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Caras amigas e amigos,

Nos últimos dias muito se falou da saia comprida do Assessor parlamentar da Deputada Joacine Katar Moreira. Confesso ter ficado extremamente surpreendida com o número de comentários assim como com a violência dos mesmos. Muitas reações foram epidérmicas sem grande ou nenhum suporte racional a apoiá-las. Porque quando se tenta saber mais, a resposta é “não gosto”, “não acho bem” e não vai além disto.

Ora argumentos legalistas não existem. Não há nada na lei que impeça um homem de andar de saias, e o Assessor parlamentar nem sequer tem um cargo de representação como é o caso da(o)s Deputada(o)s.

Argumentos ético-morais também não. Um homem de saia não causa mal a ninguém.

Argumentos de decoro também não. Se uma Assessora parlamentar aparecesse assim vestida não seria alvo de qualquer comentário, nem faria parar o trânsito porque é modelito até bastante púdico (o mesmo não se pode dizer da indecência de tantos comentários).

Portanto, o único dado que parece fazer aqui balbúrdia é o facto de ser um homem que ousou vestir uma peça de roupa considerada “privilégio” exclusivo das mulheres.

Já houve tempos em que era mal visto uma mulher usar calças. Houve tempos em que era bem visto um homem usar saias. Mas então e agora? Quem é que disse que um homem em Portugal no séc. XXI não podia usar saias? É porque alguém o deve ter dito, e alguém com autoridade, ou algum texto sagrado, não sei, eu não encontrei, mas tem de existir porque senão não haveria tanta gente ofuscada. Ou não me digam que estamos perante uma espécie de alucinação coletiva? Uma alucinação coletiva chamada conformismo.

O conformismo tem a sua importância para a coesão do grupo, e normalmente quem sai da norma é rapidamente sancionado para que não apareçam outros engraçadinhos a querer fazer o mesmo, isto tem o seu benefício evolutivo, e está mais do que estudado. Somos animais sociais, influenciamo-nos uns aos outros e criamos “corpo” através da adoção de normas e comportamentos que todos devem seguir para assegurar uma certa paz social. Mas, o problema é quando estas normas não têm absolutamente nenhum fundamento lógico. Não há nada que sustente a impossibilidade de um homem usar uma saia. Neste momento até são sobretudo fundamentos sexistas e homofóbicos que acompanham esta rejeição. Um homem não se pode degradar utilizando roupa de mulher. Ser mulher é ser inferior.

Ora, Rafael Esteves Martins ousou não somente pôr em causa os códigos sexistas como ousou simplesmente ser livre, sair da norma e o grupo instintivamente fez a devida pressão para que a ela voltasse. Porque aquele que é livre reenvia-nos também a desconfortável imagem da nossa própria submissão.

N’est-ce pas?

 

Luísa Semedo é filósofa e membro do Conselho das Comunidades Portuguesas. Esta crónica na rádio Alfa, às quartas-feiras, tem difusão uns minutos antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

Linda de Suza 19/20
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