Para recordar aqueles que ainda afirmam que as coisas eram muito melhores antes, antes do dia da liberdade!
É inegável que a consolidação da democracia leva tempo e que o engajamento cívico é essencial.
No início da década de 1980, fundei uma empresa e tive de tratar de diversos documentos: administrações municipais, arquivos e assim por diante. Naquela época, tudo era antiquado; mesmo o quadro de pessoal de algumas instituições era ainda composto, em grande parte, por pessoas do tempo da ditadura, muitas vezes veteranos com tendências autoritárias.
No departamento de serviços administrativos da Câmara municipal de Vila Nova de Famalicão, existiam longos balcões de atendimento. Atrás destes balcões, inúmeras mesas de madeira e várias pessoas supostamente ali para atender o público. Tinha acabado de chegar do estrangeiro; até então, era cidadão que vivia no estrangeiro e nunca tinha tratado de documentos administrativos. Por isso, fiquei surpreendido com os funcionários que trabalhavam atrás daqueles balcões.
Eu não estava habituado.
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Passo a explicar: um dia, precisei de alguns documentos e fui a um desses balcões. Reparei em várias pessoas à espera da sua vez, o que é normal. Esperei bastante tempo. Os funcionários, com os papéis nas mãos, conversavam entre si, deslocando-se de uma secretária para a outra, falando de sabe-se lá o quê, talvez de futebol? Mas não era trabalho, disso tenho a certeza.
Passado um bom bocado, um funcionário veio ao balcão perguntar quem precisava de ser atendido. Um homem, mesmo ao meu lado, respondeu: “Sou eu, já cá estou há bastante tempo”. Conversaram por um instante, depois o funcionário pegou nos papéis que o homem lhe estava a entregar, eu reparei, e o homem que acabara de ser atendido lançou-me um olhar indignado: em vez de tratar dos seus documentos, aquele sujeito tinha ido conversar com uma colega sentada à sua secretária. Só me lembro que estavam a falar e, sorrindo bastante. Observei esta cena a desenrolar-se durante pelo menos quinze minutos e saí furioso, mas precisava de terminar a minha papelada; precisava de voltar àquele lugar cínico.
Uns dias depois, precisei de voltar ao mesmo cartório, ao mesmo balcão de atendimento, e a cena era idêntica. Perdi a paciência e perguntei em voz alta se alguém me podia ajudar. Um homem olhou-me diretamente nos olhos e disse: “Senhor, espere pela sua vez”. Já fora de mim, perguntei se não havia ninguém responsável. Este homem, com um olhar ameaçador, retorquiu: “Senhor, aguarde pela sua vez, ou chamarei a polícia”. Não me calei e, ainda mais indignado, gritei: “Vocês aí atrás do balcão, não compreendem que são nossos funcionários, que os vossos salários são pagos com os nossos impostos e que têm o dever de nos respeitar?”
Nesse momento, um homem aproximou-se do balcão, fez um gesto para que os outros se afastassem e perguntou-me o que precisava. Ele resolveu tudo imediatamente. Alguns dias depois, voltei ao local para levantar os documentos que tinha solicitado. Quando este homem me viu entrar, levantou-se, segurando os meus documentos, explicou-os pormenorizadamente, eu agradeci-lhe e saí.
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Note-se que também guardo com carinho as memórias dos anos 80, daqueles homens e mulheres, testemunhas da era do fascismo, imbuídos de uma cultura cativante e de um espírito cívico forte; nem todos eram imperfeitos. Os que o eram, foram substituídos por doutores ou engenheiros, certamente instruídos, mas frequentemente propensos à vaidade e à arrogância por possuírem um diploma, carecendo de moralidade e sendo motivados unicamente pelo estatuto social.
É lamentável que os jovens licenciados, sem experiência cívica ou profissional, sejam tratados unicamente por possuírem um diploma, no início dos seus vinte e poucos anos, com o título de “doutor” ou “engenheiro” antes do nome de família que deveria ser a honra de qualquer cidadão.
Vamos pôr fim a esta situação deplorável. Os doutores são os médicos; outros podem ter doutoramento, “por exemplo em economia” ou outras áreas, mas são doutorados apenas na sua especialidade, e o mesmo se aplica aos engenheiros! “O Sr. Pereira, engenheiro mecânico”, deveria ser um exemplo disso. As pessoas civilizadas deveriam respeitar o nome de Família, acima de tudo, ou apelido como o queiram chamar e, só então, se necessário, o ofício.
Na minha opinião, esta é uma forma de excluir aqueles que se consideram superiores aos outros, exigindo o seu estatuto de superioridade!
Sabemos que muitos se formaram no início dos seus vinte anos, exigindo o título de “O Dr.” ou “Eng.” nos seus cheques bancários, mas nunca conseguiram exercer a profissão devido à falta de competências de liderança e de desempenho profissional satisfatório. Infelizmente, muitos viraram-se para a política, com as consequências nefastas que hoje vemos no serviço público; outros tornaram-se professores sem as qualificações necessárias, numa época em que o dinheiro abundava; uma época em que os professores formavam outros professores sem terem autoridade moral para ensinar; e outros ainda se tornaram caixas de supermercado.
Que sociedade absurda criamos no nosso país?
Falhámos em construir uma sociedade jovem e promissora. Investimos demasiado em tudo e de menos no essencial; ensinamos os nossos filhos a desfrutar da vida até aos quarenta anos, que têm todo o tempo do mundo para constituir família e que a ganância se sobrepõe à moralidade. Hoje, vivemos à beira do desastre, com uma juventude pequena, mas infelizmente excessivamente vaidosa e desesperada. Investir no futuro significa investir na taxa de natalidade e na educação das crianças para que estas possam garantir um futuro estável para os seus pais.
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Em cada esquina, um novo asilo surgia como cogumelos. Na minha opinião, deveríamos ter feito exatamente o contrário: esta geração hoje trabalhadora deveria ter sido educada e treinada para nunca abandonar os seus pais, exceto em circunstâncias excecionais. Os lares de idosos deveriam ser apenas o último recurso. Esta nova geração foi condicionada pela ganância; é por isso que vemos hoje que, enquanto os pais são úteis aos filhos, estes se aproveitam deles, e quando já não são úteis e precisam de ajuda, são abandonados, longe do ninho familiar!
Durante décadas, investimos nos idosos, não para o seu bem, muito pelo contrário; criamos indivíduos que abandonam os pais como se fossem um velho guarda-chuva.
Os Portugueses! Algumas pessoas ainda se agarram a pequenas e ridículas disputas do passado; é altura de perguntar se isso é positivo ou não?
Portugal é atualmente uma democracia consolidada, embora continue a enfrentar desafios económicos e sociais significativos, bem como fortes turbulências partidárias, mas cada um de nós tem o dever de lutar pelo grande sucesso alcançado a 25 de Abril.
A democracia só morrerá se nós, enquanto cidadãos, falharmos no nosso dever de a cultivar através da educação, da responsabilidade cívica e do respeito mútuo.
Viva a Liberdade, Viva a Democracia.
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José da Rocha






