas e com poucos dados recolhidos (apenas nos três mais caros bairros da cidade) mas reparei, no entanto, algumas exceções a essa lei do consumo – e infelizmente, mesmo em França, em Paris: nas galerias de arte e nas livrarias… produtos de elite, dirão.

Em Portugal, onde se lê muito menos, o assunto foi arrumado de modo muito eficaz: uma atrapalhada redação da lei impediu as livrarias de abrirem. Os livros podem ser, de facto, poderosos focos de contaminação, portadores de vírus muito perigosos e quel lapso contribui, afinal, para prevenir uma outra pandemia: a das ideias. O Poder, seja ele qual for, escreve sempre direito por linhas tortas: mais vale prevenir que remediar, como vimos com a Covid.

Hoje, dia dos namorados, na minha rua, as pessoas acumulavam-se na charcutaria, no talho, na loja dos chocolates, na dos queijos, nas de roupa, nos três floristas. Pela rua fora vinham cavalheiros, demonstrando toda a elegância nonchalente dos fins de semana do sétième, abraçados a enormes bouquets de flores vermelhas. Eu, depois de desistir de esperar a minha vez para comprar um modesto ramo de junquilhos ou de tulipas, dei meia-volta, enfiei-me na única, pequena e pouco fornecida livraria da rua e, mesmo assim, saí agarrado a uma braçada de livros – são como bouquets de palavras, flores que duram para sempre como o amor que se celebra.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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