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Paulo Marques é o Presidente da associação Cívica – a associação dos autarcas franceses de origem portuguesa, foi eleito na primeira volta das eleições municipais em Aulnay-sous-Bois (93) onde aliás é Maire Adjoint. Para além disso, é o Presidente da Associação cultural portuguesa da Aulnay-sous-Bois, é membro do Conselho das Comunidades Portuguesas e também é membro do Conselho de Opinião da RTP. É Comendador da ordem de mérito.

A pandemia de Covid-19 veio perturbar a realização das eleições municipais francesas. A primeira volta do sufrágio teve lugar no dia 15 de março, já em período de confinamento, e a segunda volta teve de ser adiada para 28 de junho. Impunha-se pois falar com Paulo Marques neste contexto inédito as eleições.

Na primeira volta das eleições foram eleitos os autarcas de mais de 30.000 municípios, resta agora eleger quase 6.000 cidades.

Do ponto de vista português, segundo o antigo Primeiro Ministro francês Manuel Valls, havia mais de 4.000 autarcas franceses com origem portuguesa.

 

Já temos alguma ideia do número de Portugueses que foram eleitos na primeira volta das eleições municipais francesas?

Ainda não. Obviamente que as eleições foram perturbadas com a pandemia, o que podemos dizer é que por enquanto ainda não temos dados concretos, mesmo se mais de 30.000 Mairies já elegeram os seus representantes. Podemos avançar que a Metrópole da Grande Paris elegeu já na primeira volta 86 autarcas de origem portuguesa.

 

Antes da eleição, a imprensa em Portugal – e nós aqui também – retomamos os números da Cívica que falava de 10.000 a 15.000 candidatos de origem portuguesa. São números impressionantes. Como se chega a este número?

Através das várias Delegações da Cívica e dos candidatos. Basta ver o seguinte: só em Champigny-sur-Marne havia 22 candidatos de origem portuguesa. Fomos tendo informações das listas, de cada cidade, de cada distrito, cada membro da Cívica foi transmitindo informações, a nossa assessora também procurou. Apercebemo-nos rapidamente de um acréscimo significativo. O objetivo foi procurar o mais possível de nomes portugueses. Mas é difícil, por exemplo alguns nomes podem parecer portugueses, mas serem espanhóis. Há um bom exemplo no departamento onde eu estou – sendo o segundo distrito com mais população portuguesa no Consulado Geral de Portugal em Paris – em 2008 havia 120 candidatos, em 2014 havia 193 e em 2014 havia 245 candidatos. Evidentemente estão em várias listas. Mas a participação cívica dos Portugueses e dos lusodescendentes em França é cada vez maior.

 

Muitas vezes perguntam-nos onde se situa politicamente a Comunidade portuguesa. Eu costumo responder que há Portugueses em todos os quadrantes políticos, da Direita à Esquerda. Qual a opinião da Cívica sobre este assunto?

É exatamente essa. Em 2008 a Esquerda ganhou as eleições, então, obviamente que havia mais autarcas de origem portuguesa à Esquerda. Em 2014, ganhou o Centro-Direita, então havia mais autarcas de origem portuguesa no Centro-Direita, agora vamos ver se há autarcas eleitos pela République en Marche. Vai ser interessante analisar a segunda volta e saber quantos foram eleitos para fazer um balanço final.

 

Há alguns anos atrás, havia uns 300 autarcas de origem portuguesa – aliás nessa altura a Embaixada de Portugal em Paris ainda os juntava todos – depois foi crescendo… A que se deve essa implicação política crescente dos Portugueses em França?

Deve-se à visibilidade da nossa intervenção. Desde o início que temos marcado presença em Salons des Maires e Salons des Maires d’Île-de-France. A nível nacional nós estávamos presentes um ano antes das eleições porque muitos Maires nem sabiam que os Portugueses podiam votar. Ainda em 2008 alguns aproximavam-se do nosso espaço intitulado “Cívica com dinamismo”, mas sem se aperceberem que havia este potencial. O facto de cada vez haver mais informação, o facto do movimento associativo estar envolvido na divulgação, da possibilidade dos Portugueses poderem ser candidatos com nacionalidade francesa mas também com nacionalidade portuguesa, o facto da imprensa cada vez mais falar disto… Nós trabalhámos há 20 anos a fazer spots de televisão que mandávamos para muitas televisões. Muitos Portugueses, ainda em 2020 não sabiam que podiam votar. Mas onde fizemos a diferença foi quando fomos buscar os eleitores franceses de origem portuguesa. Isso fez muita diferença, porque os autarcas e os candidatos começaram a ver a Comunidade portuguesa de uma outra maneira, não apenas nas listas eleitorais complementares – que são as listas dos Europeus que podem votar e onde estão os nossos pais, que não têm nacionalidade francesa – mas nós, que somos franceses, podemos fazer uma campanha muito mais agressiva, nomeadamente junto do Senado, porque nós somos “Grands Electeurs” e votamos para os Senadores. Eles aperceberam-se muito rapidamente do nosso potencial eleitoral.

