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Morreu Artur do Cruzeiro Seixas à beira de completar um século de vida. Trocou assim as voltas aos que desejariam celebrá-lo e trocou as voltas a si mesmo, que gostaria de o ter sido. Foi talvez, “malgré lui”, um regresso aos tempos das suas provocações surrealistas – porque o destino é, de facto, um “acaso objetivo”.

Cruzeiro Seixas (artista, poeta, marinheiro) foi um notável animador cultural e artístico. Em Angola, onde se fixou (e que deixou nos primeiros anos de guerra), dinamizou o Museu de Luanda, nele mostrando os melhores artistas do seu tempo metropolitano e desenvolvendo uma compreensão avançada (no que poderia ser, então, uma visão cultural progressista e não-colonial) da arte africana.

Em Lisboa, através da orientação artística da Galeria S. Mamede, no Estoril, onde dirigiu a galeria municipal ou em Vilamoura, onde foi responsável pela galeria do Casino algarvio, prosseguiu essa missão de divulgador, apostando em muitos jovens, como Paula Rego ou Areal.

Como artista é notável a inventividade poética dos seus poéticos e provocadores objetos e assemblages, sendo que, na pintura e no desenho, é mais devedor dos modelos estabelecidos em declinação figurativa daliniana.

A sua vida teve como ponto focal, a relação transgressiva que na juventude estabeleceu com Mário Cesariny, poeta e pintor maior do Surrealismo português. Uma relação mais tarde rompida com acrimónia mas a que Cruzeiro regressava sempre e obsessivamente na narrativa das suas memórias.

Porque falamos dele em Paris, onde evidentemente esteve múltiplas vezes, mas onde não fez carreira, como não a fez nenhum dos artistas do tardio surrealismo português?

Falamos dele, porque, não fora a crise sanitária a que infelizmente parece que temos sempre que regressar nestes textos, poderíamos ter visto, finalmente, este ano, uma grande exposição sua em Paris. A delegação portuguesa da Unesco, liderada pelo Prof. Sampaio da Nóvoa, tinha previsto apresentá-la no edifício-sede da organização por ocasião da comemoração do Primeiro Dia Mundial da Língua portuguesa, no passado 5 de maio.

E falamos dele, também, porque, dessa primeira geração resta (em Paris, precisamente) a escultora, desenhadora, poeta e tradutora Isabel Meyrelles que nesta cidade de liberdade se exilou nos anos de 1950 – modo fácil de escapar aos constrangimentos normativos da moral sexual vigente em Portugal e na sua conservadora família em particular.

Só por isso mereceria Isabel Meyrelles que lhe dedicassem mais atenção os chamados “estudos de género”. Mas teve, no entanto, uma recente retrospetiva na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, coração das mais ricas coleções e desenvolvidos estudos sobre o surrealismo português.

Isabel Meyrelles, nunca integrou realmente nenhum dos grupos e dissidências desse surrealismo nacional (onde não houve mulheres criadoras), mas ligou-se de longa amizade a Cesariny e a Cruzeiro Seixas e, para além de muitos objetos de invenção própria, criou uma longa série de pequenas esculturas que devem ser lidas na sua relação direta com a linha figurativa, onírica e daliniana dos já citados desenhos de Cruzeiro.

O projeto da exposição-homenagem ao decano dos artistas surrealistas recentemente desaparecido, prevista para a Unesco, em Paris, se for retomado em 2021, manterá sentido, mas será um outro sentido, será o de uma exposição-memória.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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