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Na semana passada, dia 4 de março, o Rancho de Cantadores de Paris apresentou no Consulado Geral de Portugal em Paris o seu primeiro álbum, intitulado “Alentejo ensemble”. Na apresentação, o grupo foi recebido pelo Cônsul Geral Adjunto João de Melo Alvim e pelo Adido Social do Consulado Joaquim do Rosário. Estava presente, entre outras personalidades, o Embaixador de Portugal junto da Unesco, Sampaio da Nóvoa.

Para além de uma apresentação dos objetivos do grupo, feita por Carlos Balbino, foram cantados alguns temas e foi inaugurada uma exposição de pinturas de Anna Turtsina, com uma ilustração por cada um dos 12 temas gravados no CD.

O grupo é constituído por 5 elementos: Carlos Balbino é luso-brasileiro, Karim Abdelaziz é franco-argelino, Julia Alimasi é franco-congolesa, Claire Mathaut e Cécile Lasserre são francesas. E no “atelier” há elementos em formação para integrarem o grupo mais tarde.

Carlos Balbino, o Diretor artístico da Compagnie des Rêves Lucides explicou que “o nosso objetivo é terminar esta etapa de um grande processo que é a exportação do Cante alentejano, com esta escola que nós criámos aqui em Paris”.

Carlos Balbino é ator e quando criou em Paris a Companhie des Rêves Lucides, pluridisciplinar, queria fazer encenações com canto polifónico. Fez um primeiro espetáculo sobre a Rússia e um segundo sobre Portugal, em 2017, intitulado “La Dernière Corrida” e onde inseriu o Cante alentejano. Foi dali que tudo partiu e este espetáculo foi o início do Rancho de Cantadores de Paris. Atualmente Carlos Balbino desenvolve uma formação em etnomusicologia.

“É um grupo muito interessante por esta diversidade de nacionalidades e de pessoas que se juntam em torno do Cante alentejano para aprenderem português, para falarem português, para se expressarem em português, e a música tem esta qualidade única de juntar pessoas muito diferentes, de origens muito diferentes, em torno de um mesmo momento, de um mesmo afeto, de um mesmo canto” disse ao LusoJornal o Embaixador Sampaio da Nóvoa. “É muito bonito ouvir cantar em português, percebendo que não são Portugueses que estão a cantar, ouvir as diferentes sonoridades com que eles cantam em português”.

O realizador Tiago Pereira também considerou que o trabalho do grupo era “bonito” e gravou com ele um filme-documentário que foi estreado em 2017 no festival DocLisboa. “O filme foi a concretização, a documentação, de um grupo que podia suscitar um certo exotismo e isso serviu-nos muito porque pudemos ter apoios de instituições culturais muito fortes que nos convidaram de seguida para fazermos este CD. Foi uma plataforma de lançamento” conta Carlos Balbino. “O Tiago Pereira continua a fazer o trabalho dele de forma excecional e estamos muito orgulhosos de ter feito esse filme”.

Com financiamento da Direção regional da cultura do Alentejo, da Casa do Cante e a Câmara municipal de Serpa, este álbum pôde enfim ver a dia. “É o culminar de dois anos e meio de muita reflexão, de muito trabalho, para que as pessoas em Paris, falando português ou falando francês, tenham acesso ao Cante alentejano, porque o CD está traduzido em duas línguas”.

Para Carlos Balbino, “o Cante alentejano transporta a sociabilidade e a forma de viver e as pessoas vieram pelo facto de estarmos juntos. O facto de cantarmos veio quase em anexo. E o meu trabalho é assegurar-me que quando cantamos, fazemos um bom trabalho” conta ao LusoJornal. “É um trabalho muito difícil por ser um projeto associativo, um projeto que não tem raízes culturais nesta região e por isso temos de ser mais delicados na forma como interagimos uns com os outros”.

Sampaio da Nóbrega também considera que “as sociedades precisam – hoje mais do que nunca, porque vivemos em sociedades muito fragmentadas – de lugares onde nos possamos encontrar uns com os outros, com as nossas diversidades, e este é um bom exemplo dessa partilha e dessa convivialidade em torno da música”.

Carlos Balbino está visivelmente feliz com o projeto. “No ano passado fomos participar num Festival polifónico na Geórgia” diz. “A próxima etapa é encontrar um distribuidor para que as pessoas possam ouvir e começar a criar um polo de Cante alentejano aqui, para que outros cantores de Cante alentejano possam ser acolhidos aqui, da mesma forma que nós fomos acolhidos lá, quando fomos lá gravar o CD”.

O álbum é acompanhado por um livro, com prefácio de Salwa El-Shawan Castelo Branco, fotografias de Ana Baião e ilustrações de Anna Turtsina. Estas ilustrações foram expostas no Consulado de Portugal, na sala anexa à Sala Eça de Queirós, onde decorreu a apresentação.

Anna Turtsina é Russa e acompanhou o grupo a Portugal para a gravação do CD. “Achei a região do Alentejo muito bonita, as cores das paisagens e da natureza são muito particulares, encontrei muita inspiração nas artes decorativas da região, nos quadros dos artistas locais, tirei muitas fotos para me inspirar depois” e foi assim que foi criando as ilustrações para o álbum. “Trabalhei muito com os textos das canções, que considero muito profundos e metafóricos, por vezes quando se lê passagens é fantástico e tentei transmitir isto para os meus desenhos”.

Licenciada em artes plásticas na Universidade de Paris 1, Anna Turtsina também integra agora o Atelier do grupo, onde aprende a cantar. “Adoro viajar, adoro as línguas e as culturas. É por isso que vivo em Paris, porque aqui tenho, à minha volta, uma mistura de culturas, de nacionalidades e de línguas. E é isso que me inspira”.

“A inscrição na lista do Património da humanidade é para dar visibilidade a formas diversas de expressão. A música, a arte, a literatura, não são coisas paradas no tempo” diz o Embaixador de Portugal junto da Unesco. “Portanto é muito importante que haja um reportório clássico, inventários, grupos que preservam essa dimensão mais patrimonial e ao mesmo tempo é muito importante que haja grupos que interpretam, que reinterpretam, que cantam de outra maneira, que elaboram de outra maneira… toda a arte é isso, toda a arte tem alguma coisa de patrimonial e junto ao patrimonial, tem de ter alguma coisa de criação e de criatividade. O que faz a paixão da arte e da música é a junção destas duas dimensões: o património e a criação”.

Visivelmente contente com o decorrer da apresentação do álbum, o Cônsul Geral Adjunto disse que “é ótimo o Consulado receber este grupo com um símbolo tão importante para Portugal, nas vozes de várias pessoas. Valoriza a sala, valoriza o Consulado, valoriza a Comunidade portuguesa. Para nós é ótimo ter esta iniciativa aqui” disse João Alvim ao LusoJornal. “Tentamos sempre ter uma agenda cultural o mais abrangente possível, neste caso concreto foge um pouco à norma, porque normalmente são eventos mais relacionados com a Comunidade portuguesa, e aqui é como se trouxéssemos os Franceses para dentro do Consulado e damos-lhes uma injeção de Portugal”.

Os mais “puristas” do Cante alentejano podem não gostar, mas ouvir este grupo ao vivo, sabendo que têm origens diferentes, mas que insistem em cantar em português – alguns foneticamente – é um autêntico regalo.

 

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