 

Isto desmente uma ideia de circula que os Portugueses estão pouco implicados civicamente e não estão recenseados. É necessário dizer que não estão inscritos provavelmente os da primeira geração, os “mononacionais”, mas que os filhos dos Portugueses, os que têm a dupla nacionalidade, estão evidentemente inscritos. Portanto, na globalidade, serão mais os que estão inscritos do que os que não estão.

Sim, o vosso papel [do LusoJornal] nessa informação foi essencial. Porque muitas vezes a imprensa não vai ao fundo de toda essa realidade. Nós batemo-nos constantemente para dizer que nós, os Franceses, não constamos como Portugueses nas listas eleitorais complementares, o que é normal.

 

Vamos voltar ao início. Quando foi decidido criar a Cívica?

No dia 5 de fevereiro de 2000 organizei uma reunião no Senado francês para reagrupar o movimento associativo, alguns líderes da Comunidade e pessoas com interesse nesse potencial eleitoral para as eleições de 2001. Fizemos essa reunião para informar, éramos uns 200, mas os jornalistas começaram a colocar perguntas… a rádio Alfa, o Artur Silva, e perguntaram-me porque não nos organizávamos em associação. Em novembro desse mesmo ano foi oficializada a Cívica. Não foi assim tão fácil como isso, porque somos a única associação do género, que não é comunitarista, mesmo se tem uma ligação a Portugal através da língua e das origens. Isso é complicado aqui em França, termos a bandeira da França e a de Portugal…

 

Mas existe uma outra associação de autarcas de origem portuguesa, a Activa…

Eu referia-me ao facto dos Marroquinos, por exemplo, que criaram também uma associação de autarcas de origem marroquina. Aliás, nós fomos solicitados, quando eu era Presidente da Comissão de participação cívica e política do CCP, fui a Marrocos para falar no papel do Conselho das Comunidades Portuguesas e fui abordado para que os Marroquinos criassem uma estrutura idêntica à nossa. Alguns não acham normal, porque sentem que é uma associação comunitária, mas não somos. Há uma grande pluralidade entre homens e mulheres, entre os diferentes partidos políticos… O início foi complicado, hoje festejamos 20 anos da estrutura. Temos o prazer de termos o “agrément d’intérêt général”, que é verificado todos os anos, trabalhamos na nossa dinâmica de integração da cidadania, também trabalhamos sobre diversidade, temos muito prazer em desenvolver regularmente várias atividades em vários territórios.

 

Vamos falar dos membros. O Presidente é um militante da Direita. Isso dá uma cor política da Direita à Cívica?

É verdade que no início da Cívica houve essa amálgama, mas hoje em dia não. Eu tenho a honra de ser Presidente, a Secretária é a Maria Carlos, de Sainte Geneviève-des-Bois que é do Partido Socialista, a Tesoureira é do Centro… no Conselho de administração temos membros que vão da France Insoumise até à Direita. O objetivo da Cívica não é falar de política no seu interior, mas sim de enriquecer a sua vertente participativa através de várias noções, de várias ideias, de vários grupos. Acrescente-se que os homens são minoritários!

 

A Cívica criou Delegações regionais. Estas Delegações estão a funcionar?

