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Cultura

 

No dia 28 de janeiro de 2021, Antonio Sena, piloto brasileiro com mais de 2.400 horas de voo, descolou de Alenquer, no Pará, e, minutos mais tarde, o motor do seu Cessna 210 colapsou em pleno céu, provocando o acidente e a aterragem forçada na selva, longe de qualquer povoação. Antonio, graças à sua perícia, sobreviveu, esgueirando-se, coberto de combustível, da carcaça do avião que, pouco depois, explodiu numa bola de fogo. Instantes antes, porém, ele conseguira resgatar umas garrafas de água e um kit de sobrevivência: uma lanterna, um canivete e um isqueiro.

O que se seguiu foram 36 dias de chuva ininterrupta, sem ver um ser humano, receando os ataques dos jaguares, alimentando-se daquilo que via os macacos comerem, nomeadamente formigas… uma montanha de atribulações físicas e mentais que o deixaram às portas da morte. Depois de ter percorrido territórios inóspitos, quiçá jamais pisados por um humano, quando a esperança já ia desaparecendo, ele “reencontrou-se com Deus” e, milagre ou não, foi salvo por um grupo de camponeses que colhia nozes.

Após este trágico momento da sua vida, menos de um ano depois, Antonio Sena chegou a França a bordo do livro-testemunho que escreveu. “Rester vivant jusqu’au bout” é um registo verídico, escrito como um tríler difícil de largar e que foi publicado na semana passada pela XO Éditions. A versão francesa contou com a colaboração de Michel Leclerq, que encontrou o autor no Brasil e transformou a versão original. Se preferir ler a primeira versão em português, o livro foi publicado no passado mês de maio no Brasil com o título “36 Dias”.

O acidente, na verdade, aconteceu por acaso. Piloto profissional, Antonio Sena trabalhou em África, mas, em 2019, decidiu regressar ao Brasil porque existem, diz o autor na primeira pessoa “coisas que o dinheiro não paga – e estar com a família, para mim, sempre foi uma delas”. Então de volta a Santarém, não a cidade ribatejana, mas, sim, aquela que vê o rio Tapajós encontrar o Amazonas, sem trabalho como piloto, ele e um amigo abrem um bar onde vendem cerveja artesanal. Entretanto, dois meses depois da inauguração, chegou a pandemia. Fecharam o negócio, e Antonio abriu um outro com a ajuda financeira dos pais. Entretanto surgiu a oportunidade de fazer um biscate como piloto, substituindo um amigo.

Foi essa a decisão que mudaria a sua vida graças a uma experiência que o levou a escrever este livro que, diz, “é muito mais sobre o que eu senti do que sobre o que eu vivi”. Uma luta de morte com a natureza que ele, agora, jura querer proteger dos ataques do homem que colocam em perigo toda a sua diversidade. Há males que vêm por bem.

 

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