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Regresso às listagens comentadas. Esta realidade disciplina a minha tendência para vos sobrecarregar com opiniões pessoais e longas digressões poéticas – peço que me desculpem, mas são uma forma de desconfinamento que experimento através da escrita…

A listagem dos eventos culturais da semana poderia querer dizer que a atividade cultural tinha regressado e que eu ia encher a vossa agenda com presenças da cultura portuguesa em França a partir do anunciado dia da reabertura de teatros e cinemas, de museus e salas de concertos, ou seja, dia 15 de dezembro. E um único facto serviria para tal: o regresso a Paris, ao Théâtre des Bouffes du Nord, da companhia do Teatro Nacional de D. Maria II, cujo Diretor, Tiago Rodrigues, foi em boa hora reconduzido no seu cargo por mais três anos.

Mas a verdade é que não nos vem nenhuma boa notícia do lado francês: o mundo cultural, exceto o comércio livreiro e as galerias de arte, continuará fechado.

Viro-me então para Portugal, especificamente para Lisboa, cidade onde alguns de nós regressarão para as inevitáveis férias de Natal. Embora com algumas restrições desagradáveis e necessárias, a medida radical que atinge o setor em França foi evitada. Aliás, é de certo modo incompreensível a decisão do Governo francês, castigando um setor de que está provada a fraca ou nula contribuição para as cadeias de transmissão do vírus.

Em Lisboa, descontados, é verdade, os dias feriados que se vão suceder (mas as agendas online podem ajudar-nos a gerir os nossos dias e as nossas horas) destaco-vos algumas exposições nos Museus locais.

Comecemos no Chiado: no Museu Nacional de Arte Contemporânea podemos ficar “Face à Vida Nua”, onde Luciana Fina, João Pina e Vasco Barata nos colocam perante três registos dos efeitos da pandemia no mundo. Um testemunho do tempo imediato que podemos confrontar com a prática do retrato individual e coletivo na exposição “Dilema de ser e parecer (1850/1916)” onde se percorre o tempo longo da coleção do Museu através da sua pintura, escultura e fotografia.

Nestes balanços entre passado e presente, será sempre fundamental passar pela Fundação Calouste Gulbenkian com destaque para a exposição que, enriquecida com empréstimos de museus franceses, nos dá uma visão alargada do trabalho de vidro de Lalique; ou outra que percorre o passado e o presente da escultura através das técnicas antigas e atuais de reprodução. “Esculturas infinitas”, assim se chama, já se apresentou no Beaux-Arts de Paris e teve curadoria associada da ex-Diretora Penepole Curtis.

Uma pausa para vos anunciar que acabam de ser nomeados dois Diretores para os dois museus da Fundação que assim voltam a ser autónomos: para o de Arte Moderna, Benjamin Weil, francês há muito estabelecido em Santander e, para o Museu da coleção do fundador, António Filipe Pimentel, celebrado ex-Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga.

Os últimos podem ser os primeiros, no tempo e na atualidade do tema: exatamente no Museu Nacional de Arte Antiga, a exposição “Guerreiros e Mártires”, tomando como pretexto as representações dos Mártires de Marrocos (missionários franciscanos mortos no séc. XIII), encena as relações tensas ou de cruzamento e de compromisso entre o mundo artístico, social, político e militar muçulmano e cristão na Península Ibérica e no Mediterrâneo – que nos sirva de exemplo e de lição, não apenas artística.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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