Algumas funcionam melhor do que outras. O objetivo é estarem presentes no terreno, poderem identificar grupos interventivos e fortes, para poderem ter peso nos seus territórios respetivos. Nós apercebemo-nos, há 6 anos, que tínhamos tudo muito centralizado na região de Paris. Em 2014 havia 627 autarcas de origem portuguesa na região de Paris, mas como Manuel Valls dizia, somos mais de 4.000. A maioria está espalhada por toda a França. Nós também queríamos essas ligações para ter uma representatividade nesses territórios, o que nos permite trabalhar com mais eficácia com os Senadores. Por exemplo, a Delegação da Guadalupe permitiu-nos, quando houve a tempestade Irma, onde pensávamos que havia uma centena de Portugueses nas ilhas francesas, apercebemo-nos através do José Rodrigues, o nosso Delegado lá, que havia perto de 3.000 Portugueses em Saint Martin – portugueses que trabalhavam nas obras ou ocupavam-se das casas de pessoas ricas que têm lá as suas vivendas, o que permitiu que nós alertássemos o Governo português. Hoje há uma Permanência consular todos os 6 meses na Guadeloupe. Acho isso muito importante porque quem reside no ultramar francês, depende do Consulado de Portugal em Paris. É difícil eles fazerem 8.000 km para virem a Paris fazer um documento. Isto é apenas um dos exemplos que nos permite manter um elo de ligação. Eu penso que nós devemos ir mais longe. Por exemplo, criámos uma Célula informativa para dar formação e formação aos nossos membros. O que temos de interessante é que quando eu necessito de saber o que se faz em termos de urbanismo em Saint Etienne, eu telefono e fico a saber. Quando nas Landes nos pedem como se gerem os Parques de estacionamento em Strasbourg, nós reagimos rapidamente.

 

Quantos membros tem a Cívica atualmente?

Somos 227, com 7 Delegações.

 

A associação recebe apoios importantes de Portugal – este ano recebeu mais de 34.000 euros, é uma soma considerável, é uma das maiores associações do mundo a receberem apoios de Portugal. Em que projetos vão trabalhar este ano?

Estamos a trabalhar na realização de uma banda desenhada – “Manuel a des grandes mains” – para trabalhar a diferença e a aceitação de si próprio. Vai ser o principal projeto de 2020. Vamos ter o Congresso dos Maires da Île-de-France onde já participamos há 12 anos, há 4 anos conseguimos internacionalizar esse Congresso, o que nos permite ter uma grande visibilidade e permite mostrar também a nossa reatividade e o nosso envolvimento no território francês. Essas são as iniciativas que estamos a promover, e também temos a “Aldeia portuguesa”, em colaboração com a Região Île-de-France…

 

De que se trata exatamente?

É um evento em Paris, que vai mostrar tudo o que temos de bom em Portugal, com o aspeto cultural, artístico, com artes plásticas, artesanato… é um leque de várias iniciativas que estava marcado para abril e teve de ser adiado. Ainda não sabemos quando vai ser. Provavelmente em novembro. O nosso Congresso costuma realizar-se em março, mas este ano não podia ser porque as eleições tinham lugar nesse momento, por isso deve ser no dia 7 de novembro, em Paris, como habitualmente.

 

Voltamos às eleições. Nota-se que há mais candidatos de origem portuguesa em cidades mais pequenas, do que propriamente em cidades grandes, como Paris.

Para as 3 principais cidades francesas – Paris, Lyon e Marseille – há o efeito dos “arrondissements”, que faz com que os candidatos estão mais diluídos e é mais difícil ter alguns portugueses nessas estruturas. Para além disso, a Comunidade portuguesa está muito na periferia e verifica-se que dos mais de 600 autarcas de origem portuguesa na região parisiense, só há 2 em Paris! Em Marseille não encontramos nenhum, mas temos em Nice, temos nos arredores de Bordeaux… Mas é bastante interessante ver que em Brest há autarcas da quarta geração, que não falam português, é uma Comunidade muito antiga, essencialmente de Viana do Castelo, que vieram para a pesca do bacalhau. Ou também como o Maire de Thourotte, o ex-Deputado Patrick Carvalho, que não fala português, é da quarta geração, mas aliás pediu a nacionalidade portuguesa.

 

Os Portugueses mononacionais não podem ser Maires, nem Maires-Adjoints, porque passariam a ser ‘Grands Electeurs’ e evidentemente a França não quer que os estrangeiros votem para o Senado. Não há forma de mudar esta Lei?

Para mudar as leis é necessário haver vontade política. Relembro que houve uma promessa do Presidente Hollande para que todos os estrangeiros residentes em França pudessem votar, mas acabou por não ser feito. Parece ser complicado para alguns, mas o papel das associações como a nossa mostram o benefício e a vantagem de ter pessoas que possam trabalhar no terreno. Por exemplo Pedro Capitão era Conselheiro municipal em Chilly-Mazarin, sempre quis ser Maire Adjoint, então optou por ter a nacionalidade francesa que acabou por obter e foi então eleito Maire Adjoint. Fez aliás um trabalho extraordinário.

