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Escrever não é tanto uma arte, como é um conjunto de técnicas. Técnicas de sedução do outro, armadilhas para o trazer até à nossa beira. Escrever, não devendo ser nunca uma obrigação (para mim não o é!) nem sempre é, porém, uma jubilação; é, muitas vezes, um sacrifício. Sacrifício (secularmente pascal) em que oferecemos as nossas palavras aos leitores e a nossa voz aos ouvintes. E até o nosso corpo, se formos atores.

Cada um desses modos de nos apresentarmos é uma forma de nos lançarmos no precipício à beira do qual sempre vivemos. E nunca sabemos se as asas que fabricámos nos conseguem manter no ar ou se nos caberá o destino de Ícaro.

Duas crónicas depois das medidas de confinamento, sinto, mais do que nunca, a fragilidade daquele que se dirige à multidão. Falo-vos, marcado por essa vertigem que me obriga a mergulhar no vazio. E, como continuo decidido a não falar daquilo de que se enchem as redes sociais que nos oferecem o que considero uma excessiva agenda cultural desmaterializada, temo que me falte assunto, ou seja, vento para me manter no ar. Mas vamos a isto!

“Cultura desmaterializada” é termo que se tornou moda e que me irrita à partida. Como a comida se come no prato e não nas revistas de culinária nem nos documentários de televisão, os livros, gosto de os ler folheando-os, dobrando-lhes as páginas, sublinhando-os a lápis; as obras de arte, gosto de as ver nos ateliers, nas casas, nas galerias e nos museus, tendo a experiência do olhar físico sobre elas, só se não posso ir aos museus recorro aos livros, aos documentários; os filmes, gosto de os ver numa sala escura; o teatro, num teatro; a música numa sala de concertos ou no palco de um festival… Apenas um “som puro” pode admitir a desmaterialização que agora se pretende generalizar.

Um som puro será um som que dependa de meios técnicos que podem ser esquecidos no resultado final – como esquecemos toda a fundamental cadeia técnica que se esconde no simples aceder de uma luz. Ora esse “som puro” é o som da Rádio.

Para os nossos dias de confinamento, proponho pois o seguinte roteiro: ler livros que temos em casa e nunca lemos, olhar pela janela as fachadas e as traseiras vizinhas com uma atenção tal que possamos descobrir na vida que elas entremostram o guião de um novo filme de Hictchcock; percorrer as ruas que nos deixam percorrer com uma atenção redobrada aos grandes espaços desertos de gente e de sons urbanos vendo a natureza que a pouco e pouco se liberta da disciplina cartesiana dos urbanistas; escrever diários de confinamento, não tanto para registar o que nos acontece (terrivelmente pouco) mas o que sentimos e, se apurarmos os nossos órgãos do sentir, veremos que sentimos coisas para nós mesmos inesperadas; que na TV se vejam apenas os telejornais e os debates e, concedo…, alguns filmes. Tudo isto são pistas que vos deixo.

Mas, finamente e principalmente, temos a Rádio para ouvir – o “som puro” que nos traz o som do mundo. Ouvir esta rádio Alfa, todas as rádios. Estes podem ser, afinal, os “dias da rádio” que nos vão ajudar a perceber como cada voz solitária que ouvimos é uma voz solidária com todas as outras e solidária connosco – e nós com ela, e nós com elas.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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