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A validade desta crónica é de sete dias. Contados pelos dedos, vão de segunda a domingo. E os desta semana chegam, no domingo, ao dia 25 de abril.

Altura propícia para vos falar de alguns daqueles que mais prezam a Liberdade: os artistas. E tomar, como exemplo possível, uma portuguesa que vive em França.

Isabel Meyrelles nasceu em 1929, veio para Paris em 1950 e vive agora, numa pequena localidade da grande coroa urbana da Île de France. Não é a decana dos artistas portugueses, mas é a mais velha daqueles que encontraram no estrangeiro uma pátria capaz de lhes dar o que a Pátria de origem não lhes dava: Liberdade. Liberdade, liberdades (políticas, artísticas, de comportamento) foi o que ela, e todos os outros (antes dela e desde o início do século XX ou depois dela e até ao final dos anos de 1970), procuraram.

Isabel Meyrelles confraternizou com Cruzeiro Seixas ou com Mário Cesariny, pioneiros do tardio Surrealismo português movimento que muito influenciou a sua obra plástica e poética. Ela é, pois, a sobrevivente da primeira geração dos nossos criadores surrealistas. Em 2019 a Fundação Cupertino de Miranda, sediada em Vila Nova de Famalicão, que reúne o mais vasto espólio (artístico e documental) do Surrealismo português, dedicou-lhe uma importante exposição antológica.

Em sua casa, Meyrelles guarda memórias vivas dessas aventuras artísticas, nomeadamente através de múltiplos em bronze de algumas das suas esculturas e assemblages. Vejamos: um gato sentado, que afinal tem cauda de pato; um Licorne-serpente que se enrola levando a cauda à boca, preparando-se para se engolir si mesmo como a mítica serpente Uruboros; um rosto-vela poisado num barco; uma cabeça de cavalo assente num corpo nu masculino que marcha…

Algumas destas pequenas esculturas tridimensionalizam sonhos partilhados com os de Cruzeiro Seixas que são, por sua vez, de influência daliniana. Especialmente assinaláveis são obras como aquela que faz a associação inesperada entre uma pistola e uma cabeleira branca, homenagem a uma obra de André Breton, de1932; uma serpente-Dragão fumando cachimbo, que afinal é um Auto-retrato; ou, finalmente, uma peça única, em todos os sentidos, pois dela não possui a artista múltiplo em bronze e porque é de notável delicadeza de invenção. Trata-se de uma longa mão feminina resguardada por uma elegantíssima luva preta. A mão está em repouso, as costas poisadas numa base de madeira e, na sua palma, equilibra um ovo imaculadamente branco.

Esta escultura funciona como um momento inusitado, uma memória que é separada do real para se perpetuar numa obra artística e não se perder na usura do tempo. O 25 de Abril, se o pensarmos fora do seu contexto histórico, surge-nos como também um inusitado, como um sem-tempo, um evento separado do mundo real e separado dos julgamentos morais, como Um Absoluto de Liberdade. Universo é o nome da obra de Meyrelles; “Universo” é também o nome que podemos dar ao próximo domingo: madrugada que o tempo depois gastou, mas que queremos guardar como sendo o “dia inicial inteiro e limpo” que Sophia de Mello Breyner nos mostrou.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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