 

Mas a Cívica fez alguma ação concreta nesta área?

Não, não fizemos. Quando eu era mais novo, sugeria aos Portugueses que pedissem a nacionalidade francesa, aliás nem era para votar, era para poderem usufruir benefícios da sociedade francesa, era outra época. Sobre este assunto não foi feito nada em concreto, no entanto, através do Senado, temos de ir com o tempo. O tempo político é sempre longo, mas trabalhando com proximidade com o Senado, verificamos que há alguns dilemas: quando um Conselheiro municipal português está nos nossos Conselhos municipais, ele também não pode votar para o Senado, então tem de se por no lugar dele um francês. Já alertámos, já houve alguns Senadores que acharam também isso estranho, porque foi ele que foi eleito. Mas ainda nada foi feito sobre isso.

 

Gostava que falássemos dos 4 Deputados de origem portuguesa – mais uma Deputada francesa casada com um Português – eles também podem aderir à Cívica?

Sim, nós temos o Deputado Ludovic Mendes, eleito em Metz, que participa regularmente na nossa visita de estudo a Portugal, temos o Cédric de Oliveira, que é o Presidente da Associação dos Maires da Indre-et-Loire. Nós convidamos outros Deputados ou Senadores com o objetivo de ver a nossa dinâmica e para se aperceberem daquilo que nós podemos realizar com as instituições.

 

No próximo ano há eleições regionais e departamentais, há alguma intervenção vossa nestas eleições?

Nós, constantemente, quando há eleições, alertamos sempre os Partidos políticos todos, para os potenciais eleitores portugueses ou de origem portuguesa. Isso funciona? Eu digo que não funciona tão bem, porque os políticos não sabem bem quem são os Portugueses. Nós, em Aulnay-sous-Bois, com 86.000 habitantes, temos perto de 56.000 eleitores, mas eles dificilmente vão aperceber-se do número de eleitores portugueses. O nosso papel é esse: é de podemos fazer uma fotografia do território. As eleições departamentais são importantes para nós, porque é uma fase mais próxima, que nos permite fazer uma fotografia do distrito, com os autarcas, com o movimento associativo, e dizendo qual é a força dos Portugueses nestes departamentos e também junto dos “Etablissements publics térritorieux” que são agrupamentos de vários municípios. Eu sou eleito na Metrópole de Paris, “Paris Terre d’envol”, que vai do Bourget, Drancy, Aulnay, Villepinte, passando por Tremblay-en-France. Temos bastantes autarcas de origem portuguesa. Depois obviamente as Regionais que é um patamar ainda mais complicado, porque os candidatos são poucos, mas conseguimos e já temos alguns eleitos, Conselheiros regionais de origem portuguesa e vamos sempre fazer campanhas junto dos Partidos políticos, junto dos nossos Maires, porque eles também vão ser candidatos às eleições Regionais. O objetivo é mostrar o potencial dos Portugueses que são eleitores em França.

 

Falamos agora do Conselho das Comunidades cujas eleições voltaram a ser adiadas para 2021. Estes adiamentos sistemáticos das eleições do CCP não descredibilizam o órgão?

Não. Aqui, a segunda volta das eleições municipais também foi adiada para 28 de junho. Eu penso que não será por aí, o importante é a capacidade do Conselho das Comunidades ganhar uma certa autonomia para poder agir, essa foi sempre uma das dificuldades. Por exemplo, para uma das reuniões do CCP em França, o Conselheiro que vinha de Strasbourg teve de pagar pessoalmente a sua viagem ida e volta. Essas coisas, para economizar alguns tostões, é que podem fazer com que haja ou não um bom funcionamento do CCP. Por outro lado, a estabilidade é também essencial, evitando estar sempre a mudar a Lei. Temos de ter uma certa estabilidade necessária para ter um bom funcionamento do órgão. Eu acredito que o Conselho das Comunidades é um órgão importante porque conseguimos algumas iniciativas: uma delas – e eu sempre me bati sobre isto – é a representação dos Portugueses do estrangeiro nas instituições em Portugal. Demorou mais de 10 anos, mas foi uma vitória nossa, trabalhámos para isso e conseguimos ter alguma presença. Se nós não estamos presentes, em Portugal não sabem quem nós somos.

 

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